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Idosos: nosso passado, nosso futuro

IDOSOS: NOSSO PASSADO, NOSSO FUTURO

Carentes de amor, carentes de afeto

Uma memória repleta de passado

Um futuro distante, meio incerto

Um presente às vezes magoado

De quem quer alguém ao seu lado

São idosos, muitos anos idos

Tempo para o o idoso é algo duvidoso

A barra de rolagem está quase no fim

Querem amor, abrigo, amigos

São nosso passado e futuro, enfim…

Dia dos idosos para quê?

Para nos lembrar de que o tempo passa

Para nos fazer as mãos estender

E para finalmente entender

Que essa é parte importante do viver…

Alda M S Santos

No mesmo lugar

NO MESMO LUGAR

São seis filhos, tantos netos

Vários bisnetos e até uma tataraneta

Mas ela não queria ir com eles morar

Dizia: “aqui é meu lugar”

Agora, 96 anos, não teve jeito

Foi com uma das filhas ficar

Lúcida, esperta, mas nesse mundo tão mau

Não dá pra facilitar!

Tantos queriam levá-la para perto

Poder dela com carinho cuidar

Mas nenhum podia ir com ela morar

A casa ainda está no mesmo lugar

Mas falta vida ali

Ela não mora mais lá

Mas a sentimos em todo lugar…

Salvo quando vem filho de longe visitar

Aí ela vem para sua casa cuidar

Mas o terreiro não é mais o mesmo

Aquele que sempre me encantou

Está tão árido!

A fonte secou, a cacimba soterrou

Roseira reclamou, o galo não cantou

Galinheiro caiu, a horta murchou

Ainda há uns pássaros na goiabeira

Que se adonaram do lugar

E reclamam quando a gente vem passear

Mas agora vou aproveitar

Estamos aqui, ela também

E aqui ela veio conosco ficar…

Assim será até quando Deus nos permitir

Poder em seu colo descansar

E, a bem da verdade, nosso coração é que é seu lugar..

Alda M S Santos

Passando o tempo

PASSANDO O TEMPO

– Vem cá, amiguinha, senta aqui do meu lado!

– Que lindos coloridos!

– Estou com saudades de você! Venha ver!

Não é uma escola, tampouco um ateliê.

É um lar para idosos…

Ele vive num quarto com outros três companheiros.

Fala das dificuldades de locomoção dos outros.

Ocupa-se fazendo seus coloridos em desenhos diversos.

Possui um kit de lápis de cor e livros de colorir “para passar o tempo”.

“As pessoas gostam e eu dou, não vendo não!”-diz orgulhoso

Num caderno em branco, pede para eu fazer um desenho para ele.

-Não demore a voltar. Vou colorir esse para você!

Os caminhos que percorreram até chegar ali são muitos!

As histórias se resumem a amor, dor, arrependimentos, resignação, esperanças e saudades…

O que precisam de todos nós não é tanto: carinho e atenção.

Que não os deixemos na mão!

Alda M S Santos

Dia do idoso

DIA DO IDOSO

“Que você gostaria de ganhar de presente no Natal?”

“O que eu poderia pedir é uma coisa que já tenho: o amor que você(s) me dá(dão)…”

“Tudo bem! Esse você já tem e é de graça! Agora escolha algo que o dinheiro compre!”

E assim passamos uma tarde de carinho e amor com eles…

Não precisam mesmo de muito!

Os sonhos ali são muito menos materiais que emocionais

Precisam muito de atenção, uma conversa, um cuidado

Um toque de amor, um sorriso de gentileza, uma palavra doce

Precisam de gente que se importe com eles

Que cante, reze ou dance em seu ritmo

Até mesmo que silencie segurando sua mão…

Querem pessoas que sorriam junto, que ouçam suas lamúrias

Entendam e aceitem sua resistência ao banho

Sua memória falha, seu desejo de falar do passado

Que respeitem suas repetições e os excessos que os tornam mais belos

Eles são assim nos asilos, nos hospitais, nas praças ou em qualquer lugar

São idosos que, mais que qualquer um,

Precisam encontrar o amor de Deus, ainda que numa bronca ou cobrança

Refletido num irmão que lhes estende a mão

O abraço, um laço, o alimento, um vestido ou um sapato!

Viva os idosos que a vida nos permite conviver

Em todos os dias do ano!

Alda M S Santos

#carinhologos

Não temos esse poder!

NÃO TEMOS ESSE PODER!

Não temos poder de tirar o sofrimento de ninguém

Mas podemos desviar o foco da dor, qualquer uma

Por poucos segundos que seja

Independe se com uma “palhaçada”, uma canção ou uma flor

Um abraço fraterno, uma palavra de estímulo ou ouvido atento

Um olhar de aprovação, um toque afetuoso ou um silêncio cúmplice

O que queremos é desviar o foco daquilo que fere, corta, machuca, sangra

Queremos despertar sorrisos e afastar a tristeza

Quer seja no outro, quer seja em nós mesmos

Pelo máximo de tempo que conseguirmos

Esse poder todos nós temos…

Alda M S Santos

#carinhologos

Por que Nossa Senhora?

POR QUE NOSSA SENHORA?

-“E quem não é devoto de Maria?”

A maioria quase absoluta dos idosos do Lar Santa Zita é de católicos

Mas é o que menos importa, todos são filhos ou mães

E numa homenagem às mães

Aquela escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus, Nosso Salvador,

É a homenageada principal!

Ninguém é obrigado a participar, respeitamos

Como em qualquer outra atividade

Mas a quase totalidade que tem Maria como Nossa Senhora, mãe de todos nós

Merece também respeito e consideração!

Quem conhece e ama o Filho, ama a Mãe

Sabe que Maria nos leva a Jesus, que nos leva ao Pai…

Coração de mulher, de mãe, que confiou nos desígnios de Deus para nos salvar

Sofreu a maior dor que uma mulher pode sofrer: perder o próprio filho

É uma honra poder chamá-la de Minha Mãe, de Nossa Senhora

E tê-la para interceder por nós todo o tempo

Nossa Senhora, rogai por nós e por todas as mães,

Amém!

Alda M S Santos

#carinhologos

Metades?

METADES?

Eles caminhavam de mãos dadas na avenida movimentada numa manhã ensolarada e fria.

Andavam devagarzinho entre apressados, agasalhos quentinhos quase tanto quanto a cena.

Cabelos brancos como neve brilhavam sob a luz forte.

Uma bengala numa das mãos dele, uma sombrinha grande fechada na dela.

Corpos meio encurvados somando umas quinze décadas…

Vez ou outra trocavam uma palavra, mas os olhares se comunicavam melhor.

Um bueiro aberto à frente, aquele cuidado de desviá-la do cone sinalizador do perigo.

Quantas vezes desviaram um ao outro do caminho interrompido?

Quantas vezes limparam as feridas das quedas nos bueiros da vida ou frustraram-se por não poderem fazê-lo?

Quantos segredos compartilhados ou guardados para proteção?

Quantos momentos de dor superados, fraturas coladas, perdão oferecidos, lágrimas misturadas?

Quantas marcas trazem nos joelhos, nos corações, nas almas?

São metades complementares, despareadas?

Não, são inteiros afins, falhos, com cicatrizes!

Contudo, dispuseram-se a caminhar juntos, a aceitarem-se e diminuírem essas falhas.

Quem vê conclui: “que lindo, que vida perfeita”.

Não, não são perfeitos e, por isso, ajudam-se em suas imperfeições e crescem.

Perfeitos não precisam do outro, de ninguém, não toleram imperfeições.

Lindo, sim! Não pela perfeição, mas pelo amor que cultivaram, que sobrevive às imperfeições.

Se estão unidos ainda assim, de mãos dadas, como a dizer “te aceito”, é exatamente por saberem-se imperfeitos!

Quantos de nós almejamos tudo isso, seguimos no barco da vida, remando sozinhos sem saber nos expressar?

Um viva às nossas imperfeições, melhorando a cada dia,

Sem desgastadas pretensões de alcançar a perfeição…

Alda M S Santos

Aprendizado

APRENDIZADO

Observamos neles a gratidão nas mínimas coisas:

“Deus é muito bom, pois manda vocês para nos alegrar”

A fé inabalável em Cristo:

“Sinto dores, não enxergo mais, tenho 94 anos, e fico aqui enquanto Jesus quiser, ele sabe de tudo”

A capacidade de reflexão, resignação e até uma certa incompreensão dos males

“Não sei porque minhas vistas ficaram assim, nunca fiz mal a ninguém nessa vida”

O arrependimento perante certas atitudes que causaram infelicidade aos outros

“Nunca esperei passar por isso, causar mal a alguém no final da minha vida”

A certeza de que aqui se colhe o que se planta

“Nessa cadeira passo meus dias, mas não reclamo, se devo algo, pago”

E a cada visita aprendemos que ali estão seres humanos que acertaram, que erraram

Vindos de famílias destruídas, por si mesmos, pelos outros

E procuram viver com dignidade e esperança o que lhes resta de vida

Os sentimentos maiores notados ali são: resignação, arrependimento, fé, uma certa nostalgia

E amor, mesmo que em forma de saudade

A nós, não cabe julgar, mas levar todo amor e carinho que pudermos…

Alda M S Santos

#carinhologos

Apenas uma vez

APENAS UMA VEZ

Ele diz categórico, atrás daquela postura encurvada, “apenas uma vez é permitido esse erro”!

O olhar daquele idoso cheio de dignidade era de profundo cansaço naquele ambiente solitário

Gosto de imaginar histórias atrás de olhares, particularmente os nostálgicos

Acabei dando abertura e ele me confidenciou:

“Sou triste, mas tenho alegrias também, pois carrego a culpa de ter destruído nessa vida apenas uma família: a minha”

Falei que a vida é aprendizado mesmo, equilíbrio entre erros e acertos…

“Tive chance de talvez ser novamente feliz, mas não podia carregar o peso de afastar outro pai do convívio com os filhos, como aconteceu comigo e meus filhos”

Era uma pessoa melancólica, mas tinha uma certeza ao vasculhar seus arquivos pessoais

“Deus nos deixa agir errado, se é nossa escolha, mas o mesmo erro Ele só perdoa uma vez”

Era essa convicção que mantinha sua integridade moral

E ao fazer o equilíbrio, o balanço de sua vida

Erros iam sendo amenizados pelos acertos, fazendo a ponte entre perdas e ganhos…

Afirmei que não podemos carregar a responsabilidade da felicidade de todos, tentando animá-lo

E enfatizei que Deus até nos perdoa muitas vezes,

Mas nós mesmos é que, nem sempre, suportamos o peso de nossas culpas

“Nosso céu ou nosso inferno estão aqui dentro, moça bonita”!- diz apontando para a cabeça.

Felicidade que carrega o ônus da infelicidade alheia é muito pesada

E a vida acaba por cobrar o preço…

Alda M S Santos

Autênticos como crianças

AUTÊNTICOS COMO CRIANÇAS

“Oh jardineira por que estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu?”

Quanto mais tenho contato com idosos

Mais me convenço que o que somos se mantém

Talvez até se potencialize com a chegada da idade

Excetuando-se mudanças advindas das limitações físicas e de saúde

Ninguém torna-se mais paciente, comunicativo

Amoroso, pacífico, solidário, cristão, festeiro

Porque a idade chegou…

Muitas vezes acontece justamente o contrário

A certa liberalidade que a idade autoriza

Que as rugas validam

Que o andar trôpego confere

Fazem dos idosos pessoas mais autênticas, como crianças

E todos acabamos por admirá-los, dando um “desconto”

Achamos até bonitinho a rabugice e implicância

Ou a alegria e espontaneidade excessivas

Mas seria ingenuidade esperar que um introvertido, quieto, preguiçoso, desconfiado, malicioso, rabugento

Ou o oposto desses, festeiro, animado, alegre, extrovertido, namorador, crédulo

Mudasse da água para o vinho

Virassem “santos” porque passaram para a terceira idade

Acredito em mudanças, crescimento, aprendizado

Particularmente com as lições que a vida dá

Mas essência é algo muito difícil de mudar…

De todo modo, nada disso nos impede de amá-los

E querer fazê-los um pouco mais felizes…

Nós os amamos do jeitinho que são!

“Não fiques triste que esse mundo é todo seu

Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu”…

Alda M S Santos

#carinhologos

#carinhologossolidarios

Sempre amor

SEMPRE AMOR

Um grupo com um objetivo: levar alegria

A razão que trouxe cada um é variável

Todos parecem felizes, profissões variadas, vidas diferentes

Unidos no desejo de ajudar os outros, os idosos, particularmente

Olho para cada rosto desses palhacinhos, cada sorriso

Sei um pouco a história de alguns

Histórias de lutas secretas, sofrimentos, nem sempre vitoriosas

Muitos carregam angústias, frustrações e dores

Não doam o que lhes sobra, mas aquilo que mais precisam

Aquilo que valorizam, que sabem precioso

No prazer de levar amor, encontram uma razão a mais para lutar…

Para viver…

Alda M S Santos

#carinhologos

#carinhologossolidarios

Maldade ou infelicidade

MALDADE OU INFELICIDADE?

As décadas eram muitas, quase dez

E as mãos trabalhavam lentamente numa arte

“Não deu para arrumar isso aqui, mãe”

Um par de olhos úmidos o encarou, questionadora

“Está velho, esgarçado, puído, sabe o que é isso?”

Mais uma vez ela o observou, silenciosa,

Calmamente colando florzinhas na árvore de Natal.

“Está velho, coisa velha a gente joga fora, não compensa arrumar!”

Os olhos dela me encararam com muita tristeza e vergonha

Abaixou a cabeça, resignada e triste, continuando a colar…

Ele, me notando por perto, logo arrematou:

“Claro que é para coisas, não pessoas!”- e foi-se embora

“Depois a gente conversa!”

Mas o estrago já estava feito.

Frase maldosa ou infeliz?

Palavras não foram necessárias para traduzir

O que o olhar dela já havia dito: vergonha e decepção

Estava acostumada àquele tratamento.

O quanto vale nossas vidas?

Haverá mesmo alguém a cuidar de nossos idosos

De nós, quando chegarmos lá,

Com amor e bondade?

Alda M S Santos

Amor que fica

AMOR QUE FICA

Costumam me alertar: não se apegue demais

Você se envolve muito e depois sofre!

Num momento as pessoas estão bem, noutro podem não estar mais…

Um abraço carinhoso, um toque delicado

Um sorriso sincero e sofrido

O prazer num bom bate papo…

Atenção, companhia, amor desinteressado

E não sabemos quando podem ser os últimos…

Rapidamente são levados de nós pela doença, por males diversos

Pelas circunstâncias das quais não temos controle.

Eles têm me ensinado muito!

Independente de como a gente ou o outro esteja

Não dá pra ter medo de demonstrar amor e carinho

Receio de se entregar e se envolver.

Não sabemos quando aquele abraço, aquele olhar, 

Aquele toque, palavra, sorriso ou lágrima

 Podem ser um adeus!

E isso vale para convívios em qualquer idade ou estado de saúde

A única certeza que temos é a do hoje!

Amemos uns aos outros! Não amar também é sofrer

Só devemos nos afastar de quem amamos,

Quando nossa presença puder causar mais mal do que bem.

A saudade é a dor do amor que fica gravado na alma!

Alda M S Santos 

#carinhologos

No mesmo quarto

NO MESMO QUARTO

Basta uma breve, mas atenta observação,

Para perceber que, quase sempre, terminamos como começamos.

Frágeis, delicados, emocionais,

Dependentes dos outros, necessitados de carinho e atenção.

E, muitas vezes, dividindo um quarto cheio de camas:

Numa casa de repouso, num lar para idosos,

Num hospital ou na casa de parentes.

Quem se esqueceu como era o convívio quando criança,

Ou não aprendeu como é viver em grupo,

Tem nova chance para aprender.

Dividir os sonhos, os segredos, as histórias,

Ou os medos debaixo do mesmo cobertor.

Se houver o desejo por uma guerra de travesseiros, que se faça e aproveite! 

Devemos ser gratos por essa nova oportunidade!

Alda M S Santos

Fazer de conta

FAZER DE CONTA 

A criança vive e experimenta o mundo

Num constante faz de conta

Faz de conta que é princesa, 

Mamãe, professora, veterinária

Príncipe, super-herói, aviador,

Cientista ou astronauta…

Os idosos voltam ao faz de conta

Fazem de conta que toda dor e saudade não existem

Que decepções e abandono não doem

Que as boas lembranças bastam

E aproveitam qualquer forma de amor e carinho que se apresentam

A natureza é sábia ao apagar da mente deles muita coisa que fere

Será que fazer de conta que está tudo bem

Nesse “pequeno” intervalo entre infância e velhice

Apagar o que faz mal, desfocar o que dói 

Não seria um modo sábio de viver?

Alda M S Santos

Toque de amor

TOQUE DE AMOR

Amor verdadeiro, amor real, 

Amor presença, amor presente

Amor além de qualquer sonho, amor que se doa…

Amor de pertinho, amor que se pega

Nos braços, nos laços, nos enlaces.

Amor de abraços, de beijos, de carinhos, de sensações.

Amor de trocas, de afetos, amor gratuito.

Amor de força, de fragilidade, de entendimento, 

Amor colo, que dá, que recebe. 

Amor segurança, amor de olhares, de palavras,

Amor de histórias partilhadas, amor de segredos. 

Amor que não se explica, amor que se sente.

Amor que toca:

O corpo, o coração, a alma.

Amor que se toca, 

E sabe que amor mesmo se mantém e se renova

Na presença, em cada gesto,

Em cada toque de amor. 

Alda M S Santos 

#carinhologos

Limitações?

LIMITAÇÕES?

Mãos que sempre trabalharam

Que sempre amaram

Até há bem pouco tempo,

Hoje pouco conseguem.

Mas não é qualquer AVC que as imobiliza.

Orgulhosas apresentam o trabalho com um lindo sorriso: 

“Consigo com a esquerda mesmo, 

Com ajuda da moça bonita”! 

Viva Dom Sebastian!

Alda M S Santos

#carinhologos

O prazer de aprender

O PRAZER DE APRENDER
Em casa, na escola, na igreja
No trabalho, num lar de idosos
Não importa onde ou quando
Com 8, 18 ou 80 anos,
Descobrir as letras, alfabetizar-se,
Aprender sempre será uma descoberta prazerosa
Presenciar esse prazer é extasiante.
Alda M S Santos
#carinhólogos

Valor

VALOR

Nossa vida passa a ter

Muito mais valor

Quando o sorriso dos outros

Depende dela.
Alda M S Santos

Ovos de Páscoa

OVOS DE PÁSCOA

Dentro da sacola enorme, uma caixa grande

Dentro da caixa, água com açafrão, chá e vinagre,

Mergulhados na água, cascas inteiras de ovos, sem o conteúdo.

Depois de andar 2km, com muito cuidado,

Tudo isso do colo pro chão no metrô lotado.

Ao final, serão ovos coloridos recheados de brigadeiro.

Uma pequena “arte” para alegrar a Páscoa no Lar dos Idosos.

Se interceptada, pode ser acusada de “bruxaria” ou terrorismo…

Imaginar a alegria deles vale qualquer “esforço”.

Alda M S Santos

Memórias

MEMÓRIAS
“Fomos Garotas de Copacabana. Viu como eu era bonita? Igual você!”
Ela ajeitava seus lençóis o tempo todo. O espaço que era só seu.
Foto acima da cama, com nome, data de nascimento: 20/09/1930.
Um pequeno armário com o crucifixo pendurado, poucos pertences e fotos, muitas fotos.
Todas espalhadas na cama. Mostrava e contava sua história.
“Minha irmã morreu no Rio. Não tenho mais pra onde ir.”
Toda uma vida, memórias registradas ali em preto e branco, em cores.
Uma Bíblia, um livro do Pe Marcelo, todos inchados de fotos, cartões de aniversário, cartas, envelopes…
“Para marcar onde li e pra Jesus proteger. Jesus protege, sabia? Está com minha irmã! ”
Sim, e conosco também!- respondi.
“O meu coração é só de Jesus. A minha alegria é a Santa Cruz.”
Cantava e me pedia para acompanhar. A companheira ranzinza do quarto reclamou.
“Vamos parar! Ela dá chinelada na gente”.
Fui lentamente até ela. Expulsou-me. Insisti. Devagar. Deixei, voltei.
No final, coloquei a faixa de Miss Guerreira, abracei a ranzinza, beijei suas bochechas, sorriu, ganhei um “obrigada, vai com Deus”!
Deixei-as com suas histórias em papel, poucos objetos e memórias, muitas se apagando.
E fui embora com as minhas.
Farão parte de minha história a partir de hoje.
Alda M S Santos

Seu olhar é triste

SEU OLHAR É TRISTE

Numa homenagem às mulheres num lar para idosos,

Ao colocar a faixa de Miss Guerreira numa senhora, abraçá-la e beijar suas faces, ela segurou minhas mãos, carinhosamente, e me olhou nos olhos. Sentei-me ao seu lado.

Ela era muito linda e bem arrumada. Sorriso doce e cativante.

– Você é linda, brinca e parece feliz!- apertou minhas mãos.

-Obrigada!-respondi encabulada.

– Parece uma anja. Mas tem o olhar triste! 

-É? Mas não sou triste!- sorri meu sorriso de palhacinha.

– É preciso ser observadora para perceber. Há uma sombra triste no seu olhar. Falta-lhe algo!

Fiquei embaraçada ao ser analisada assim.

– Talvez! -respondi para não deixá-la sem graça. Ela completou:

– Não se preocupe! Poucos notariam. E ninguém tem tudo mesmo! 

Fiz mais uns carinhos nela, conversamos e fui cantar mais umas músicas.

Ela estava sempre me observando como alguém a dizer:

– Não se preocupe! Só eu notei.

Fiquei a me perguntar se já havia ouvido isso de alguém algum dia.

Será que tenho mesmo essa sombra sinalizadora de falta? 

Cada dia aprendo mais com esses idosos! 

Alda M S Santos

Lobotomia 

LOBOTOMIA

“Por que a gente fica velha e lembra só de coisas que machucam o peito da gente?” -Perguntou-me uma idosa, lágrimas a escorrer no rosto enrugado, olhos cheios de histórias! 

Pessoas jovens também, querida! Precisamos levar a mente a pensar nas coisas boas que todos temos, respondi. 

“Mas até coisas boas ferem o coração, porque não existem mais”. 

Sei que não é fácil, mas a mente é flexível, precisamos levá-la para bons lugares. Curtir a saudade boa. Interagir com as companheiras, participar mais, digo.

“Quero não, perdi o gosto, estou aqui esperando pra morrer e sozinha. Queria fazer aquela operação que apaga o cérebro da gente, como chama mesmo”.?

Lobotomia?

“Essa mesmo! Aí a gente não sofre, apaga o que dói!”

Eu a abracei e brinquei: gosta de abraço? Não gosta de cantar? Vamos cantar? Se fizer lobotomia irá esquecer os abraços, as músicas! 

Ela riu e disse: “vou tentar lembrar do que é bom! Quando você volta? 

Quantos de nós não temos vontade de “apagar” em nós o que nos machuca?

O risco é apagar o que há de bom também!  

Melhor mesmo é conviver com nossas dores, nossos amores, nossas amizades, nossos atropelos.

E tentar produzir mais sorrisos que lágrimas, equilibrando a balança. 

Alda M S Santos

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