Busca

Categoria

comportamento

A história se repete

A HISTÓRIA SE REPETE

A mesma angustiante história lá está

Continuamente a se repetir

Quer seja em nós, nos filhos, parentes ou amigos

Algo ela quer nos ensinar

Quem sabe um novo caminho a seguir?

Faz sorrir, faz chorar, faz desanimar, quase desistir

E ainda não aprendemos

Por isso ela está sempre a nos cercar

Tentando de todo modo nos alertar

Até quando vamos resistir?

A vida é sábia por natureza

Ela sempre se impõe, é forte

E tem uma ampla visão do porvir

No medo, na esperança, na dor

Até nas quedas que vier a permitir

Quer nos levar para novo patamar

De evolução, sabedoria e amor…

Alda M S Santos

Universo paralelo

UNIVERSO PARALELO

Alguns parecem viver num universo paralelo

Distantes e avessos ao que é tido como normal

Não gostam de seguir a boiada

Lutam por algo diferente, bem mais natural

Autênticos e verdadeiros

Não ferem a própria essência

Preferem ficar à margem

Ainda que acusados de demência

Entre tantos descaminhos

Dores e atrocidades de alta magnitude

Viver num universo paralelo

Além de autoproteção, chega a ser grande virtude…

Alda M S Santos

Ilusões

ILUSÕES

Carência faz-nos ver amor onde há só falsidade

Inocência faz-nos ver beleza onde há só aparência

Aparências impedem-nos de chegar à essência

Ilusões…

Fome faz-nos agradar com qualquer prato

Sede faz-nos alucinar com um oásis

Quedas fazem-nos inaptos para certos trajetos

Ilusões…

Culpas fazem-nos temer sanções assustadoras

Coração partido faz-nos acovardar diante de um novo amor

A fé, e somente ela, faz-nos sentir renovados

E nos leva aonde quisermos…

Alda M S Santos

Depende…

DEPENDE…

Um manhã ensolarada e morosa ou uma tarde longa e chuvosa

Uma noite na roça ao luar ou uma tarde na areia à beira-mar

Um inverno congelante ou um calor sufocante

Diante de uma sofisticada lareira ou em volta de uma simples fogueira

Uma cidadezinha do interior formosa ou uma grande metrópole famosa

Uma cachoeira na floresta ou uma praia deserta

Um sábado numa boate lotada ou um filme debaixo do edredom na madrugada

Um traje de gala sofisticado ou um vestido de flores delicado

Depende…

Tudo vai depender da companhia que se tem

Mais vale a escuridão de um caminho com um alguém

Que a iluminação de outro, na solidão, sem ninguém…

Alda M S Santos

Nossa toxicidade

NOSSA TOXICIDADE

Mundo tóxico em que vivemos

Onde dezenas de venenos são liberados

Agrotóxicos, “humanotóxicos”

Venenos banidos noutras partes

Têm livre uso por aqui

Alto índice de toxicidade

Nos alimentos, na água

Na agricultura, na cultura

Nas palavras, nas ações

No comportamento preconceituoso e discriminatório

Quem poderá dizer

Qual deles é mais fatal?

Matamos pragas, criamos doenças

Controlamos parasitas, descontrolamos nosso DNA

A ilusão de exterminar o que nos causa mal

Quer seja físico, emocional ou sócio comportamental

Torna o ser humano cada dia mais letal

Somos humanotóxicos com alto índice de toxicidade

Tentando aqui sobreviver mais um dia…

Alda M S Santos

Inhotim -Brumadinho- MG

Passa por dentro

PASSA POR DENTRO

Venha o que vier, estejamos onde estiver

Aconteça o que acontecer

Seja que problema for

A saída sempre passa por dentro

Por dentro de nós mesmos

Se é a saúde que incomoda

A mente que falha

O coração que aperta

O meio de fora que não ajuda

O outro que não corresponde

Não importa

Tudo só se resolve

Quando é absorvido e processado dentro de nós

Colocamos os problemas em nosso divã interior

Silenciamos e buscamos nossa “verdade”

Debatemos conosco mesmos

E chegamos a um bom veredicto

Uma boa saída

Nossos problemas se resolvem

Quando não fugimos deles

Ao contrário, nós os encaramos frente a frente

Sendo honestos e verdadeiros conosco mesmos

Assumindo nossas responsabilidades

Nas causas e nas consequências…

Toda saída tem um atalho

Que passa por dentro de nós!

Alda M S Santos

Sobras

SOBRAS

O que sobra aqui, falta lá

O que sobra lá, falta aqui

Espiritual, material, emocional

É preciso contrabalançar

Vivemos para tentar equilibrar

Fazer com que sobre menos

Lá e cá …

Diminuir as carências

De lá e de cá…

Equalizar essa balança

E fazer dessa dança existencial

Mais do que um solo que encanta

De preferência, um dueto emocionante

Um espetáculo sem igual…

Alda M S Santos

E o frio chegou…

E O FRIO CHEGOU…

E o frio chegou…

Tempo de desembaraços, de criar laços

De acertar os passos

E se aquecer em abraços

E o frio chegou…

Hora de fogueira ou lareira

Tempo de filme, pipoca e edredom

Na vitrola um nostálgico som

Luz baixa, química alta, tudo de bom

E o frio chegou…

Tempo de hibernar, reservar energia

Buscar intensamente uma calmaria

Numa taça de vinho encontrar a magia

E diante disso tudo entregar-se à vida

Que a tantos contagia…

E o frio chegou…

Alda M S Santos

Uns e outros

UNS E OUTROS

Há quem prefira encurtar caminhos

Outros optam por alongar-se nas distâncias

Há quem prefira devorar um biscoito

Outros o degustam saboreando pedacinho a pedacinho

Há quem prefira tomar e levar

Outros preferem conquistar e serem levados

Há quem prefira ganhar no grito

Outros gostam da suavidade encantadora de um sorriso

Há quem alce voos longínquos e inimagináveis

Outros preferem manter-se perto, não se afastar dos demais

Há quem prefira viver na segurança dos nados na superfície

Outros mergulham em busca de encantos escondidos

Há quem prefira ter fama, sucesso e veneração alheias

Outros contentam-se em não perder a própria admiração

Há uns e outros…

Todos lutando por um espaço!

Alda M S Santos

Não compro

NÃO COMPRO

Não compro essa “felicidade” que se vende por aí

Vitrines abarrotadas de produtos reluzentes

Enchem os olhos, agradam, atraem

Compradores seduzidos e ávidos

Hipnotizados diante de “seu” objeto de desejo

Pagam qualquer preço pelo seu sonho de consumo

Estoques lotados de mercadorias devolvidas

Consumidores insatisfeitos

Com felicidade vendida, embrulhada em bonitos pacotes

Feita em formas, em série, massificadas

Numa medida que não é da gente

Não compro essa “felicidade” que se vende por aí

Que não é feita no meu número, no meu manequim

Que precisa de reformas e retoques

Que deforma o que tem de belo na gente

Alegria fugaz à base de porcaria

Conteúdo feio em embalagem atraente

Sorriso que se desmancha na primeira ventania

Coração que sofre e chora dentro de um modelo apertado

Uma alma que perde o encanto, a magia

Não compro esse modelo de felicidade

Na verdade não quero nem doado

Bom mesmo é escalar a própria alegria na simplicidade

A felicidade deve ser feita sob medida

De cada alma, de cada coração…

Alda M S Santos

A pedra

A PEDRA

Uma pedra sendo todo dia lapidada

Martelo, formão, espátulas, lixas

Assim seguimos nós

Transformando-nos dia a dia numa escultura

Numa joia brilhante e preciosa, ou nem tanto

Mas de maior encanto e valor

Cuidando para não perder partes importantes

Retirando excessos e áreas pontiagudas

Aparando arestas, dando forma

Tratando cada detalhe com perícia e amor

Fazendo-nos uma obra de arte ímpar

Perante Aquele que nos criou

E nos observa e aguarda nosso retorno…

Alda M S Santos

Plano B

PLANO B

Não é bom ter um plano B, um substituto

Tampouco ser um plano B, uma reserva

A simples existência de um segundo plano

Aponta o descrédito que se tem no primeiro

E a não-entrega total a ele

Planos B sugam energias que deveriam ser aplicadas ao plano A

Quando se investe o bastante num “plano A”

Não há qualquer necessidade de plano alternativo

Ou prêmio de consolação

É preciso termos planos bons, originais

Dedicarmos a ele todo nosso potencial

E a cada vez que não funcionar

Recomeçar…

Ter um plano B não é ser precavido

É ser desconfiado, inseguro

Não faça de ninguém seu plano B

Não seja plano B de ninguém

Além de ser desrespeito com o outro

É desrespeito com seu próprio plano de vida

É desrespeito consigo mesmo!

Alda M S Santos

Um dia

UM DIA

Um dia ainda vamos entender

O bem que poderíamos ter feito

E não fizemos

O mal que poderíamos ter evitado

E não evitamos

Aquela dor que causamos a nós e aos outros

E não precisaríamos ter enfrentado

O novo rumo que poderíamos ter tomado

E não tomamos

Todos os avisos e alertas que recebemos

E ignoramos

As oportunidades de crescimento e renovação

E fechamos os olhos

As chances de fazer um movimento pelo amor e pela paz

E ficamos inertes

As famílias que poderíamos ter ajudo a construir

E destruímos

A vida que poderia ter sido bem vivida

E matamos…humanamente!

Mudar, construir o mundo grande lá de fora

Começa por não destruir o mundo pequeno no nosso entorno

Abrir as porteiras e deixar a luz nos iluminar de dentro para fora

Um mundo melhor precisa de cada um de nós!

Um dia pode ser tarde demais…

Alda M S Santos

Sem referencial

SEM REFERENCIAL

Cenário de catástrofe: terremoto, tsunamis, vendavais

Entulhos e mais entulhos, escombros

Nada mais de pé, sequer uma árvore, uma edificação

Nada que possa ser reconhecido, identificado

O banco da praça, a igreja

Uma torre de energia, um restaurante

A padaria da esquina, a casa de um amigo

Não há ruas, esquinas ou quarteirões

Apenas um todo de destruição

Perdidos, sem referencial…

Tantas vezes as ruínas estão em nós

Como encontrar alguém ali?

Como se encontrar ali?

Buscar em si aquele ponto de luz

Algo que permaneça inalterado

Que seja firme como rocha

Que nada nem ninguém consiga mudar

E ali se alojar aguardando as forças brotarem

Indicando um caminho para continuar

Um novo referencial

Para recomeçar…

Alda M S Santos

Silencie!

SILENCIE!

Às vezes o que precisamos é nos afastar de todos

Para nos sentirmos mais acompanhados, menos sós

Apagar os holofotes para podermos acender a luzinha que satisfaz

Silenciar para ouvir aquilo que a alma grita

Entender nossos monstros para poder derrotá-los

Errar para aprender a perdoar, a perdoar-se

Parar um pouco para conseguir prosseguir

Sentar com nosso anjo protetor e bater um longo papo

Quebrar-se todo para aprender a ser de novo inteiro

Às vezes precisamos fechar os olhos

Para poder enxergar aquilo que é essencial

E não está do lado de fora…

Feche os olhos, silencie!

Alda M S Santos

De ponta-cabeça

DE PONTA-CABEÇA

Se tudo parece errado, mal encaixado, fora do lugar

Oxigene, exercite, irrigue

Deixe a vida fluir, balance

Inverta prioridades, posições, mude de lugar

Fique de ponta-cabeça

Dê uma boa chacoalhada, uma remexida

Sinta o calor no rosto, a leveza

Pode bagunçar por uns tempos

Mas acaba devolvendo tudo para seus devidos lugares

De vez em quando fique de ponta-cabeça

Ver a vida por um novo ângulo

Enxergar tudo por uma nova perspectiva

Pode ser o que precisamos para recomeçar…

Alda M S Santos

Localização por satélite?

LOCALIZAÇÃO POR SATÉLITE?

Em tempos de GPS de todo tipo

Nos veículos, nos celulares, nos cartões de crédito

A nos proteger de roubos, assaltos, sequestros

Objetivando nos dar uma (pseudo)segurança

Intimidando todo tipo de meliante

Ao nos mostrar a localização de quem quer que seja

Em todo tempo e lugar, no mato, no mar

Na Terra ou no espaço…

Até onde podemos mesmo dizer que há segurança?

GPS que nos levam aonde a gente quiser

Ninguém fica mais escondido ou perdido

Há “olhos-vivos” por todos os lados e tudo veem

Mas o grande paradoxo desse mundo tão bem “localizável” digitalmente

É que nunca houve tantas pessoas perdidas de si mesmas…

Alda M S Santos

Buraco negro

BURACO NEGRO

Um grande abismo gravitacional

Que atrai para si tudo que se aproxima

Como um buraco negro na galáxia

A anos-luz de distância da terra

Alimenta-se, absorve, suga para si tudo que passa perto

Bom ou ruim, produtivo ou não

Quantas vezes somos assim?

Sugando sem critério a sorte ou o azar do outro

Suas alegrias e tristezas

Sua energia positiva ou negativa

Sua luz, sua escuridão, seus lixos existenciais

No buraco negro do espaço tudo desaparece lá dentro

Não sei o que isso causa com o tempo

Quanto a nós, chega o momento do basta

Muita coisa negativa absorvida e não processada

Não desaparece em nós, não some

Causa explosões, reverte-se em doenças físicas e emocionais

Transtornos diversos na alma

Morte em vida…

Precisamos de critério ao absorver energias alheias

Receber apenas o que pudermos processar e devolver em forma de luz…

Não somos um buraco negro!

Alda M S Santos

Distribuindo responsabilidades

DISTRIBUINDO RESPONSABILIDADES

Depois de apontarmos diversos culpados

Pelo que somos, fazemos ou deixamos de ser ou fazer

Pela situação em que nos encontramos

Pais, filhos, cônjuges, amigos, familiares, chefes

A escola, o emprego, o clima, a igreja, Deus

Depois de apontados diversos responsáveis pelos nossos entraves

Nossos erros e acertos

Depois de termos nos dado os devidos descontos

Que fica de verdade para nós mesmos?

Qual a responsabilidade que assumimos pelo que somos

Pelo que fizemos com a vida que nos foi oferecida

Pelas escolhas que foram nossas?

Pelo bem ou mal que causamos?

Quem ainda pode ser responsabilizado

Além de nós mesmos?

Tendo tudo isso esclarecido e assumido

Fica mais fácil prosseguir evitando cair nos mesmos buracos

Fugindo da escuridão e da falsa luz que ofusca…

Alda M S Santos

Quando apreciamos a solidão

QUANDO APRECIAMOS A SOLIDÃO

Um longo caminho a se percorrer

Como seres sociais que somos, sempre buscando companhia

Até gostar verdadeiramente da solidão

Não de estar só, pois isso nunca iremos gostar

Mas de estarmos conosco mesmos e apreciar isso

Não na fuga para um filme, um livro, um jogo

Mas bater um papo com nosso ser de ontem, de anteontem

Colocá-los frente a frente com o eu de hoje

Sem desviar os olhos no espelho, com vergonhas escancaradas e encaradas

Fazer as pazes com nossas escolhas, erros e acertos

Uma troca de autocompreensão e perdão

Para podermos nos ver amanhã, no futuro

Sem medos, ansiedades ou arrependimentos

Na certeza que demos nosso melhor como ser humano

E essa consciência só é possível na solidão, no autoconhecimento

Quando nos sentamos com a criança, o jovem e adulto que fomos, e somos

Pois todas elas ainda estão em nós

Só assim estaremos aptos a ter boas companhias…

Alda M S Santos

Conselheiros

CONSELHEIROS

Se quisermos saber se nosso conselho é bom mesmo,

Se nossas lições são dignas de serem colocadas em prática,

Se nossas críticas são válidas e construtivas

Basta pensar se o conselho serve para nós mesmos, de verdade

Se praticamos nossas próprias lições

Se as críticas não poderiam ser aplicadas também a nós

Porque opinar sobre a vida alheia é fácil

“Sentar no próprio rabo e puxar rabo alheio”- diria minha avó

Mas se tudo isso só vale para o outro

É melhor nos abstermos, recolhermos ao nosso canto e ficarmos em silêncio

Praticar em nossa vida nossos próprios conselhos

Só falar quando nós mesmos estivermos em condições para tal

Quando já tivermos escalado os galhos da árvore da sabedoria

Assim como “de boas intenções o inferno está cheio”

O mundo também está abarrotado de bons conselheiros…

Alda M S Santos

Estilingues e vidraças

ESTILINGUES E VIDRAÇAS

Estica bem, encaixa a pedra, prepara

E, ajeitando a pontaria, lança ao alvo

Certeiro ou não, sempre atinge alguém

Machuca, fere, opera ou não mudanças

Vidraças parecem tão seguras de si, “inatingíveis”

Vidraças trincadas, arranhadas, quebradas, atingidas

Tentam parecer fortes, se proteger, blindar-se

Mas as pedras sempre chegam

Estilingues são cruéis, nunca estão “satisfeitos”

Estilingues ou vidraças?

Qual nossa posição e olhar?

Somos alvo, peito aberto, vidraça, à mercê dos estilingues?

Somos estilingues lançando as pedras?

A visão de quem já foi estilingue

Muda sua postura quando vidraça?

Quais temos sido e como temos nos portado

Nessa luta incessante entre estilingues e vidraças?

Alda M S Santos

Barreiras físicas

BARREIRAS FÍSICAS

Barreiras físicas não impedem um sonho

Muros, cercas, barricadas não barram um ideal

Barreiras físicas, quando muito, retardam o objetivo

Dificultam a travessia, tornam a chegada mais valorizada e especial

Mas quando o sonho e a esperança são grandes e valiosos

Não há barreira física que impeça o avanço

Daquilo que é pura emoção…

Sonhos possuem asas, voam alto e atravessam qualquer obstáculo!

Alda M S Santos

Que nunca se aceite

QUE NUNCA SE ACEITE

Que nunca se aceite a submissão humana

Seja por qualquer razão ou alegação

Raça, cor, credo, gênero, cultura, opção sexual

Ideologia política, condição social ou financeira, títulos, religião

Que nunca se aceite a hierarquização humana

Aquela que gera opressão, fome, tortura, segregação

Medos, traumas, prisões, guerras, morte, exclusão

Que nunca se aceite que se humilhe e desumanize seres humanos

Sob o lema falso de Deus, da lei, da ordem e do progresso

Porque quando se submete a essas “leis”

Quando se aceita esse tipo de perversidade inócua

Quando não mais nos incomodamos, quando há omissão

Grande parte de nós já se afastou de Deus, já deixou de ser humano

Já deixou de ser coração…

Que nunca se aceite! Nunca!

#ditaduranuncamais

Alda M S Santos

Fotos Google

Desertificando

DESERTIFICANDO

Um planeta desértico estamos nos tornando

Picos de temperatura, amplitude racional, aridez emocional

Deserto de compaixão, de doação, sensação de solidão, abandono

Desconhecimento do outro, que parece tão longe ou inexistente

Perdidos e sem rumo, a esmo, presos à ingratidão

Grudados a “valores” questionáveis, a egos indomáveis

Mas como em todo deserto

Enquanto houver lembrança da umidade e frescor

Enquanto brilhar a esperança de um oásis

Enquanto estiver firme o desejo de mudança

Ainda será possível abrir os olhos e o coração

A despeito da ventania, da areia, do calor intenso

E, em marcha, seguir toda a humanidade

Um passo de cada vez

Um ser humano após o outro

Em busca de nova vida…

Alda M S Santos

Teimosia

TEIMOSIA

Uma vida de teimosias, de bater de pé, de insistências

Um joelho esfolado que cicatriza

Um braço fraturado que se cola

Um coração partido que não se emenda

Teimosias…

Uma lágrima que escorre junto a um sorriso que ilumina

Tal qual arco-íris pós tempestade

Um corpo alquebrado que se refresca num rio caudaloso

Que se renova num abraço carinhoso

Teimosias…

Uma mente conturbada em curto-circuito

Uma alma repleta e, paradoxalmente, ainda cheia de espaço

Um ser humano pensado e criado para não desistir

Quando tudo parecer ruir

Teimosias…

Amor: a maior teimosia do mundo

Mas a única capaz de ainda garantir o viver…

Alda M S Santos

Olhe para mim

OLHE PARA MIM

Olhe para mim, mas olhe devagar

Preste atenção, demore-se…

Olhe e me enxergue verdadeiramente como sou

Um alguém que precisa de você, de carinho e atenção

Não me deixe ir embora, silenciar

Não quero fugir para dentro de mim, me afastar

Quero estar com você, sentir você

Sentir-me uma pessoa amada…

Não quero mergulhar no meu mundo

Quero fazer parte do seu mundo também

Sinto-me só, um ninguém nesse mundo

Do qual tantas vezes quis ir embora

Nesse seu mundo tão “perfeitinho” sinto-me um nada

Olhe para mim! Me abrace!

Por favor, me enxergue, faça-me ver propósito nessa vida

Que eu possa ser importante, necessária ao menos pra você

Preocupe-se comigo, me imponha limites de amor e cuidado

Olhe para mim!- é o grito silencioso de tantas crianças e jovens

Ao se rebelarem, enfurnarem-se no quarto

Quebrarem regras, ultrapassarem limites

Tantas vezes têm “tudo”, mas falta-lhes o essencial

Sentir-se alguém no mundo de alguém

Falta amor em atitudes simples

O amor é que nos faz ter prazer no viver

Aquele amor demonstrado no cuidado e atenção diários

O amor é que impede que tantos queiram acabar com a vida, com o inexistir

“Olhe para mim!”

Alguém perto de nós está gritando esse pedido…

Prestemos atenção!

Alda M S Santos

Somos todos responsáveis

SOMOS TODOS RESPONSÁVEIS

A cada vez que ignorei um grito de socorro

A cada vez que não ouvi um silêncio sofrido

Eu também fui responsável

A cada vez que não me importei com as lágrimas

A cada vez que chamei de frescura a dor do outro

A cada vez que menosprezei o diferente

Eu também fui responsável

A cada vez que exigi que os outros fossem iguais a mim

A cada vez que desconsiderei as dificuldades individuais

Eu também fui responsável

A cada vez que ignorei e me calei

Quando gordos, homossexuais, feios, negros ou pobres foram ridicularizados

Eu também fui responsável

A cada vez que nada fiz, que pensei “esse problema não é meu”

Eu contribuí para que uma tragédia pudesse crescer

E ganhar forma dentro de alguém já doente e excluído

É fácil e cômodo culpar a política, a segurança, a educação, a estrutura familiar

São culpados sim!

Mas que possamos assumir com coragem nossa parcela de culpa

A cada vez que nos fechamos em nosso mundo particular

Que somos individualistas e egoístas

Que pensamos que “amar a teu próximo como a ti mesmo”

Parece coisa de otário

Ou que ajudar o outro mais carente é “dar o peixe” para preguiçoso

Nós também fomos responsáveis

Por inércia ou instigando o mal

Nós contribuímos para que uma tragédia pudesse acontecer

Bem pertinho de nós …

Muitas vezes desconsiderando que estamos no mesmo mundo

Que ele gira e balança todo o tempo

E nada garante que não explodirá algo em nosso colo!

Somos responsáveis por cada flor impedida de germinar

Pensemos nisso!

Somos todos responsáveis!

Alda M S Santos

Jogo da vida

JOGO DA VIDA

Tal qual bola branca no bilhar

Que sofre o golpe inicial do taco

E lança todas as demais bolas

Num bate e rebate

Num vai e volta frenético

Umas sempre interferindo na trajetória das outras

Rumo à caçapa ou fugindo dela

Por menor que seja o movimento

Cada “tacada” nossa atinge muitas outras vidas

Somos bolas e tacos nessa grande sinuca

Ora tacando, ora sendo tacados

Desviando ou caindo nas caçapas da vida

Não existe movimento “inocente”

Calculado ou não, planejado ou descuidado

Até a inércia é um movimento que afeta todo o jogo…

Alda M S Santos

Mexidos e remexidos

MEXIDOS E REMEXIDOS

Sabe aqueles dias que nos sentimos um suco remexido

Daqueles que estavam “descansados”

Com o conteúdo sólido, denso, depositado no fundo

E o que é leve dando cor, leveza e sabor

Misturado, à mostra ou na superfície, facilitando a vida?

Aí vem algo e balança tudo

E o que “pesa” mistura-se novamente

Como vento que levanta a poeira assentada

Lança as folhas para todos os lados

Derruba galhos, agita lagos, lagoas e mares

Novo trabalho de descanso e repouso é exigido

Para a vida seguir leve, colorida e saborosa

Ainda que o pesado que repousa lá no fundo

Seja aquilo que dá vida e sustentação a todo o resto…

Alda M S Santos

Quero a verdade

QUERO A VERDADE

Quero toda e qualquer verdade

Aquela que é escondida atrás de um sorriso

Ou disfarçada num olhar fosco e vago

Quero a verdade que tentamos deletar da memória

Que possa magoar ou nos ferir fundo

Vinda num silêncio tenso ou num grito angustiado

Quero a verdade doce que traz alegrias ou esperanças

Capaz de curar qualquer dor

Quero a verdade amenizada nos eufemismos

Ou revestida e clareada nas metáforas

Quero a verdade que ficou perdida nos buracos do caminho

Aquela que foi acovardada nos medos e decepções

Quero a verdade que nos move, que dá o brilho ao olhar

Aquela que nos impulsiona sempre para frente

A despeito de qualquer entrave, obstáculo ou subterfúgio

Quero a verdade mesmo que cause vergonha, traumas ou culpas

Aquela que soterramos nos escombros de nós mesmos

Quero a verdade sempre, ofereço a verdade sempre

Mesmo que ela termine com um “perdoe-me”, “te amo”, “tenho orgulho de você”

A verdade deve ser sempre a liga de todo tipo de relação saudável

De amizade, de trabalho, de amor

Quero a verdade sempre!

Alda M S Santos

As tochas estão acesas

AS TOCHAS ESTÃO ACESAS

“Bruxas” expulsas de algum “paraíso”

Julgadas e condenadas à fogueira

Onde ardiam a queimar o ”mal”

Junto dos livros subversivos, e todo seu material

Conhecimento sempre foi problema

Para quem, sem argumentos, precisa de fantoches

É mais fácil dobrar um povo alienado

Que aceite se curvar, ser manipulado

Proíbem uma fala, um jeito de ser, uma expressão

Logo será um livro, um jeito de trabalhar, uma profissão

Quando assustarmos já estará acesa a “fogueira”

Na qual arderão os conhecimentos das “bruxas” de plantão

As tochas estão acesas…

Alda M S Santos

Ao sabor do vento

AO SABOR DO VENTO

Um barco, uma âncora, uma bandeira a balançar

Seus olhos observam, sua alma voa

Ao sabor do vento navegam no oceano

Leva para lá e traz de volta para cá

E nesse constante remexer, nessa brisa refrescante

Ora é paz, calmaria, ora é tempestade, inconstância

Tenta encontrar seu lugar, se encaixar

Ser barco, ser âncora, ser vento, ser pouso…

Joga água salgada no rosto, aquece-se ao sol

Tenta lavar e aquecer também a alma

E o barco balança, a âncora repousa

O porto está longe e a bandeira balança ao sabor do vento

Fecha os olhos e, como ela, solta-se, entrega-se, deixa-se levar…

Alda M S Santos

Gosto de gente

GOSTO DE GENTE

Gosto de gente

De barulho de gente silenciosa

De silêncio de gente barulhenta

De ter gente por perto

Ainda que não interaja com elas

Gosto de observar, de aprender com o que vejo

Gente me inspira, me faz refletir, me atrai

Gosto de gente que acerta, que erra

Sobretudo que aprende com os erros, que se desculpa

Gosto de gente malucona, fora dos padrões

Gosto de conversar com gente de verdade

Gente que é real, instável ou insegura

Gente imperfeita como eu, meio fora de órbita

Mas conectada em outras “gentes”

Gosto de imaginar uma história para cada um que vejo

Tenho até vontade de confrontar dados

Ou seja, gosto de gente que não se envergonha de ser gente

Gosto de gente que se comunica com o olhar

Gosto de imaginar o que o olhar diz

Gosto de gente que não passa por cima de gente em hipótese alguma

Gosto de gente que respeita gente, que dá as mãos

Gosto de um pouco de solidão também

De caminhar sozinha à beira-mar ou no meio do mato

E ruminar tudo que vejo e sinto

Assim fica mais fácil lidar com gente que mora dentro da gente

Inclusive as muitas de nós…

Gosto de gente!

Alda M S Santos

Precisamos nos armar de amor

PRECISAMOS NOS ARMAR DE AMOR

Já estamos armados!

Fomos aos poucos sendo armados com a navalha da intolerância

Temos posse do sentimento de superioridade de todo tipo

Portamos conosco o veneno social e fatal do preconceito

Carregamos no bolso sem trancas ou cuidados a revolta e angústia contra males sofridos

Nossa aptidão para uso e manuseio está determinada pela pontaria

Exames psicológicos atestam nossa normalidade e direito à “defesa”

Tudo isso junto torna as armas de fogo apenas detalhes letais

Facas, espadas, revólveres e quaisquer outras armas

São apenas instrumentos do motor da intolerância que já trazemos licenciados em nós

Tendo esse motor uma pedra, um pau, uma garrafa

Até mesmo nosso corpo são armas letais

Com o motor do preconceito e da superioridade liberados

A diferença entre a posse e o porte de armas é circunstancial

Fica a cargo da raiva ou humor que você carrega no momento

De quem tiver atravessado seu caminho

Em casa, no trânsito, no trabalho, nas relações “amorosas” ou sociais

Já estamos armados!

Se quisermos mudar algo precisamos nos armar de amor…

Alda M S Santos

Teias sociais e familiares

TEIAS SOCIAIS E FAMILIARES

Tecemos nossas relações familiares e sociais

Como uma grande teia, um emaranhado no qual transitamos bem

Conhecemos os cantos e recantos, os nós, os laços, os embaraços

As linhas paralelas, aquelas que nunca se cruzam

As vias mais frágeis, as mais resistentes

Mas, como numa teia, qualquer anormalidade

Um inseto distraído, intruso que chega movimenta toda a sua estrutura

A aranha tem trabalho para proteger seu espaço de invasores

Tecer novamente o que foi danificado

Temos trabalho para reconstruir nossas relações social e familiar

Quando elas sofrem qualquer dano ou perda: interna ou externa

Mas só nós podemos fazê-lo

Fomos nós que, como aranhas, as construímos

Nós, como aranhas, conhecemos cada ponto como ninguém

E logo nova teia estará pronta

Mais forte e ainda mais resistente!

Alda M S Santos

Enquanto isso…

ENQUANTO ISSO…

Enquanto a humanidade busca suas companhias

Enquanto seleciona o amor, a família, as amizades e afinidades

Enquanto conserva, mantém ou destrói relações

Focando demasiadamente em físicos padrão, em corpos jovens, bonitos e desejáveis

O que encontramos quase sempre

São corpos sarados e (des) acompanhados

Mentes tantas vezes doentes e solitárias

Almas abandonadas e tristes

Em seres humanos tantas vezes infelizes

Que não se sentem bem consigo mesmos, que roubam o bem estar de outros

Incapazes de ser ou de fazer alguém feliz

Sem chão, perdidos…

A humanidade precisa se reencontrar…

Alda M S Santos

Trocas imperceptíveis

TROCAS IMPERCEPTÍVEIS

Tantas trocas quase imperceptíveis

Gentilezas por sorrisos, grosserias por afastamento

Doação por gratidão, negligência por saturação

Respeito por admiração, superioridade por antipatia

Sinceridade por empatia, abraços por beijos, doces por queijos

Interesse por aproximação, desrespeito por violência, mentira por desconfiança

Atenção por carinho, ingratidão por inimizades

Descuidos por tanto faz…

A vida nos devolve aquilo que oferecemos

Muitas vezes sequer percebemos

Atraímos o que emitimos

A reciprocidade advém da sintonia de pensamentos e ações

Sintonia é coisa de alma…

Alda M S Santos

Perdas

PERDAS

De tudo que é passível de perdas

Quase nada se dá de uma vez, de supetão

Normalmente é perda gradativa, gradual

E podemos perceber se prestarmos a devida atenção…

O emprego, a lucidez, o lazer, a faculdade

A destreza, a saúde, a alegria, a agilidade

A confiança, a consciência, a fé, um amor ou uma amizade…

Tudo, tudo que se perde, que se vai, emite sinais

Quando precisa de uma injeção de ânimo, de dedicação

Quando já não está tão perto ou tão forte como se imaginava

Quando urge um sofro para manter o calor

Quando para manter vivo necessita mais cuidado e proteção…

Tudo que é passível de perdas

Emite luz de alerta, pisca-pisca ou holofote

No observar e no agir diário está a diferença entre sair vitorioso ou derrotado…

Alda M S Santos

A Lua mudou

A LUA MUDOU

A coluna dói mais quando a Lua muda de fase

Se o tempo esfria, aquela dor crônica nas articulações piora

Se o joelho incomoda já sabe que vem chuva

A Lua Cheia inspira os amantes

A maré baixa causa indisposição

A natureza dando sinais no corpo

Ou o corpo buscando justificativa para suas alegrias e mazelas?

Chuva, dias nublados, Sol, Lua, estrelas

Belezas, dores e amores inspiram poetas

Ou sua inspiração que faz com que vejam tudo isso

Onde ninguém mais vê?

Transformam em poemas o que veem lá fora

Ou o lá fora apenas ativa, atiça o que já têm cá dentro?

O joelho dói porque vai chover

Ou vai chover porque o joelho doeu?

Qual a mudança na Lua lá em cima

Que sensibiliza poetas cá embaixo?

Que marés são capazes de virar nossos ventos internos?

Ou será que a sensibilidade está bem mais perto daqui

E a Lua é apenas a Lua, o mar apenas o mar,

O amor apenas mais uma dor?…

A Lua mudou…

Alda M S Santos

Costurando amor sem medidas

COSTURANDO AMOR SEM MEDIDAS

Costuro uma peça de amor sem medidas

Uso tecidos finos, grossos, lisos ou estampados

Ora com moldes pré-definidos ou pilotos recebidos

Ora unindo partes afins aleatoriamente

Muitas vezes com todo cuidado e técnica possíveis

Usando entretelas, drapeados, instintivamente, testando, criando

Faço um alinhavo para não deixar nada escapar

Tenho o cuidado com acabamentos em bainha e cós

Utilizo recurso do viés para dar leveza e flexibilidade a peças rígidas

E sigo cosendo, ora em linha reta, ora zigue-zagueando ou em pontos cruz, artisticamente

Quando a linha apresenta nó, desembaraço com cuidado

Prossigo em pontos cheios, variados, corto, reinicio

Muitas vezes a peça se rasga, preciso cerzir e prosseguir

Faço alguns caseados, prego botões

Emendo partes que recebo, tenho que tirar outras que não combinam

Enlaço, faço arremates…

A peça nunca parece pronta, ajeito direitos e avessos, vou e volto

Mas insisto e persisto, vou usando-a assim mesmo

Ela só será entregue no destino final

Para o grande “Estilista” da vida avaliar…

Alda M S Santos

Copas&cabanas

COPAS&CABANAS

Um dos hotéis mais luxuosos e dispendiosos da cidade

Cobiçado por muitos, conquistado por poucos

Ali circulam riqueza e nobreza nacionais e internacionais

Reis, rainhas, grandes damas e personalidades, a nata social

Uma diária equivale a valor superior ao salário de um mês de grande parte da população

Contraste social: grandes e pequenos

Luxo e desperdício, falta , fartura e carência

Reis, damas e valetes de copas dentro, fora e no entorno

Reis e valetes em seus palácios e cabanas na Praia de Copacabana

Reis, valetes e a grande plebe de palácios, copas e cabanas

Numa enervante desigualdade social…

Alda M S Santos

Deliciosos paradoxos

DELICIOSOS PARADOXOS

O corpo tão “morto”, tão cansado, tão pesado

Que tem dificuldades para relaxar e descansar

Em contrapartida, a alma tão viva, tão leve, tão agradecida

Que quer curtir, relembrar mais um pouquinho os bons momentos

Assim funciona o ato de doar-se em prol de alguém

Fraternidade e generosidade renovam esperanças de um mundo melhor

Mais humano, menos violento, mais amoroso

Quem dá ou recebe já não se sabe, não se identifica

E não importa, todos ganham!

Alda M S Santos

Fome de quê?

FOME DE QUÊ?

Você tem fome de quê?

De amor, de justiça, de igualdade social?

Na luta desesperada por mudar o que está errado

Várias receitas se apresentam

Várias massas, de muitos sabores

Juntam-se, não misturam-se, sovam-se

Mas para toda massa há o ponto certo

Só não pode passar dele senão encrua ou queima

E não se torna o produto final desejado

Cada massa visa apenas um bolo bonito, grande

Menos amargo, mais saboroso

E que possa ser repartido com todos…

Colhemos aquilo que plantamos e se pudermos repartir, melhor…

Todo cuidado é pouco para não nos tornarmos aquilo que desprezamos

E conseguirmos, cedo ou tarde, por caminhos nem sempre fáceis

Alimentar a fome de amor, de justiça, de respeito e igualdade social

Seja na vida pessoal, na religião, no esporte, na política…

Alda M S Santos

Prefiro falar de amor

PREFIRO FALAR DE AMOR

“Por que você não fala de política nos seus textos e poemas?”

Porque prefiro falar de coisas que “domino” e nas quais me sinto bem.

“Mas você não pode se omitir, você é ‘influente’ na nossa comunidade, nas escolas, no trabalho social”.

Gosto de falar de amor, de vida, de solidariedade, de família.

“Você não acha que tem uma certa responsabilidade social quando escreve”?

Exatamente por isso eu escolho não misturar as coisas.

Falo do que gosto, do que percebo ou sinto nos outros.

Falo daquilo que penso poder ajudar ou, ao menos, não atrapalhar.

“Não está sendo ingênua achando que se calar diante da política é ajudar?”

Não! Prefiro me calar diante de assuntos que envolvem paixão.

Política, futebol e religião envolvem mais paixão que razão ou amor.

Prefiro falar de amor, de natureza, onde me sinto mais à vontade.

“Fazer boa política não é também um modo de amar os outros?”

Talvez! Mas eu escolho fazer o amor de outras maneiras menos ácidas.

“Mas você não tem uma posição política”?

Sim, claro! Mas não tenho desejo de convencer ninguém de nada!

Mesmo ouvindo certas barbaridades, a meu ver, prefiro me eximir de opiniões.

Já há muitos “entendidos” por aí para opinarem…

Cada qual atua no campo que gosta, na posição que domina.

Usa as habilidades recebidas, com a camisa que defende,

Ainda que apenas no coração…

Alda M S Santos

Nublado

NUBLADO

Quero um dia inteirinho de chuva

Daqueles cujo céu fique totalmente encoberto

Chuvinha constante, ora fininha, ora mais intensa

Daqueles que nos “autorizem” a ficar o dia todo sob as cobertas

Sem precisar justificar, sem precisar de um porquê

A nostalgia e introspecção comuns desses dias nos liberam para tal

Eles são, por si só, a razão do recolhimento

Sentindo o friozinho úmido lá de fora, as gotas da chuva escorrendo na janela

Cheirinho de terra molhada, flores agradecidas, pessoas correndo

Escondendo-se sob as marquises, dividindo guarda-chuvas

Umas felizes, outras praguejando, esbravejando

Os abraços molhados, os encontros, os reencontros

O amor, a saudade de infância que sempre fica no ar…

Crianças sempre amam, andam nas enxurradas, nada temem

Adoro observar as pessoas em dias assim

O cinza molhado ativa as cores ou ausência delas nas pessoas

Os cães sequer saem das casinhas

O bem-te-vi por certo também está em “casa”

Um pijama macio, uma meia velha, cabelos revoltos, uma xícara de chá

Um livro, um filme ou uma música

Uma história para escrever…

Sei lá…

Dias nublados e chuvosos são dias muito produtivos

Ainda que o produto seja apenas interno e invisível aos olhos de fora…

Alda M S Santos

Farol

FAROL

Luz forte no alto de uma torre na escuridão total

Serviam de guia, de alerta, de aviso aos navegadores solitários

Desviavam navios de perigos vindos de montes de terra que irrompiam em alto mar

E poderiam fazê-los perecer

Fachos de luzes intermitentes, potentes, constantes, brilhantes

Refletidas a longas distâncias

Mas nem toda luz livra do perigo ou do mal

Até mesmo os faróis tiveram os seus “afundadores”

Aqueles que se passavam por alertas do bem

Quando na verdade era luz falsa que emitiam

Para atrair navios para zonas perigosas e saqueá-los

Cacos de vidro se passando por diamantes

Até mesmo a luz pode enganar, pode cegar

Podemos muitas vezes enxergar melhor em exígua luz

Ou até mesmo na escuridão em que a vista se acostumou

Do que numa forte luz enganosa…

A luz que vem de dentro é a que ilumina verdadeiramente!

Alda M S Santos

Abusos sexuais: “as feridas nunca prescrevem”

ABUSOS SEXUAIS: “AS FERIDAS NUNCA PRESCREVEM”

Abusos de qualquer tipo contra pessoas já são terríveis

Abusos sexuais, idem, contra crianças, uma atrocidade

Vindos daqueles que deveriam protegê-las do mal

É, no mínimo, uma monstruosidade!

Vindo de pais, tios, avós, irmãos, padrastos e familiares é vergonhoso!

Vindo dos mentores da fé: padres, pastores e religiosos

Nos quais elas e familiares depositam confiança e acolhimento na dor

Tidos como representantes de Deus na terra

É desumano, aterrador, revoltante, desanimador!

Mas nunca devemos nos esquecer que as “igrejas” e as famílias

São formadas por pessoas e, como tais, passíveis de patologias graves

De maldades severas, sendo ou tornando-se desumanas!

Escandalizar-nos com isso é aceitável, é necessário, urgente

Até para cobrar posturas mais duras para coibir tais práticas

Mas generalizar não é inteligente ou benéfico!

Famílias não deixam de ser uma boa instituição porque algumas são negligentes ou maldosas.

A fé ou a igreja, sejam elas quais forem, não deixam de ser um apoio moral, de ter seu valor espiritual,

Porque nela há membros transgressores e monstruosos!

Acabar com os frutos podres, onde quer que estejam, é a atitude correta!

Como disse o Papa Francisco citando São Paulo “Se um membro sofre, todos sofrem com ele”.

Dói saber que quem deveria nos salvar de monstros podem ser os próprios monstros!

Como cristãos devemos cobrar posturas humanas e corretas não só nos lares, nas famílias, nas escolas, nos hospitais,

Mas também na igreja que frequentamos, que somos, que acreditamos

E não pecar por omissão, acobertamento ou indiferença!

A melhor igreja é aquela que carregamos no peito e ajudamos a construir…

Sem hipocrisias! O que temos feito para proteger nossos lares, nossas famílias e as famílias dos outros?

As feridas não prescrevem nunca!

Alda M S Santos

Cenas da cidade

CENAS DA CIDADE

Burburinho de gente na estação do metrô

Corre e corre para pegar o ônibus integração

Trem lotado, perfumes misturados, smartphones

Alguns conversam, um casal abraçado, um senhor idoso, de pé, é ignorado

Entra e sai constante a cada estação

Uma multidão atravessa no semáforo aberto

Outros correm entre os carros mesmo

Caminho na larga calçada sem muita pressa

De um lado da avenida o Parque Municipal, árvores, lagos, brinquedos e edificações tombadas

No meio, o Ribeirão Arrudas canalizado, águas sujas

Do outro lado, prédios e mais prédios

Um ambulante vende loterias: “hoje é dia da sorte”

Outros vendem biscoitos, salgados gordurosos, variedades

Outro grita: “moça bonita que sorrir não paga…”

E a gente ri, não da piada antiga, mas da expressão do vendedor

Pessoas apressadas, umas sorriem, dizem bom dia

Outras ainda dormem nos bancos, ao lado de lixeiras

Enroladas em seus cobertores, provavelmente doações

Debaixo de árvores ou nos cantos das ruas

Ruas que são suas casas…

Bens públicos e bens privados usados inadequadamente

Tantos rostos, tantas histórias…

Vontade de perguntar a cada uma delas o que se passa

Mas eu também sigo, também tenho uma história, sou parte da cena da cidade.

Refletindo sobre a vida, entro no hospital, desejo “bom dia”

“Posso ajudar?”- um porteiro solícito pergunta

Quero gritar: “acordem todos”!

Mas falta-me a voz, a coragem

“Onde marco cirurgias”?

“Siga em frente, moça, até o fim”!

Parece profético!

“Pode deixar, seguirei…”- ele sorri

“Obrigada! Bom trabalho”!

“Boa cirurgia, Deus abençoe!”-alguém que não é indiferente.

Da janela do andar lá em cima observo as cenas da cidade…

Como será que somos vistos do Alto, por Ele?

Esse louco formigueiro humano disputando espaço

Atrapalhadamente, vivendo…

Alda M S Santos

No mesmo barco

NO MESMO BARCO

Brasileiros, franceses, espanhóis, americanos

No mesmo barco

Línguas nativas, línguas maternas a misturar-se

Comunicação flui bem

Ora verbal, truncada, ora nos gestos e sorrisos

Monossilábica, mímicas ou mais contextual

Mas a comunicação ocorria…

Talvez até mais que entre línguas “iguais”

Mas de interesses e vontades diferentes

Falar a mesma língua é muito mais que se expressar pelos mesmos vocábulos

Usando o mesmo idioma

É ter desejo real de entender o outro, o que ele “fala”

Até mesmo sem nada dizer

E de se fazer entender…

Falar a mesma língua pode-se fazer até no silêncio, à distância

Aquele que se expressa no amor contido nos sorrisos

No desejo muito humano de ser aceito

E de aceitar o outro, humanamente

Num toque delicado e carinhoso, seja ele qual for

Na linguagem universal que todos entendem:

O sorriso, o amor…

Alda M S Santos

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: