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poemas e reflexões da vida cotidiana

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Adaptação

Cara lavada

CARA LAVADA

A cara é pintada, enfeitada

Para chamar atenção ou esconder emoção

Que resta quando a cara é lavada?

Quase sempre faz estardalhaço

A vida de um palhaço é só embaraço

Que se desfaz num beijo, num abraço

Nessa vida de palhaçada

Vai levando toda a meninada

A sorrir dia, noite ou madrugada

Mas pode ser cilada, não se deixe enganar

Se o sorriso se abrir, mas o olhar não acompanhar

Ao palhaço feliz falta amar…

Que resta quando a cara é lavada?

Alda M S Santos

Lutos

LUTOS

Vivemos uma vida de lutos, de perdas

De despedidas, de adeus, de dores

Choramos, sofremos…

Mas toda morte e despedida trazem consigo um renascer

Um broto de vida, novo, lindo

Um recomeço…

Abrir a janela de nossos corações

Deixar a luz entrar, aquecer a terra fértil de nossa alma

Chorar, se preciso for, para irrigar

Deixar brotar nova flor, novo amor

Luto é fim de uma etapa

Recomeço de outra, nova semente pronta para crescer

Novo jardim florir, perfumar, encantar

Como ela será só depende dos jardineiros envolvidos

Sentir uma perda, viver o luto é natural e até necessário

Aceitar a mudança e cultivar o novo é essencial

Que sempre saibamos nos despedir

E acolher as novas sementes…

Alda M S Santos

Nossos desertos

NOSSOS DESERTOS

Em nossos desertos internos

Pode faltar água

O sol castigar a pele

A aridez do solo queimar os pés

As tempestades de areia machucarem o corpo

O calor excessivo do dia causar alucinações

A friagem congelante da noite paralisar a emoção

Mas nunca se perde a esperança

De descansar à sombra de um arbusto

De encontrar vida ativa

De encontrar um oásis…

Essa espera que nos faz enfrentar todos os medos

Toda a secura de nossos desertos internos

O desejo de sobreviver é maior

Mas é a expectativa e a visão de um oásis mais à frente

Que nos alimenta nesse duro caminhar

Que abastece o coração de vida

Que mantém a alma em atividade e estado de espera…

Não importa quando

Apenas sabemos que o oásis irá chegar…

Isso basta!

Alda M S Santos

O que você vê?

O QUE VOCÊ VÊ?

O que você vê quando olha para a vida ?

Uma estrada longa, quente e comprida

Ou uma sombra refrescante na subida

O sol forte que queima e dá lombeira

Ou seu brilho e calor que te faz desejar uma cachoeira

A chuva forte sem hora, sem cabimento

Ou o arco-íris que ilumina o firmamento

As árvores que produzem flores e frutos no quintal

Ou a sujeira que fazem no local

O mar azul que acolhe os banhistas

Ou a maré alta que invade a pista

A Lua Cheia que abraça os namorados

Ou a escuridão onde se escondem os marginalizados

A moça bonita, de olhar distante,

Sentada na areia, na beira do mar

Ou aquela de andar vacilante

Sonho distante, a caminhar?

Qual o seu olhar para a vida?

Isso irá determinar

O quanto ela pode ser colorida…

Alda M S Santos

Tão pequenos

TÃO PEQUENOS

Tão pequenos somos nós

Diante da grandiosidade do universo

Tão grandes somos nós

Em busca de algo precioso

Tão pequenos somos nós

Quando nos recolhemos em nós mesmos

E ignoramos todo o resto

Tão grandes nos sentimos nós

Frente a tanta batalha inócua

Tão pequenos somos tantas vezes

Ao nos sentir perdidos e sem rumo

Tão grandes somos nós

Lutando, debatendo, ferindo, machucando a todos

Tão pequenos, tão grandes

Depende do referencial

O que vale de verdade, e é preponderante

É o que fazemos de especial

Quando nos sentimos tão grandes

Quando nos sentimos tão pequenos

Tão acompanhados ou tão solitários…

O mundo precisa de gente grande

Não de críticas ou julgamentos

O mundo precisa de gente grande

De sentimentos e de atitudes!

Alda M S Santos

Essa luz…

ESSA LUZ…

Passa por pequenas frestas

Clareia o caminho, nos guia

Tantas vezes é ignorada

Essa luz é condutora de energia

Passe o tempo que passar

Sempre será ela a mais procurada

Essa luz acende esperanças, insiste

Invade recantos mais escuros

Não teme a dor, não desiste

Escala montes, derruba muros

Essa luz reflete o que há na alma

É condutora, principalmente de amor

Abre trilhas, constrói pontes

Atrai e une sentimentos e pessoas afins

Liga, conecta interior ao exterior

Essa é a luz do Senhor!

Deixe-se iluminar!

Alda M S Santos

Meu mundo para

MEU MUNDO PARA

Nas mil voltas que esse mundo maluco dá

A gente vai tentando não cair, nos segurar

Apegando-nos a algo que nos faça seguir

Que não nos trave no mesmo lugar

Tantas vezes queremos tocar a campainha

Dar um sinal que avise que queremos parar

Cansados estamos, tontos, só queremos descer

Arrumar um cantinho, encolher para descansar

Girando por aí para todos os cantos

Notamos que tantas vezes precisamos é nos soltar

De algo a que nos apegamos e nos prende no mesmo lugar

Por não querer seguir, se envolver, participar

Tantas as travas, tantas as tristezas

Que podem fazer nosso mundo parar…

Urge focar nas alegrias, nos estímulos, no belo

No amor que precisamos para fazer nosso mundo girar…

Alda M S Santos

Obra valiosa

OBRA VALIOSA

Tantas vezes acreditamos que

Em se tratando de construção antiga

O melhor é jogar tudo ao chão

E recomeçar do zero, evitar a fadiga

Refazer tudo, não investir tempo em reparos…

Pensamos que reformar é trabalho perdido, sai caro

Serviço porco, costumamos dizer

E se nosso Criador nos olhasse nessa mesma perspectiva?

Nossas paredes trincadas por abalos sofridos

Nossa cobertura danificada pelas tempestades de granizo

Áreas com mofo, descascadas, esquecidas num canto

Infiltrações importantes em partes fundamentais

Ferrugem corroendo nossa estrutura emocional

Base gasta pelo uso excessivo e impensado

Portas e janelas mal instaladas, soltas

Espaços impróprios que não recebem luz

Rede elétrica com falhas, produzindo choques no coração

Será que valeria a pena a reforma

Ou Ele preferiria começar conosco do zero

Levar-nos de volta para refazer o trabalho?

Como anda essa obra valiosa que somos nós mesmos?

Temos cuidado bem dela?

Ou terá que ser demolida?

Alda M S Santos

A chave

A CHAVE

Uma porta, uma fechadura, uma chave

Inseriu, girou, abriu

Nem sempre é assim tão simples

Pode estar emperrada como nunca se viu…

Às vezes a chave não é aquela

A fechadura está enferrujada

Ou talvez te falte o jeitinho

Para enfrentar essa parada

Outras vezes a porta não está à vista

Exigirá muito tato e habilidade

A chave não é tão concreta

Mas feita de carinho e intimidade

Não há portas intransponíveis

Tampouco fechaduras invioláveis

O que nos falta é perícia e perseverança

Para torná-las acessíveis, maleáveis

Se a força bruta não adiantou

A chave também não serviu

Não adiantará de nada arrombar

Use o amor, seja doce, seja gentil

E pela porta poderá entrar e ficar…

Alda M S Santos

Luz e sombra

LUZ E SOMBRA

Ora luz, ora sombra

Ora claridade, ora escuridão

E ali ficamos nós buscando equilíbrio

Entre a liberdade e a prisão

Entre luzes e sombras

Procuramos um caminho enxergar

Um passo após o outro

A trilha que irá nos acalmar

Fechamos e abrimos os olhos

Para com a penumbra nos acostumar

Inspira, expira, relaxa

Para a paz poder reinar…

Alda M S Santos

Demolição

DEMOLIÇÃO

Demolir é tão importante quanto construir

Tantas vezes é pré-requisito para uma nova construção

Trincar, quebrar, desmoronar, ruir

O que não serve mais deixar cair, jogar no chão

Entregar-se, se preciso, à emoção

Sofrer, chorar, lamentar, mas levantar

Das ruínas tirar uma lição

Aproveitar o que for útil, der suporte

Regar com suor, sorrisos ou lágrimas esse chão

E ali construir base sólida, forte

Aproveitar a demolição para recomeçar

Nova e bela construção

Um novo castelo nascido em nós ressurge

Só assim mantém-se vivo nosso coração…

Alda M S Santos

Sobras

SOBRAS

O que sobra aqui, falta lá

O que sobra lá, falta aqui

Espiritual, material, emocional

É preciso contrabalançar

Vivemos para tentar equilibrar

Fazer com que sobre menos

Lá e cá …

Diminuir as carências

De lá e de cá…

Equalizar essa balança

E fazer dessa dança existencial

Mais do que um solo que encanta

De preferência, um dueto emocionante

Um espetáculo sem igual…

Alda M S Santos

E o frio chegou…

E O FRIO CHEGOU…

E o frio chegou…

Tempo de desembaraços, de criar laços

De acertar os passos

E se aquecer em abraços

E o frio chegou…

Hora de fogueira ou lareira

Tempo de filme, pipoca e edredom

Na vitrola um nostálgico som

Luz baixa, química alta, tudo de bom

E o frio chegou…

Tempo de hibernar, reservar energia

Buscar intensamente uma calmaria

Numa taça de vinho encontrar a magia

E diante disso tudo entregar-se à vida

Que a tantos contagia…

E o frio chegou…

Alda M S Santos

Ele é amigo

ELE É AMIGO

Não tenha medo ou receio

Pode não parecer, mas ele é amigo

É paciente quando possibilita reflexões e aprendizados

Mesmo que nos faça não só sorrir, mas também chorar

É sábio mesmo quando é rápido e veloz

Quando parece nos abandonar ou deixar para trás

Quando parece nos limitar ou cortar nossas asas

Mesmo sem nos tocar ele nos atinge

Não há como fugir dele

Seu efeito é variável de pessoa para pessoa

Age de modo individual em cada mente

Influencia com doçura ou amargura cada coração

Ainda que pareça só fazer o mal

Ele é amigo, tenta parear conosco

É um remédio que se não cura, imuniza

De longe ou de perto, ele está sempre presente

Mesmo à nossa revelia o tempo age

E porque age é nosso amigo

Sempre!

Percepção que só se tem quando ele passa…

Alda M S Santos

Impotência

IMPOTÊNCIA

Impotência diante de um mundo que parece girar tão rápido

Mas em tantas outras vezes parece tão estacionado

Impotência diante da dor do outro

Quando só nos cabe oferecer um abraço

Impotência diante de perdas irreversíveis

Quando só nos resta a dolorosa saudade

Impotência diante da esperança desbotada, sem cor

Quando falta tinta para pintá-la, renová-la, sem pudor

Impotência diante da própria inércia

Quando, cansados, quase desistimos

Quase caímos, quase entregamos os pontos

Quase…

Mas preferimos, como Fernando Sabino, fazer

“Da queda um passo de dança”

E seguir…

Alda M S Santos

Salve-se quem puder

SALVE-SE QUEM PUDER

Tempos difíceis vivemos

A vida como a conhecemos pede socorro

Preta, branca, amarela ou vermelha

Salve-se quem puder

Somos capazes de ouvir?

A humanidade corre risco

Nem isso é capaz de nos unir?

Salve-se quem puder

Não há como se esconder ou fugir

Dinheiro, bens, títulos, posses diversas nada valem

O único modo de nos salvarmos

O único transporte possível para nos tirar daqui

É o que carregamos dentro de nós

A medida exata entre razão, amor, compaixão

A capacidade de nos vermos como espécie

Como um todo que faz parte de algo maior

Salve-se quem puder não é lema individual

Só nos salvaremos se agirmos coletivamente

Não há como se salvar deixando o outro para trás

Na perspectiva da continuidade da vida

Ou nos salvamos todos, ou nos perdemos como raça, como espécie…

Salvemo-nos todos se pudermos!

Alda M S Santos

Borboletas…

BORBOLETAS…

Quisera essa leveza, essa cor, essa liberdade de ser

De flor em flor, jardim em jardim, puro prazer

Quisera encantar, polinizar, a vida levar nas asas

De metamorfose em metamorfose, voar, renascer

Quisera nunca perder a fé, acreditar num propósito maior

Saber onde pousar, em quem poder confiar

Ainda que seja curta e fugaz

Levar uma vida intensa de amor e paz

Quisera jamais perder a calma e trazer na alma a certeza

De que tudo está em seu devido lugar

Quisera sua marca aqui poder imprimir e deixar

Tal qual bela, leve e encantadora borboleta…

Alda M S Santos

Esquecer ou lembrar?

ESQUECER OU LEMBRAR?

Você já se esqueceu?

A vida continuou, não parou

Ao menos não parou para todo mundo

Mas para aqueles que sofreram a perda de alguém

Dor, angústia, lágrimas, revolta, tristeza, medos

Às vezes precisamos esquecer

Para seguir vivendo…

Noutras, exatamente ao contrário,

Precisamos lembrar de quem partiu e vive em nós

Para não nos sentir morrendo…

Uns precisam de 30 dias, meses ou anos para esquecer

Outros se lembrarão e serão lembrados

Mesmo que passe uma vida inteira

Algo sempre estará rompido em quem perdeu alguém

Que representou no mínimo 50% de seu viver

Esquecer ou se lembrar continuamente

São modos similares de ativar novamente a válvula da vida…

Alda M S Santos

Mexidos e remexidos

MEXIDOS E REMEXIDOS

Sabe aqueles dias que nos sentimos um suco remexido

Daqueles que estavam “descansados”

Com o conteúdo sólido, denso, depositado no fundo

E o que é leve dando cor, leveza e sabor

Misturado, à mostra ou na superfície, facilitando a vida?

Aí vem algo e balança tudo

E o que “pesa” mistura-se novamente

Como vento que levanta a poeira assentada

Lança as folhas para todos os lados

Derruba galhos, agita lagos, lagoas e mares

Novo trabalho de descanso e repouso é exigido

Para a vida seguir leve, colorida e saborosa

Ainda que o pesado que repousa lá no fundo

Seja aquilo que dá vida e sustentação a todo o resto…

Alda M S Santos

Next!

NEXT!

A vida, muitas vezes, parece com aqueles cadastros online

Onde há lacunas obrigatórias a serem preenchidas

Não adianta ignorar, fingir que não viu

Recusar-se a cumprir a tarefa

Não há como prosseguir!

Sempre aparecerão os erros que impedem “a próxima página”

Ou os resolvemos, ou empacamos ali

São “problemas” cuja solução são a senha para o próximo passo

São erros(!) cujo alerta sinaliza que há algo impedindo a passagem

Que é preciso voltar atrás, corrigir, consertar, preencher

Ou, simplesmente, ficar ali estacionado

Não é vergonha pedir ajuda

Há erros e lacunas que não resolvemos sozinhos

Vergonha é repetir o mesmo erro até ser bloqueado

Next! Em frente! Enfrente!

Alda M S Santos

Haja lágrimas!

HAJA LÁGRIMAS!

Nem bem uma lágrima seca

Um soluço passa

A descrença começa a perder força

Vem outra tragédia para irrigar a emoção

Puxa vida! Haja lágrimas!

Deus, tenha piedade de nós

Cuide de nosso Brasil

Não nos deixe perder a fé em dias melhores

Em boas pessoas, na capacidade de lutar

E seguir em frente

Mesmo com tudo balançando todo o tempo

Despencando e querendo nos levar daqui

Será que seria tão ruim ir embora?

Vontade de chorar e chorar…

Alda M S Santos

Minúsculos grãos de areia

MINÚSCULOS GRÃOS DE AREIA

Uma imensa galáxia composta de muitos corpos celestes

Uma esfera terrestre cheia d’água, mares e rios

Fauna, flora, minerais…

A balançar nesse infinito espaço sideral

Que nunca se derrama ou cai

Dentro dessa esfera estamos todos nós

Minúsculos grãos de areia com a liberdade cerceada

Mantidos “presos” ali pela lei da gravidade

Unindo-nos uns aos outros para não cair

Dando-nos as mãos para nos sentirmos menos sós

E fazer da nossa esfera mental uma galáxia menos complexa, mais livre

Até poder escapar desse planeta e atingir o multiverso lá fora

Do qual somos parte, mas muitas vezes nos sentimos excluídos…

Alda M S Santos

Perseverança

PERSEVERANÇA

É preciso perseverar!

Férias não duram para sempre

Festas têm fim, lazer tem prazo determinado

Paz e tranquilidade não são eternas

Mas podem oscilar menos dentro de nós

Para manter algo de bom

Conquistado em momentos ímpares

É preciso perseverar!

Saber usar a bateria que foi recarregada

A emoção que foi bem trabalhada

A alma que se abasteceu transbordando encantos e cuidados

É preciso perseverar!

Se quisermos manter a cor e o tom do verão

O dourado bonito da pele que atinge a alma e faz brilhar o sorriso

A leveza, a tranquilidade e doçura de uma brisa marinha

Ou vivermos para sempre em lua de mel com a vida

É preciso perseverar!

Enfrentar com energia e paciência os outonos e invernos

Curtir também o que de bom podem oferecer

Não se pode desesperar

É preciso perseverar!

Alda M S Santos

Humanos aranhas

HUMANOS ARANHAS

Somos humanos aranhas a tecer

Alguns tecendo teias fortes como o aço

Outros teias frágeis, mas impregnantes

Há os que tecem, sem objetivos de captura, apenas proteção

E ainda aqueles que sequer são capazes de construir teias

Esses, especialistas em se tornar presas de outras aranhas

Grudados em outras teias…

Há também as “aranhas” que buscam presas em outras teias

Já capturados por outras aranhas

Estamos, de todo modo, presos em alguma teia

De seda ou de aço, não importa

Cuidando da que construímos e de quem “capturamos”

Ou nos adaptando à teia em que fomos capturados

A liberdade consiste em escolher a “prisão”

A teia na qual estaremos nos fazendo de livres…

Alda M S Santos

Em casa, onde quer que seja

EM CASA, ONDE QUER QUE SEJA

No meio do mato, perdida na mata

Ouvindo os sons do silêncio

Em casa, onde quer que seja…

Numa estrada de terra, margeada de buganvílias

Sentindo o cheiro das cores intensas

Em casa, onde quer que seja…

Mergulhada nas águas de um rio gelado

Dependurada de ponta a cabeça numa árvore centenária

Em casa, onde quer que seja…

Numa casinha de pau a pique, numa barraca de lona

Num colchonete sob céu estrelado

Em casa, onde quer que seja…

Debaixo de uma tempestade, sem energia

Ouvindo o tamborilar das gotas insistentes na janela

Em casa, onde quer que seja…

Num jardim florido e colorido, entre abelhas e borboletas

Ouvindo as cigarras agitadas e o “motor”dos beija-flores

Em casa, onde quer que seja…

No deserto, numa região árida e seca, sob sol escaldante

Em busca de um oásis sonhado

Em casa, onde quer que seja…

A sensação de estar em casa em qualquer lugar

Surge quando estamos bem conosco mesmos

Quando acalmamos nossos gritos, fazemos as pazes com nossos silêncios

Nossa verdadeira casa é aquela que carregamos conosco

Como caracóis…

Se essa casa abala alicerces, trinca paredes, desmorona, em qualquer lugar nos sentiremos intrusos

Todos queremos estar sempre

Em casa, onde quer que seja…

Alda M S Santos

Vamos brindar?

VAMOS BRINDAR?

Vamos brindar aos sins que recebemos na vida

Aqueles que nos abriram portas, iluminaram nossos caminhos

Elevaram nossa autoestima, nossa fé em nós mesmos

Facilitaram nossas conquistas e nos permitiram alegrias…

Vamos brindar?

Vamos brindar também aos nãos que nos foram ofertados

Aqueles que nem sempre entendemos no momento

Tristes, amargos, cortantes, frustrantes, maldosos

Que interromperam nossa caminhada, esburacaram nosso trajeto, nos deixaram ali por uns tempos

Que tantas vezes nos revoltaram, contra os quais nos rebelamos e batemos de frente

Mas que, mesmo dolorosos, nos fizeram crescer…

Vamos brindar?

Mais que os sins, os sobreviventes dos nãos são mais fortes

Não são derrubados por qualquer ventania ou tempestade

As perdas e as quedas são, cedo ou tarde, impulsos para se levantarem

Sabem o momento de lutar e o momento de recuar

Ou, simplesmente, quando é necessário aguardar ou quando não dá para fazer nada…

Sobreviventes dos nãos aprenderam a extrair deles o que é útil e passível de evolução

E seguir tentando ignorar o que não faz bem…

Aos sins e aos nãos da vida que sempre existiram e sempre existirão

Vamos brindar?

Tim, tim!

Alda M S Santos

De onde vem esse vento?

DE ONDE VEM ESSE VENTO?

De onde vem esse vento

Que a muitos causa medo

E a poucos traz alento?

De onde vem esse vento

Que levanta saias, despenteia cabelos

Carrega chapéus e ignora apelos?

De onde vem esse vento

Que bagunça o que estava arrumado

Na pretensão de arrumar o que estava bagunçado?

De onde vem esse vento

Que tanto carrega para lá e para cá

Mas não me leva desse lugar?

De onde vem esse vento?

Alda M S Santos

Vira-latas

VIRA-LATAS
Somos mestiços, oriundos de várias raças
Uma mistura que nos torna SRD
Sem raça definida, carregamos características de vários povos
Ora somos fortes, resistentes e adaptáveis 
Pés-duros, confiáveis, amigos
Ora somos frágeis e de baixa autoestima
Acusados de tudo fazer, de virar latas por um pedaço de pão
De nos rebaixarmos para receber um carinho na cabeça
Dependentes da aprovação daqueles que consideramos mais, superiores
Mas carregamos conosco as misturas de uma raça não definida, híbrida
E o que de bom ou ruim isso possa acarretar
Com toda a força, fidelidade, inteligência, confiabilidade e resistência
De quem tudo já enfrentou
E de quem não se entrega assim tão facilmente
Um vira-latas morre lutando, acreditando na vida
Nunca deixando de amar…
Alda M S Santos

Reflexos de luz

REFLEXOS DE LUZ

Dia encoberto, nebulosidade intensa

O sol não apareceu…dia “triste”

Rei, cedeu a vez para as nuvens chorosas

Não deixou de existir, não foi embora

Está lá, apenas se pôs atrás, ficou na retaguarda

Ainda assim, emite luz entre nuvens

Aquela que possibilita a sombra das árvores

A mesma que permite o reflexo nas águas…

Tantas vezes quando tudo em nós parece nebuloso e sem esperança

Quando só notamos sombras

Seria bom que lembrássemos que não se formam sombras

Onde a escuridão é total…

Nossa luz, como o sol, apenas está na retaguarda

Busquemos por ela, saibamos esperar

Admirando e aprendendo com os reflexos que se formam

Nas águas que minam de nossos olhos

E irrigam um novo desabrochar…

Alda M S Santos

Deixe-se levar

DEIXE-SE LEVAR

Deixe-se balançar ao sabor do vento que sopra forte

Ora para um lado, ora para o outro

Deixe-se encharcar pelas águas que inundam

Ora as doces do céu, ora as salgadas do oceano

Deixe-se emocionar pelos sentimentos dentro de si

Não resistir, não fincar pé, não engolir choro gera resiliência

A capacidade de envergar, mas não quebrar, nos fortalece

Quanto maior a capacidade de se flexibilizar

De mover-se ao sabor do que é maior, mais forte do que nós

Mais engrossamos nosso tronco, nossas raízes, nossa essência

Preservamos o que é importante…

As grandes árvores balançam ao sabor das ventanias

E suas raízes são cada vez mais profundas

Seu equilíbrio entre flexibilidade e rigidez é que garante sua sobrevivência…

Alda M S Santos

Fases e faces

FASES E FACES
Fases, faces, brilho e sombra
Prerrogativas da Lua, das pessoas
Minguante, minguando, definhando em C invertido
Um ser recolhido perdendo luz, abraçando sombras, até ser Nova
Sombra total, escuridão, brilho oculto na outra face
Aquela escondida de todos, preservada, um ser em tempo de esperas
Sol, Lua, céu, pessoas…
Fases: construção do novo, maré, podas, plantação
Crescente, crescendo expectativas, alimentando esperancas, recebendo luz até ser Cheia, redondamente linda
Cheia de si, de brilho e orgulho, transparência
Sol, Lua, céu, pessoas…
Fases… dos seres vivos, dos amantes
Toda sombra esconde um brilho
Todo brilho esconde uma sombra
Fases, faces, brilho e sombra
Prerrogativa da Lua, das pessoas
Minguando, se escondendo, crescendo, aparecendo
Enquanto houver céu e sol
Dentro e fora de nós…

Alda M S Santos

Choques

CHOQUES

Vivemos nos equilibrando entre virtudes e defeitos

Que trazemos dentro de nós, que são inerentes a todo ser humano

Tentando fazer valer o que nos faz bem sem machucar ninguém

Lutando para deixar prevalecer o que nos faz crescer sem decrescer ninguém

Qualidades e defeitos de dentro em confronto com as de fora

Acionadas pelos convívios que travamos todo o tempo

Uns atiçando mais nossos defeitos

Outros despertando mais nossas virtudes

Tentando não queimar ou sofrer com os curto-circuitos

E sobreviver aos choques entre nosso céu interno que quer brilhar

E o inferno externo que quer se impor e ganhar

E vice-versa…

Buscando um fio terra que estabilize esse circuito de vida e morte…

Alda M S Santos

O valor de uma vida

O VALOR DE UMA VIDA

Ânsia, necessidade premente de seguir

Seguir em frente para o desconhecido, o novo

Até onde não haja mais chão para caminhar

E ali pousar…

Ânsia, necessidade premente de seguir

Seguir, mas pegando o retorno, voltar

Até um bom lugar, um ponto pacífico, saudoso, confiável

Buscar o conhecido, prazeroso, sentar

E ali pousar…

Todo desejo de seguir esconde um embutido desejo de estacionar

Num lugar de tranquilidade e paz…

Enquanto houver propósito de seguir haverá vida

Em pouso ou em trânsito…

Cada qual faz sua melhor versão do caminho

Cada um sabe o valor de sua vida e das vidas alheias …

Alda M S Santos

À vontade

À VONTADE

Tão à vontade num chinelo de dedos

Quanto num salto Luiz XV

Tão confortável num moletom surrado

Quanto num vestido de gala cheio de brilhos

Tão sensual num baby-doll de algodão de florzinhas

Quanto numa lingerie de seda vermelha

Tão em paz num salão barulhento e dançante

Quanto no silêncio debaixo do edredom assistindo uma comédia

Tão satisfeita diante de um prato de arroz, frango com quiabo e angu

Quanto num restaurante degustando caviar

Tão alegre num voo para um destino paradisíaco e deslumbrante

Quanto na rede da varanda de uma casinha na roça

À vontade todos nós sempre buscamos estar

E estaremos somente quando encontrarmos a paz dentro de nós

Estar confortáveis e satisfeitos em qualquer situação do mundo

Não tem muita relação com o exterior

Estar à vontade no mundo e com os outros

Implica estar à vontade consigo mesmo em primeiro lugar

Isso nem sempre é fácil ou tranquilo, é vai e vem

É busca sem fim, constante, para a vida toda…

Alda M S Santos

Um vento passou por aqui

UM VENTO PASSOU POR AQUI

Um vento passou por aqui

Aproveitou as janelas abertas e invadiu

Quebrou trancas e tramelas, portas destruiu

Muita coisa bagunçou, outras embora levou

Derrubou esperanças, sorrisos apagou, portas fechou

Um vento passou por aqui

Misturou o certo e o errado, o doce e o salgado, a autoconfiança minou

Mentiras criou, verdades questionou, inimigos levantou

Debates inventou, calados despertou, falantes calou

Um vento passou por aqui

O que era rígido, mas frágil, caiu e quebrou

O que era firme, forte, mas flexível balançou e se solidificou

O que era verdadeiro e leve flutuou e se eternizou…

Um vento passou por aqui

Entre tantas desordens que causou

Entre tanto que trouxe e levou

Algo de novo possibilitou, coisas antigas reafirmou:

Solidez não rima com rigidez,

A água tudo contorna, não pelo peso, mas pela persistência e fluidez

Amor e simplicidade têm primazia sobre qualquer ventania

Um vento passou por aqui…

E sua marca deixou… o sorriso replantou…

Alda M S Santos

Um dia de cada vez…

UM DIA DE CADA VEZ

Quando a felicidade estiver muito próxima da tristeza

Quando a força exigida para manter-se de pé

Estiver fragilizando ainda mais as pernas

Melhor deixar-se “cair”, reconhecer-se frágil

Talvez até impotente naquele momento

Sentar-se à beira da estrada, descansar de tantas dores e cobranças

Dos outros, de si mesmo, principalmente

Abastecer-se de fé e coragem, reconhecer-se humano

E quando a força for chegando aos poucos, se renovando

Levantar, voltar a seguir, um passo de cada vez, degrau por degrau

Lembrando do aprendizado que ficou para não cair ou derrubar novamente

Construindo pacientemente um novo caminho para si

Nem tão longo, nem tão difícil ou penoso

Abrindo os olhos para a luz que se apresenta à frente

Enxergando e vencendo apenas um dia de cada vez…

Alda M S Santos

Tenho medo

TENHO MEDO

Tenho medo de qualquer posicionamento extremo, radical

Sem qualquer apologia às “folhas de bananeiras”

Que balançam ao sabor do vento

E ora estão de um lado, ora do outro

Ter uma opinião formada não quer dizer que precise ser engessada, inflexível

Mudar o modo de ver algumas coisas só nos engrandece

Tenho medo das consequências negativas do radicalismo, dos preconceitos

Tenho consciência que até o amor, a maior e mais eficaz arma do mundo

Se usada de modo radical é prejudicial

Sou a favor da flexibilidade, do saber ouvir, do se fazer entender

Mas, principalmente, do saber respeitar

Intolerâncias geram violências que nos desumanizam

Verdades são apenas opiniões de pessoas diferentes entre si

E ter uma opinião diferente não faz ninguém melhor ou pior que os demais

O que difere os seres humanos é o modo pacífico ou agressivo de se manifestar

O que hierarquiza as pessoas é o respeito que demonstram diante do diferente de si

Porque a quem nos parece diferente

Certamente também pareceremos estranhos

E uma conversa respeitosa faz com que todos cresçam como seres humanos

O que é impossível sentados no trono que julga e condena o que é diferente

Tenho medo! Muitos medos!

E isso vale para qualquer esfera da vida

Social, familiar, política, amorosa, artística, religiosa, esportiva…

Com habilidades e cuidado somos capazes de a tudo conquistar

Precisamos todos de mais amor e respeito

Menos insultos, menos julgamentos…

Mais humanidade!

Alda M S Santos

Antes ou depois?

ANTES OU DEPOIS?

Vidas que se dividem entre o antes e o depois

Que se separam entre dois marcos estáveis

Como naquelas fotos pareadas e em “evolução”

Antes e depois de um corte de cabelo

Antes e depois de uma reeducação alimentar

Antes e depois de um procedimento cirúrgico

Antes e depois de qualquer tratamento estético

O antes sempre pior, o depois sempre melhor

E os antes e depois do lado de dentro?

Fotos pareadas da nudez da alma

Marcos de uma alma nua e em evolução

Antes e depois da faculdade

Antes e depois do casamento

Antes e depois dos filhos

Antes e depois do trabalho social

Antes e depois daquela viagem

Antes e depois da aposentadoria

Antes e depois daquela perda irreparável

Antes e depois de uma tragédia ou trauma

Antes e depois de um amor ou amizade…

Antes ou depois?

Dicotomias da vida em que buscamos evoluir

Nos quais os depois nem sempre são melhores

Mas não podem representar estagnação

Existe um “entre” a ligar os antes e os depois

Um “entre” em que toda dor ou alegria ocorre

E o que acontece nesse making-off

É tão ou mais importante que as tão valorizadas imagens congeladas antes/depois

Nossa vida é um continuum

E é nessa continuidade que o mais valioso ocorre…

Antes ou depois?

Eu prefiro o durante…

Alda M S Santos

Pronta para servir

PRONTA PARA SERVIR

Junte um sorriso, alegria de viver e fé em Deus

Misture bem

Acrescente confiança, carinho e compaixão

Dissolva todo o tempo

Enfrente as decepções, os medos, a tristeza, o abandono

Descarte os excessos, aquilo que azedaria a massa

Regue com lágrimas e faça um bolo único

Reserve

Deixe em repouso até crescer

Unte a forma com aprendizado e sabedoria

Cubra com muito amor sincero

Pincele novamente com um sorriso

Polvilhe mais fé em Deus e alegria de viver

Está pronta uma pessoa forte!

Pronta para servir

Junto da família e dos verdadeiros amigos

Alda M S Santos

Descompasso

DESCOMPASSO

Em qual estação estamos lá fora?

E cá dentro?

Estamos no mesmo compasso

Ou há flores perfumadas, cores vivas e macias na primavera lá fora

Enquanto cá dentro perdemos folhas e poupamos a raiz em secos e terrosos outonos?

Em qual estação estamos?

Mergulhamos em mornos oceanos e cachoeiras refrescantes

No verão quente, colorido e cheio de energia lá de fora

Ou hibernamos em longos, frios e escuros invernos cá dentro?

Somos atingidos pela força e vitalidade da estação lá de fora

Flores, perfumes, cores, calor, animação e alegria

Ou somos contagiados apenas pelo frio, pela neve, pelo repouso, pelas ventanias?

Dançamos, brincamos e amamos na chuva

Ou apenas fugimos das tempestades?

Esse constante descompasso entre a estação interna e externa

Tem sido capaz de promover a dança da vida

Ou passamos a festa toda sentados numa cadeira?

Viver todas as estações em plenitude é que importa

Independente se estamos no mesmo compasso da música lá de fora

A música cá de dentro é que precisa tocar e nos satisfazer…

Alda M S Santos

Coringa

CORINGA

Uma carta coringa assume qualquer valor

Habilidade de encaixar-se, de se sobrepor

Coringas são neutros, adaptam-se sem qualquer pudor

Uma roupa coringa cai bem em qualquer ocasião

Um prato coringa que atende qualquer refeição

Um programa coringa que alegra qualquer coração

Um sentimento coringa que lida bem ou substitui qualquer emoção

Uma pessoa coringa que acalma ou anima com prazer, sem razão, com paixão

Um palhaço que alegra, mesmo chorão

Que encanta, mesmo bobalhão

Que alegoricamente malicioso, da sua inteligência não abre mão…

Ser ou ter um coringa? A pergunta não é se…

Mas quando lançaremos mão dessa enigmática representação

Que muitas vezes nos salva de nossas próprias tolices, boas ou não…

Alda M S Santos

#carinhologos

Manuais

MANUAIS

Não quero manuais, não quero receitas

Tampouco tutoriais ou passo a passo

Eles são bons para os outros

Ou assim acreditamos

Na prática, para nós mesmos, são cansativos

Nunca funcionam!

Inexperiência, impaciência ou desejo de aprender fazendo

Não importa!

Funcionariam para seres iguais, medidas idênticas, habilidades idem

Somos diferentes, a começar pelas digitais, DNA atesta e confirma

Prefiro ir na base da tentativa e erro

Aperto daqui, vou, volto, sigo

Acrescento ingredientes, deixo em repouso, boto para crescer

Escrevo, apago, refaço, reescrevo minha história

Ainda que fique borrada onde não foi possível apagar marcas deixadas

Capítulos inacabados, páginas viradas, personagens perdidos, sem destino

É tão simples que se torna complexo

Nenhum manual saberia guiar individualidades

Manuais lidam com acertos, não preveem erros

Aqueles nos quais ficamos dependurados, tentando nos equilibrar para não cair

E a vida acontece quase sempre entre um erro e outro…

Alda M S Santos

Como andar de bicicleta

COMO ANDAR DE BICICLETA

Se a gente parar, reduzir, pensar demais,

A gente se distrai, amedronta, perde a confiança, cai!

Quando aprendemos a andar de bicicleta

Logo depois que retiramos o conforto e segurança das rodinhas

O equilíbrio se mantém e nos impede de tombar, de cair

Enquanto estamos em movimento, pedalando

Aos poucos, devagar, depois de alguns tombos, feridas

Vamos aprendendo a reduzir lentamente

Ouvindo alguns conselhos amigos

Descartando aqueles que, invejosos ou ciumentos,

Visam apenas nos ferir e desestabilizar

Avaliando os riscos, mantendo-nos sobre o selim,

Nas retas primeiro, fugindo das curvas.

Só então poderemos realmente sentir o passeio,

Aumentar nossa força e coragem, dar um tchauzinho

Observar a paisagem, sentir o vento no rosto,

As pessoas que passam, os outros ciclistas

Pedalar junto, dar carona, apostar uma corrida

Nos arriscar nas curvas convidativas, nos declives acentuados

Ajudar outros ciclistas, e curtir…

Certos e conhecedores dos pontos críticos

Que outros tombos podem ocorrer,

Mas que estaremos mais fortes.

A vida é, por vezes, como andar de bicicleta

Somos tantas vezes aprendizes!

Se a gente parar, reduzir, pensar demais,

A gente cai!

E o sentido, tanto de andar de bicicleta

Quanto de viver, está no prazer que se obtém disso

Basta observar uma criança em sua bicicleta

Que, apesar dos tombos, insiste, sorri, comemora

Vamos pedalar! Vamos viver!

Alda M S Santos

Cenas da cidade

CENAS DA CIDADE

Burburinho de gente na estação do metrô

Corre e corre para pegar o ônibus integração

Trem lotado, perfumes misturados, smartphones

Alguns conversam, um casal abraçado, um senhor idoso, de pé, é ignorado

Entra e sai constante a cada estação

Uma multidão atravessa no semáforo aberto

Outros correm entre os carros mesmo

Caminho na larga calçada sem muita pressa

De um lado da avenida o Parque Municipal, árvores, lagos, brinquedos e edificações tombadas

No meio, o Ribeirão Arrudas canalizado, águas sujas

Do outro lado, prédios e mais prédios

Um ambulante vende loterias: “hoje é dia da sorte”

Outros vendem biscoitos, salgados gordurosos, variedades

Outro grita: “moça bonita que sorrir não paga…”

E a gente ri, não da piada antiga, mas da expressão do vendedor

Pessoas apressadas, umas sorriem, dizem bom dia

Outras ainda dormem nos bancos, ao lado de lixeiras

Enroladas em seus cobertores, provavelmente doações

Debaixo de árvores ou nos cantos das ruas

Ruas que são suas casas…

Bens públicos e bens privados usados inadequadamente

Tantos rostos, tantas histórias…

Vontade de perguntar a cada uma delas o que se passa

Mas eu também sigo, também tenho uma história, sou parte da cena da cidade.

Refletindo sobre a vida, entro no hospital, desejo “bom dia”

“Posso ajudar?”- um porteiro solícito pergunta

Quero gritar: “acordem todos”!

Mas falta-me a voz, a coragem

“Onde marco cirurgias”?

“Siga em frente, moça, até o fim”!

Parece profético!

“Pode deixar, seguirei…”- ele sorri

“Obrigada! Bom trabalho”!

“Boa cirurgia, Deus abençoe!”-alguém que não é indiferente.

Da janela do andar lá em cima observo as cenas da cidade…

Como será que somos vistos do Alto, por Ele?

Esse louco formigueiro humano disputando espaço

Atrapalhadamente, vivendo…

Alda M S Santos

Superamos?

SUPERAMOS?

É preciso superar e seguir em frente, todos dizem

Mas quando se pode dizer que superamos?

Quando o problema foi eliminado, deixou de existir

Ou quando não o deixamos mais nos atingir?

Quando a ferida foi da alma apagada

Ou quando a lembrança já vem sem doer, está liberada?

Quando nominamos todos os responsáveis pelo bem e pelo mal

Ou quando já não se culpa mais ninguém pelo vendaval?

Quando as ausências já não são tão grandes, foram preenchidas

Ou quando optamos por deixá-las ter seu próprio espaço, acolhidas?

Quando podemos dizer que superamos?

Será que é quando se desiste de esquecer o que passou, bom ou ruim

E decide carregar ambos na bagagem; o ruim como aprendizado e o bom como saudades?

Será que é quando perdoa-se falhas cometidas por quem quer que seja

E aceita-se o porvir como presente?

Ainda que o brilho no olhar nem sempre venha dos sorrisos,

Mas das lágrimas saudosas que possam irrigar as lembranças e o viver?

Estarmos vivos quer dizer que superamos, que fomos mais fortes que tudo?

Sempre penso nisso ao fixar no olhar de todos eles…

Superaram? Superamos?

Alda M S Santos

#carinhologos

Decantar para não desencantar

DECANTAR PARA NÃO DESENCANTAR

Diante da turbidez de nossas águas

Das impurezas acumuladas em nosso dia a dia

Tudo misturado, leve e pesado, transparente e escuro

Coisas que atraímos, outras que são jogadas em nós

Ou resultado do viver intenso, de afluentes gerados

Tornando difícil o nadar, o navegar, o respirar, o viver

É preciso um processo de decantação

Antes que nos desencantemos desse nado

Depois de tanto agito, parar um pouco, acalmar nossas águas

Deixar que se separem os elementos incompatíveis

Usar a fé, a sabedoria, a alegria de viver como decantadores

Tudo ficará mais claro, bem separado

O essencial e importante do supérfluo e desnecessário

Aí poderemos retirar os “excessos”

E voltar a nadar livremente…

Alda M S Santos

No limite

NO LIMITE
A vida no limite é intensa
Por vezes animadora, noutras cansativa
Será que vai sendo gasta, se esvaindo
Ou sendo reenergizada, reabastecida?
Se ela se esvai, se desgasta
Gostaria de não viver tanto no limite
Ter mais espaço, mais folga, mais liberdade de movimento
Dentro do meu “pequeno” interior
Não estar tão próxima da linha tênue
Que separa o bem do mal estar
Os sonhos doces dos pesadelos amargos
A realidade fria do calor do realmente desejado
Que separa a alegria da tristeza
Os medos da coragem, a confiança da desconfiança
O sorriso das lágrimas, a fé da descrença
Que separa a sanidade da loucura
O amor do desamor, a vida da morte!
Mas se a intensidade reenergiza, autoabastece
Que eu aprenda a andar na corda bamba
A me divertir nos altos e baixos, a dançar nos desequilíbrios
Ou que eu encontre mais espaços dentro de mim
Ou os ocupe de modo mais organizado
Sempre com mais e mais equilíbrio, alegria e fé
E que consiga carregar comigo quem quiser ou merecer…
Alda M S Santos
Ilha Grande- Angra dos Reis

Banquetes e migalhas

BANQUETES E MIGALHAS

Mais vale uma migalha benéfica, saudável

Abençoada, constante, verdadeira

Oferecida ou recebida com amor, lealdade e carinho

Mas que nos abastece e alimenta

Que um banquete rico, porém pagão

Transitório, falso, ilusório, que não é nosso

Que satisfaz e engana nossa fome por uns tempos

E nosso apetite volta renovado.

Há quem faça de suas migalhas um verdadeiro banquete

E há quem torne um grande banquete nada mais que migalhas ou sobras inúteis…

Alda M S Santos

Transformações

TRANSFORMAÇÕES

“Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”…

Segundo essa lógica de Lavoisier, nada perdemos, apenas transformamos

Vivemos transformando decepções em aprendizado ou revolta

Tristezas e lágrimas em crescimento ou negativismo

Trabalho árduo em alegria ou apenas cansaço

Ilusões e expectativas frustradas em força ou medos

Injustiças em solidariedade e compaixão ou indiferença

Amor “perdido” em amizade, carinho, esperança ou descrenças e desconfianças

Jovialidade e força em maturidade e sabedoria

Tudo que parece perdido em nós, para nós, se olharmos bem

Na verdade foi transformado com nossa efetiva participação

Tudo se transforma, mas não à nossa revelia

O modo de lidar com nossas “perdas” é o ingrediente base para o que fica

Para aquilo de precioso que trazemos como memórias e saudades

Podemos fazer dessas transformações apenas tristes demolições

Ou grandes e maravilhosas construções…

Alda M S Santos

Moldados pela vida

MOLDADOS PELA VIDA

Não há nada que nunca mude, que nunca se transforme

Até mesmo as pedras, as rochas, inertes e imóveis no mar

Sofrem total interferência do meio

Aparentemente firmes e fortes, a água, o sol, o sal, os ventos

A matéria orgânica, animal e vegetal a modificam

A água abre reentrâncias, provoca sulcos, invade espaços

Quando não há, contorna, passa por cima e, ainda assim, é atingida

Adquire novas cores, novas formas, novo relevo

Muitas vezes nocivo, que corta fundo quem se aproxima

Causa dores, escorregões e tombos

Uma pedra nunca está totalmente isolada por estar parada no mesmo lugar, inerte

Cedo ou tarde, ela será “outra” pedra

Somos pedras sendo moldados pelas águas da vida em seu ir e vir incessante

Ora turbulentas, ora calmas, ora violentas e sempre incansáveis da vida…

Podemos escolher fazer parte, ou sermos modificados à nossa revelia…

Alda M S Santos

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