APENAS UMA VEZ

Ele diz categórico, atrás daquela postura encurvada, “apenas uma vez é permitido esse erro”!

O olhar daquele idoso cheio de dignidade era de profundo cansaço naquele ambiente solitário

Gosto de imaginar histórias atrás de olhares, particularmente os nostálgicos

Acabei dando abertura e ele me confidenciou:

“Sou triste, mas tenho alegrias também, pois carrego a culpa de ter destruído nessa vida apenas uma família: a minha”

Falei que a vida é aprendizado mesmo, equilíbrio entre erros e acertos…

“Tive chance de talvez ser novamente feliz, mas não podia carregar o peso de afastar outro pai do convívio com os filhos, como aconteceu comigo e meus filhos”

Era uma pessoa melancólica, mas tinha uma certeza ao vasculhar seus arquivos pessoais

“Deus nos deixa agir errado, se é nossa escolha, mas o mesmo erro Ele só perdoa uma vez”

Era essa convicção que mantinha sua integridade moral

E ao fazer o equilíbrio, o balanço de sua vida

Erros iam sendo amenizados pelos acertos, fazendo a ponte entre perdas e ganhos…

Afirmei que não podemos carregar a responsabilidade da felicidade de todos, tentando animá-lo

E enfatizei que Deus até nos perdoa muitas vezes,

Mas nós mesmos é que, nem sempre, suportamos o peso de nossas culpas

“Nosso céu ou nosso inferno estão aqui dentro, moça bonita”!- diz apontando para a cabeça.

Felicidade que carrega o ônus da infelicidade alheia é muito pesada

E a vida acaba por cobrar o preço…

Alda M S Santos