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poemas e reflexões da vida cotidiana

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morte

Um dia nos veremos de novo

UM DIA NOS VEREMOS DE NOVO

Por aqui, sabemos, é só uma fase da vida
Ela continua noutro plano ou dimensão
Perdemos tanta gente, nossa alma fica sofrida
E dói não poder ver, tocar com a mão

Nascemos aqui, morremos, renascemos acolá
Por que não aprendemos a não sofrer do lado de cá?
A saudade nos consome, o peito aperta
E brota desejo de abraçar, deixarmos a porta aberta

A fé e crença nessa  continuidade
Na luz do alto, um ser maior, uma divindade
Nos faz acreditar na nossa  capacidade
De nos refazermos e aguardar nova oportunidade

Creio que verei vocês novamente
Amores meus, gente querida, guardada no coração e na mente
Só posso agradecer pelo tempo de convivência
E pedir a Ele muita paciência e resiliência

Ainda verei vocês de novo!

Alda M S Santos

A passeio?

A PASSEIO?

Não viemos por aqui a passeio
Temos uma missão, tarefas, anseios
Não significa que não possamos nos divertir
Há muitas maneiras de no bem agir

Temos dons, viemos abastecidos
Todos têm finalidade, dão nosso colorido
O tempo deve ser bem aproveitado
Para seguirmos juntos, mais lado a lado

Podemos ser a luz num caminho
A coreografia que une num passinho
A poesia que acolhe com jeitinho
O abraço que expressa muito carinho

O que tenho, o que sou, meu sentir
Vale mais se posso por aí distribuir
Se a vida se acabasse hoje, nesse momento
Teria bom fechamento, sem ressentimento?

Alda M S Santos

Coexistência

COEXISTÊNCIA
Vida e morte, morte e vida
No mesmo espaço, no mesmo cacho
Coexistência…
Fases de um viver, circularidade do existir
Por que tanta resistência em aceitar um partir?
Doloroso, fere fundo
A saudade que fica é paradoxal
Alimenta a ausência, machuca
Mas da vida é prova cabal
Quero a vida que há mesmo na morte
Aquela que nos deixa mais forte
E confiantes num poder maior
Num porvir que justifique esse existir
Saudade…
De tudo que partiu
De tudo que morreu em mim
Para mim
Saudade…
Um dia nos encontraremos
Em qualquer lugar, noutro plano
E, enfim, entenderemos…
Alda M S Santos

A morte

A MORTE

Sempre parecerá mórbido falar de morte

Enquanto ela for vista como um fim, uma punição

O desconhecimento do porvir causa apreensão

Quando o legado que se tem não traz satisfação

É preciso saber viver, diz a canção

E isso inclui também saber morrer

Ainda que machuque o coração

É a única certeza nesse mundão

Aprender, crescer, encarar tudo como lição

Captar tudo que ela puder nos ensinar

E aproveitar esse momento para evolução

Aceitar a morte como transição

Deve fazer parte de nosso caminhar

Para uma vida que continua noutro lugar

Alda M S Santos

Coexistência

COEXISTÊNCIA

Vida e morte, morte e vida

No mesmo espaço, no mesmo cacho

Coexistência…

Fases de um viver, circularidade do existir

Por que tanta resistência em aceitar um partir?

Doloroso, fere fundo

A saudade que fica é paradoxal

Alimenta a ausência, machuca

Mas da vida é prova cabal

Quero a vida que há mesmo na morte

Aquela que nos deixa mais forte

E confiantes num poder maior

Num porvir que justifique esse existir

Saudade…

De tudo que partiu

De tudo que morreu em mim

Para mim

Saudade…

Um dia nos encontraremos

Em qualquer lugar, noutro plano

E, enfim, entenderemos…

Alda M S Santos

E o barco da vida parte…

E O BARCO DA VIDA PARTE…

E o barco da vida parte

Leva quem tem coragem

Leves e com espaços a preencher

Ou pesados de tanta bagagem

E o barco da vida parte

Deixa a segurança do cais

Em busca de novas aventuras

Talvez de um novo caos

E o barco da vida parte

Vários rumos, vastos oceanos

E o que fica é a vontade

De ser feliz também nesse plano

E o barco da vida parte

Leva alguns, deixa outros

Na saudade do vivido

Do que ficou por viver

Do que há ainda para viver

E o barco da vida parte

Todos os dias, todo o tempo

Com ou sem passageiros e tripulantes

Nem sempre a contento

Ele parte…

Alda M S Santos

Fim

FIM

Do princípio ao fim

Ou do fim ao princípio

Tantas questões dentro de mim

Chego só, volto só

Enfim, qual é o propósito

Disso tudo, Serafim

Será o fim?

Aterrisso sem nada saber

Tenho tanto ainda para aprender

E já começo a voltar

Para casa regressar

Perco a mobilidade, a habilidade

A memória e, por vezes, a consciência

Não é uma incongruência

Disso tudo, Serafim?

Tudo que amealhei por aqui

Não mais me pertencerá

O que me acompanhará é aquilo que ganhei ou perdi

Conquistei ou doei, e que poderei também deixar

Com quem esteve comigo do princípio ao fim

Chego nua, volto vestida de Lua, perfume de jasmim

Várias fases, brilho e luz…

Um ciclo que se fecha em mim e me conduz…

Alda M S Santos

Quantos degraus?

QUANTOS DEGRAUS?

Quantos degraus até o céu?

A escada é sinuosa, rolante, escorregadia, antiderrapante?

Quem pode subir, há restrições, limites de entrada?

Podemos levar alguém, sermos levados por alguém?

E se nos cansarmos no caminho, tropeçarmos, cairmos?

Podemos voltar a subir ou perdemos a vez?

Os últimos serão os primeiros?

Quantos degraus até o céu?

A entrada é franca? Paga-se com quê?

Qual a “moeda” de troca?

Muitas perguntas… Sei lá!

Enquanto isso vou fazendo do agora o meu céu

Tal qual crianças a brincar, a pular amarelinha

Continuo subindo até o céu…

Alda M S Santos

Haja lágrimas!

HAJA LÁGRIMAS!

Nem bem uma lágrima seca

Um soluço passa

A descrença começa a perder força

Vem outra tragédia para irrigar a emoção

Puxa vida! Haja lágrimas!

Deus, tenha piedade de nós

Cuide de nosso Brasil

Não nos deixe perder a fé em dias melhores

Em boas pessoas, na capacidade de lutar

E seguir em frente

Mesmo com tudo balançando todo o tempo

Despencando e querendo nos levar daqui

Será que seria tão ruim ir embora?

Vontade de chorar e chorar…

Alda M S Santos

Isso é se eternizar…

ISSO É SE ETERNIZAR…

Pode ser que um dia nosso nome esteja gravado por aí

Pode ser que esteja escrito noutros lugares

Além da pedra de nossa lápide

Pode estar gravado nos documentos de filhos e netos

Nas escrituras de imóveis, nos registros de bens diversos

Pode estar gravado em letras garrafais e douradas

Dando nome a uma empresa importante

Ou a uma rua, escola, viaduto ou teatro

Pode estar impresso nos diários da vida de alguém

Na capa de um livro, na porta de uma sala ou consultório

Mas se não estiver gravado feito tatuagem nos corações daqueles que ficaram

Que fizeram parte de nossas vidas

Que amamos, que nos amaram

Marcado como digital firmada dia a dia nas delicadezas

Nenhuma gravação em letras douradas terá valia

E nossa passagem por aqui estará apagada para sempre

Pode ser que eu esteja gravada em vocês

Com as letras suaves da doçura e do amor

E vocês certamente estarão gravados em mim

E seremos eternos a cada vez que a lembrança de nosso nome

De nosso sorriso, abraço ou carinho

Fizer pulsar mais forte um coração

Isso é se eternizar…

Alda M S Santos

Finou-se?

FINOU-SE?

Dia de Finados, dia dos mortos, dia dos vivos

Dia de todos nós que aceitamos nossas mortes diárias

Aquilo que em nós finou por inanição, por circularidade existencial, por ciclo vital

Somos feitos de nascimentos e mortes todo o tempo

Aprendendo a lidar com o que em nós definha, morre

O que em nós brota, nasce, cresce, se agiganta

Até mesmo o que em nós se transforma ou se recolhe

Para não tirar a luz daquilo que precisa crescer

Fruto que precisa secar, morrer

Para deixar a semente de um novo existir brotar

E manter oxigenado em nós o que precisa viver…

A “melhor morte” de todas é a que serve de adubo para aquilo que vai nascer

Não morre, se transforma e renasce em algo mais lindo e duradouro

Como o que temos em nós de mais maravilhoso

Capaz de permitir que nele nos eternizemos: O AMOR

Alda M S Santos

Qual a questão?

QUAL A QUESTÃO?

Não é uma questão de vencer a qualquer custo

É uma questão de saber quais “armas” são válidas

Não é uma questão de ter a quem culpar

É uma questão de assumir as próprias responsabilidades

Não é uma questão de vencer ou perder

É uma questão de ficar bem consigo mesmo numa ou noutra situação

Não é uma questão de quem vive ou quem morre

Por quem se vive ou por quem se morre

É uma questão de vida e morte para todos

É uma questão de porquê se vive e porquê se morre

Mas, principalmente, de como se vive ou como se morre

Pois não há quem vença sempre

Não há tampouco quem viva para sempre…

Em cada vitória trazemos uma derrota acoplada

Em cada derrota há sempre algo de positivo e vitorioso a considerar

É tudo uma questão de ir aprendendo a viver

Enquanto houver vida, amor, esperança e confiança…

Alda M S Santos

Quando eu for embora

QUANDO EU FOR EMBORA

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que caminharam comigo

Que tiveram de mim a companhia diária?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles aos quais dei meu melhor, mesmo falha, mesmo nos erros?

Ficará neles a lembrança do meu sorriso, do meu cuidado, do meu amor?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles para os quais trabalhei, ensinei, me dediquei?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que buscaram em mim a inspiração e energia para continuar?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que me amaram…

Mas quem me amou de verdade?

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Aqueles que de mim precisaram, que usufruíram do que pude proporcionar

Que amaram não a mim exatamente, mas o que lhes possibilitei

Esses encontrarão logo substituto quando eu for embora

Sentirão falta de alguém como eu, não de mim…

Nós somos quem amamos e quem nos amou de verdade

Quando formos embora levaremos grande parte deles conosco

Deixaremos muito de nós com eles…

Quando eu for embora

Quem de mim sentirá falta?

Alda M S Santos

Desculpe

DESCULPE!

Eu lutei, me esforcei, enfrentei o que machucava, sem revoltas

Dei tudo de mim, entreguei o que tinha, pedi, perdi

Desculpe!

Não foi o bastante tudo que fiz

As dores que passei, os medos que vivi, eu tentei, perdi

Desculpe!

Amei vocês acima de tudo, briguei comigo mesma

Quis estar aqui, ser a Mulher Maravilha, perdi

Mas nem todos os laços que cultivei conseguiram me salvar

Desculpe!

Fui feliz, sorri, chorei, sofri, fiz vocês sofrerem

Acreditei que seria possível… perdi

Desculpe!

Por não ter aguentado, não ter conseguido ficar mais

Desculpe!

Por ter partido e deixado vocês para trás

Desculpe!

Mas uma promessa eu cumprirei

Amarei vocês para sempre!

Ainda nos encontraremos um dia e abraçarei vocês de novo

Desculpe! Adeus!

Ela teria dito, se pudesse, antes de partir…

Eu teria dito se fosse ela

E ela se foi…

Guerreira, amante e amada…

Alda M S Santos

Para onde irão?

PARA ONDE IRÃO?
Roupas e calçados doados para caridade
Livros lidos e relidos, que estante ocuparão?
Aquelas fotos e CDs antigos, verdadeira raridade
Objetos de apego, perfume especial, animais de estimação
Para onde irão?
Crônicas e textos escritos, poemas e versos
Cartas e cartões, carinhos contidos, afeições declaradas
É a vida em seus direitos e avessos, versos e reversos
Rosas plantadas, flores regadas, ervas arrancadas
Para onde irão?
Versos de amor gravados na alma em doces melodias
Sorrisos e abraços que aqueceram e iluminaram nossos dias
Qualquer tentativa de lidar com a ausência, com a saudade, pura perda de tempo, embromação
Bom mesmo é ficar, mesmo depois de ir embora, permanecer pra sempre gerando emoção…
Todo o resto não importa para onde irá, especulação
Se o que importa de verdade estiver tatuado no coração…
Alda M S Santos

É macabro falar de morte?

É MACABRO FALAR DE MORTE?

Muitas são as explicações na tentativa de justificá-la

Uma das poucas certezas da vida: a morte

E ainda assim a desconhecemos e tememos

Atinge a todos, sem exceção

Não escolhe idade, raça, gênero, cultura ou condição socioeconômica

Ainda assim tentamos explicar:

“Estava velho e doente, sofrendo, foi melhor assim”

“Tão jovem, uma vida pela frente, não dá para aceitar”

“Lutou contra o destino, mas não teve jeito, era a hora”

“Esse também desafiou a morte todo o tempo”

“Era um anjinho, nada viveu ainda”

“Uma alma boa, nunca fez mal a ninguém”

Ou a mais ouvida de todas:

“Deus chamou de volta para casa!”

Quem Deus chama de volta?

Qual o critério para voltar para casa?

Deu defeito, venceu o período de garantia?

Precisa de “assistência técnica” especializada?

Deu ou causou perda total e precisa voltar para o fabricante?

E se foi mau uso, tem direito a reparos e retorno às vias?

E aqueles que apresentam reiteradamente o mesmo defeito, destruindo ou arriscando a si e aos outros?

Nessa perspectiva Deus seria o mecânico, o técnico especialista em reparar falhas e danos.

Mas será que Ele não saberia fazer isso com o motor funcionando, com o coração batendo?

Será que quem volta para casa não precisa de injeção de carinho, tratamento intensivo de amor?

E aqueles que não apresentam defeito de fábrica,

Por que voltam para a “oficina”?

Será que Ele não leva alguns tão bons para ajudá-lo lá em cima?

Será que simplesmente não venceram seu “estágio” por aqui?

Será que quem é chamado de volta já não veio com data de retorno?

Qual o critério para escolher o quanto viver e quando morrer?

Olhando por um lado positivo

Quem morre já cumpriu seu papel nessa dimensão,

E volta para a eternidade, para o paraíso tão aclamado!

Não é castigo ou punição a morte, apenas mudança de jornada.

Seriam, então, privilegiados aqueles que vão mais cedo…

Difícil é fazer aqueles que foram deixados para trás

Entender, aceitar e aprender a lidar com a ausência e a saudade…

E, não, falar de morte não é macabro!

Alda M S Santos

Cultivando amizades

CULTIVANDO AMIZADES

Amava a terra, a natureza

Cuidar de sua horta, suas galinhas

Plantando árvores, colhendo frutas

Cultivando amizades, distribuindo simpatia

Sempre original com seu bigode e seu chapéu

Cuidadoso e carinhoso com os cachorros de “todo mundo”

Atencioso com todos, carinho sem igual com filhos e netos

Nosso moço da água, responsável, brincalhão

Pegando grama para ninhos das galinhas, matando cobras

Fazia parte daquele lugar

Descendo a rua a passear com a esposa

Subindo seu terreno ao lado do nosso

E sempre um cachorrinho atrás

Um bate papo atencioso com quem encontrava

Como só pessoas de lugares lindos e simples

E de almas grandiosas são capazes…

Foi chamado para cuidar de outras terras, do outro lado

Antônio dos Santos não será o mesmo lugar sem você

Se puder, apareça por lá vez ou outra…

Vá em paz, amigo Walmir!

Se Deus o levou, que possa amparar quem ficou!

ABRAÇOS CARINHOSOS DA FAMÍLIA SANTOS

Alda M S Santos

Ao pó voltarás

AO PÓ VOLTARÁS

Do pó viestes, ao pó voltarás

Profetiza a sagrada escritura

Real, ainda que pareça dura

Entre a vinda e a volta ao pó

Entre o choro feliz da chegada

E o choro sentido da partida

Muita água passa debaixo dessa ponte

Muita poeira é levantada

Muita alegria celebrada

Muitas dores sanadas

Na volta ao pó tudo se iguala

Todos enfileirados, todos pó sob pó

Ali não se separa sexo, idade, etnia

Religião, cultura ou bens materiais

Todos são pó, todos viram pó!

Igualdade ainda que tardia!

Entre pó, entre lápides, nomes diversos

Quantas histórias poderiam ser contadas e escritas dali?

Nomes desconhecidos, registros de alguém que passou por aqui

Amou, foi amado, sofreu, causou sofrimentos, viveu…

Foi feliz ou nem tanto, deixou marcas!

Flores mortas no caminho, um carinho, lembranças…

Datas de chegada e partida

Jovens ou velhos, não há critério ou escolha

É chegado o momento! Sem morbidez!

Todos iguais ao menos ali

A diferença está no que deles ficou em cada coração

No que cada alma leva consigo

Do pó viestes e ao pó voltarás!

Alívio ou tormento isso gera?

O que em nós não se tornará pó?

O que a alma carrega consigo nunca será pó!

Essa é a verdadeira diferença que não se nota ali…

Esse é o registro que nunca se apagará

Mesmo depois do descanso eterno…

Alda M S Santos

Morrer não é natural!

MORRER NÃO É NATURAL!

Morrer é natural,

Mas quando a morte vem de onde se espera o engrandecer, o perpetuar da vida

Morrer não é natural!

Morrer é natural,

Mas quando a morte vem pelas mãos da mãe e do pai que abortam uma vida ainda no ventre

Não, morrer não é natural!

Morrer é natural,

Mas quando a morte vem pelo abandono e descaso dos progenitores

Aqueles que são os monstros, ao invés de vencê-los

Não, morrer não é natural!

Morrer é natural,

Mas quando a morte vem pela negligência ou ação de médicos

Que deveriam prolongar ou “salvar” a vida

Não, morrer não é natural!

Morrer é natural,

Mas quando a morte chega pelas mãos no pescoço daquele em quem se confiou

Daquele que foi seu oxigênio um dia e agora lhe tira o ar

Daquele que foi porto seguro e agora lhe rouba o chão

E lança pela janela todos seus sonhos, literalmente

Não, morrer assim não é natural!

Morrer é natural, sim, ciclo final da vida!

Mas morrer desse modo não é natural

Quando a morte vem de onde se esperou sempre proteção e cuidado

Seja pai, mãe, irmãos, filhos, cônjuges, namorados ou amigos …

Não é natural, é covardia!

Morrer assim é antinatural, é assassinato

Jamais deveria ser aceito por ninguém

Em nenhuma circunstância, sob nenhuma atenuante!

Alda M S Santos

Saiu sem saber que não voltaria

SAIU SEM SABER QUE NÃO VOLTARIA…

Uns voltando para casa, outros a passear

Uma rodovia de tráfego intenso, fim de tarde

Famílias inteiras em férias, caminhoneiros no trabalho

Ônibus lotados, escuridão total, alguns invadem a contramão, ansiosos

Todos parados num gigantesco engarrafamento

A PRF alerta: acidente grave com vítima fatal próximo a BH

Quatro veículos envolvidos, colisão frontal ocupando ambas as vias

Sirenes de ambulâncias e resgates passam velozes

Vários motoristas fora dos veículos a conversar

Alguns a fumar ou alongar as pernas

Passageiros impacientes no interior dos veículos

Muitos lamentando a perda de tempo

Outros, a família que perdeu um ente querido

Alguém que saiu de casa sem saber que não voltaria

Imprudência, má sorte, era chegada a hora, muitos a opinar

A lua aparece na serra devagarzinho, como a espiar o que aconteceu

Waze oferece rotas alternativas impossíveis

Penso que poderíamos estar já em casa

Mas lembro de quem não mais poderá chegar

Partiu de volta para a origem

Saio do carro, tiro uma foto da lua que está maravilhosa

E faço uma oração de agradecimento por quem se salvou

Mas, mais ainda, bênçãos a quem se foi e respectivas famílias

Que Deus nos proteja a todos!

Alda M S Santos

Foto de Pablo Vinicius Silva Santos

Apenas um dia normal, mas…

APENAS UM DIA NORMAL, MAS…

O relógio despertou, o sol nasceu brilhante e forte do mesmo jeito

Um banho, a padaria, o café da manhã, trocar-se e se preparar para o trabalho

Um “bom dia” displicente, a correria de sempre

Era apenas um dia normal…

Nenhum aviso de que algo poderia ser diferente, nada

Um tchau apressado, um beijinho rápido

Nem um “eu te amo”, ou “se cuida”

Nem um olhar mais demorado para aqueles que queria bem

Tampouco um abraço apertado e quentinho

Apenas um “não se esqueça de passar no banco”

Afinal, era apenas um dia normal…

Nem uma mensagem ou cuidado especial ao longo do dia, não teve tempo

Apenas queria concluir tudo rapidamente e voltar para casa

O dia chegou ao fim, mas ele não chegou em casa, não na casa terrena

Não pôde mais rever os que amava,

Nada mais de abraços, beijos, cuidados, ou gastar os “eu te amo” economizados

Afinal, não era um dia tão normal assim…

Foi o último dia de vida desse amigo

E de tantas outras pessoas nesse mundo

Soubesse antes teria feito alguma diferença?

Coisas boas, coisas ruins, tragédias ou bênçãos

Todas acontecem em dias aparentemente normais

Como está nosso dia hoje?

Alda M S Santos

Praga urbana?

PRAGA URBANA?

Seria um pombo-correio?

Chegou pertinho de mim no jardim, joguei água

Querendo impedir que os cães o pegassem

Não voou, ficou me olhando, parecia pedir clemência com os olhos

Fechei a torneira, me abaixei e o peguei

Aquele olhar parecia falar, eu queria ouvir

E “ouvia” os argumentos dos outros para descartá-lo

“Isso é praga urbana, só transmite doenças”

“Que nojo! Mata! Bicho piolhento”

“Solta para os cachorros comerem”

“Isso prolifera igual praga, desequilíbrio ambiental”

“Só serve para distrair os velhinhos que os alimentam nas praças”

Lembrei de casos terríveis de extermínio de mamíferos e aves “nocivos”

E eu via apenas um pombo que me olhava

Que tinha asas para voar e me deixou pegá-lo

De onde veio? Por que estava só? Estaria nas últimas?

Praga urbana?

Para mim era apenas um pássaro

Não era um pombo-correio, mas me trouxe um recado

“Os humanos é que estão se tornando praga urbana

Em sua luta desenfreada para sobreviver roubam a vez de qualquer ser”

Eu o coloquei na beirada do balaústre

Ele continuou a me olhar: “confio em você”

Ficou ali muito tempo e depois voou para o muro

Trouxe seu recado:

“Não há na criação nenhum ser melhor que o outro”

Era mesmo um pombo-correio

Um ser da criação, símbolo da paz!

Praga urbana? Responsabilidade de quem?

Alda M S Santos

Não vai embora

NÃO VAI EMBORA

Não vai embora quem fincou em nós suas raízes de bondade

Não vai embora quem nos fez sorrir, nos permitiu servir

Não vai embora quem nos demonstrou amor na simplicidade

Não vai embora quem nos ensinou que gratidão é da vida o pão

Não vai embora o amor que é partilha, que irradia, que aquece

Não vai embora quem, sem perceber, ajudou a curar nossas feridas

E, acreditando ser ajudado, nos fez ser cada dia melhores

Não vai embora quem amou sem qualquer garantia, gratuitamente

Pois assim que deve ser todo amor: gratuito e incondicional

Até pode ir, mas sua luz é tão forte, que será presença constante em nós

Até pode ir, mas não vai só, leva parte de nós consigo, pra sempre

E deixa-nos com muitos vácuos, mas repletos de amor e saudade…

Alda M S Santos

#carinhologos

Quero voltar para casa

QUERO VOLTAR PARA CASA

Triste ver quem foi sempre “atividade” e amor

Presença, sorriso e luz definhar dia a dia

Aparelhos de todo tipo mantendo a “vida”

Respiram, se alimentam, excretam por aparelhos

Estão vivos!

Gemem, roncam, dormem, choram, desconhecem a todos

Memórias antigas, arrependimentos, saudades

Não existe mais o hoje, o amanhã, apenas a carga do ontem

Leve ou pesada, é a que carregam…

Leve ou pesada são a “carga” de alguém

Será que sonham?

Se pudessem escolheriam ir embora?

Deveríamos poder dizer “cansei de brincar, vou para casa”

Essa brincadeira já está machucando, perdeu a graça

Quero pegar o caminho de volta, ou pra frente, tanto faz

Desde que me leve de volta para casa, para o aconchego do Pai

Uma escolha que não nos é permitida

Nem para conosco mesmos, sem sermos “interditados”

Nem para com aqueles que amamos

Sem sanções legais, religiosas, espirituais, emocionais, psicológicas

Deveríamos poder sair de campo, do jogo

Enquanto ainda pudermos escolher, sem manchas no “currículo”, sem humilhações

Escolher a hora do apito final, humanamente, mesmo no zero a zero

Quero poder escolher a hora de voltar para casa!

Alda M S Santos

Miragem

MIRAGEM

Como sonâmbulo, você andava num espaço bonito, porém frio e nebuloso

Passava por muita gente e não enxergava ninguém

Alguns lhe estendiam as mãos, sorriam, cumprimentavam

Outros nem te percebiam ou pareciam bravos contigo

Você não via, parecia ter outro objetivo

Olhos sem brilho, “adormecido”, opacos

Mas seguia…sem parar para nada

Eu observava de longe, encolhida num canto, chorosa

Você chegou até mim, os olhos brilharam, acordaram

Estendeu-me as mãos, levantou-me do chão

Pediu desculpas, chorou, me abraçou demoradamente

“Eu sempre te amei… sempre”-afirmou muitas vezes

E sumiu numa nuvem de fumaça

Como miragem…desapareceu…

Sentei-me novamente no canto

Você voltou para a vida

Eu continuei ali de onde não poderia sair…

Um sonho perturbador!

Alda M S Santos

Medo da morte

MEDO DA MORTE

Morte, tão desconhecida e tão temida

Aquela que, mesmo sendo perda de tempo, por natureza, lutamos contra

É destino certo de todos nós

Ao menos a morte física

Mas mal sabemos que morremos todos os dias

Que tiramos vida de nós e dos outros

Quando não confiamos, quando fugimos, quando traímos

Quando acreditamos em mentiras,

Quando não nos tocamos com o sofrimento do outro

Quando alimentamos discórdias e tristezas

Quando criamos muralhas em torno de nós

Quando ignoramos a luz brilhante que se apresenta

Tantas vezes por temer a morte nós a atraímos mais e mais

Morremos quando evitamos a vida para não morrer

Morremos quando lamentamos a vida que não temos

Morremos quando invejamos ou desejamos a vida do outro

Ignorando a vida que está presente em nós

Morremos quando deixamos de amar, de nos entregar para não sofrer

De enxergar a vida que nos cerca por todos o lados

Em forma de pessoas, de seres vivos, de natureza, de sentimentos…

A vida pulsa no centro de nós como um milagre diário, não nos isolemos

A morte, apesar de certa, não precisa nos levar antes da deterioração do corpo

Não precisamos desejá-la!

Muitas vezes morremos por dentro, muito antes do corpo

Morremos diante de nosso corpo vivo

Essa morte é assustadora!

Alda M S Santos

Quem disse que palhaços não choram?

QUEM DISSE QUE PALHAÇOS NÃO CHORAM?

Que dizer a uma pessoa que perde alguém querido?

Que dizer a uma mãe que perde o filho jovem tragicamente,

Uma amiga Carinhóloga, doce, engraçada, divertida e solidária?

Que dizer? O de sempre nessas ocasiões?

Que eles não mereciam, que não parece certo, que não é certo!

Que ele agora está com o Pai, que aos poucos ela aprenderá a lidar com a saudade?

Que Deus sabe o que faz, que a vida é assim mesmo, que tem direito de chorar?

Que deve ser forte e confiar nos desígnios do Alto?

Parece tudo vazio por ser verdadeiro, mas nada trazer alento…

Que dizer? Tudo isso? Nada disso?

Que imaginamos a dor, mas que não temos o poder de tirá-la com as mãos?

Que mães não têm poder de segurar a vida do filho

Quando o Pai o chama de volta?

Quem disse que palhaços não choram?

Que fazer para o sorriso voltar a brilhar?

Não sabemos! Não sei!

Podemos te abraçar, te beijar, dar carinho, chorar e orar junto.

Estar disponíveis, ser colo, ser ombro, ser alma afim,

Ser irmãos, enfim.

E aguardar juntos a dor arrefecer…

Somos todos pequenos, impotentes,

Mas, estou aqui, estamos aqui!

Conte conosco,somos palhaços Carinhólogos

Nos sorrisos, nas lágrimas, nos abraços…

Alda M S Santos

#carinhologos

Morrer, como será?

MORRER, COMO SERÁ?

Como será o momento da morte?- perguntou-me o idoso meio curioso, amedrontado.

Não sei!-respondi! Nunca morri!- brinquei.

Mas você viverá muito ainda! Não se preocupe com isso, viva a vida- aconselhou-me.

Certamente tudo que a gente fez nessa vida passa pela nossa mente- continuou.

As oportunidades perdidas, os erros “humanos” cometidos,

Os que conseguimos ajeitar, ou aqueles que causaram danos irreversíveis.

Acho que temos medo é das contas a prestar- falou meio sorrindo.

Se passa tudo pela mente, o melhor modo é nos concentrar nas coisas boas que fizemos,

Naqueles que amamos, que nos amaram- falei para ele

E quando assustarmos, nossos olhos terão se fechado aqui,

E só se abrirão do outro lado- sorri e fiz um gesto teatral.

Talvez mais alegre e colorido que esse mundo cinzento- ele disse por trás de seus olhos também cinzentos…

Ou não! -finalizou!

Esse é um caminho cuja travessia fazemos sozinhos….

Como será o momento final?

Alda M S Santos

Vida ou morte?

VIDA OU MORTE?

Às vezes parece que temos ido mais a velórios que a maternidades…

Percebido mais mortes que nascimentos perto de nós

Será mesmo?

Ou nosso olhar tem focado mais num do que noutro?

Avaliado mais um “evento” do que outro?

Saber que ambos fazem parte da vida é importante

Até mesmo essencial para prosseguirmos com mais serenidade e ânimo

Ter essa visão cíclica da vida, o quanto ela é rotativa

Ora estamos aqui, ora estaremos do outro lado

Isso pode gerar desejo de fazer o melhor possível o quanto antes

Ou avaliar que, por mais que se faça, nada mudaria o final

E se “entregar” à inércia do acaso…

Vida ou morte, nascimento ou sepultamento?

Até em nós mesmos fazemos isso todo o tempo

Nascem e morrem em nós emoções, sentimentos, necessidades, alegria, dores

Nem sempre temos controle do que vive ou morre em nós

Tentamos deixar brotar o que nos faz bem, sepultar o que já não está vivo

Ou que poderia vir a nos matar…

Nascer e morrer…

As únicas certezas que temos

No intervalo tudo pode acontecer, boa parte depende de nós…

Alda M S Santos

Vale ouro

VALE OURO

Juntamos diplomas, títulos, medalhas, troféus, taças

Para nos apresentarmos bem quando percebemos chegado o “julgamento final”

Mas não são aceitos quaisquer desses itens

Há critérios importantes a se considerar

De nada valerão diplomas, mestrados, doutorados, títulos e honrarias terrenas

Se não serviram para fazer uma vida melhor, salvar alguém

Despertar sorrisos, fazer brotar o amor e a compaixão

Especialidades, conhecimentos variados, medalhas, bens materiais nada são por si só

Tudo que terá peso positivo é como foram utilizados

Vidas que foram salvas, amor que foi doado

O bem praticado, a luz emitida

E isso a alma é quem transmite

A alma de quem doou, de quem soube receber

Não são necessárias palavras…

Tampouco malas ou bagagens

O que vale ouro mesmo nesse acerto de contas

Vai em nosso espírito, em nossa alma leve, numa consciência em paz…

Alda M S Santos

Ao pó voltarás

AO PÓ VOLTARÁS

“Do pó viestes, ao pó voltarás”

No intervalo, vamos nos divertindo, gerando vida

Arando a terra ora dura , ora macia de nossos corações

Semeando o amor, plantando flor, ressecando dor

Com pés no chão, na terra

Mas sem abrir mão das asas

Flutuando entre nuvens brancas ou cinzentas

Escolhendo caminhos menos tortuosos

Regando, adubando, colhendo

Espalhando mudas e sementes

Do pó viestes semente

Ao pó voltarás flor…

Alda M S Santos

Aceito em mim

ACEITO EM MIM

Vou-me construindo dia a dia, parte a parte

À medida que, paradoxalmente, me desconstruo

Dermes e epidermes que se desgastam e se refazem

Pelo a pelo que cai e a vida se renova em cada bulbo

Tal qual fruto que, podre, se desfaz

E em semente recomeça…

Vida e morte convivendo lado a lado

Em variadas fases de viço e secura

Tal qual roseira que carrega em seus galhos, ao mesmo tempo,

Morte, vida, renascimento…

Aceito em mim a morte do que já não vive

Celebro a vida do que ainda tem brilho e perfume

(Des)construindo dia a dia um novo ser…

Alda M S Santos

Sepultamentos

SEPULTAMENTOS

Muitos “pequenos” sepultamentos enfrentamos ao longo da vida

Infância e inocência sepultadas tão cedo

Amigos imaginários e super-heróis enterrados pela razão

Amigos “para sempre” da adolescência separados pelas trilhas incertas do futuro

Amizades e amores de juras eternas soterrados pelas circunstâncias, distância ou incompreensão

Sonhos, esperanças, desejos afogados nas águas turvas da realidade

O viver se impõe e “mata” o que poderia sufocá-lo ou estacioná-lo

A vida segue sempre em frente, à nossa revelia, ignorando nossos sepultamentos

Para o renascer faz-se necessário abrir espaço em nossos canteiros internos

Para viver, às vezes, é preciso morrer para algumas coisas

E de pequenas em pequenas mortes ou perdas

De pequenos em pequenos sepultamentos “indolores” a que somos submetidos

Vamos nos preparando para a “perda” derradeira…

Só não vale valorizar mais os sepultamentos que os renascimentos

“Para alguns a vida sepulta mais que a morte”(Mia Couto)

Alda M S Santos

Última visita

ÚLTIMA VISITA

Ao encerrarmos uma visita no lar de idosos

Sempre temos o cuidado de despedir de cada um

Com o carinho que faz parte da nossa relação com eles

Um pensamento passa sempre por minha mente

“Pode ser o último abraço, última vez que vou vê-los”

E o carinho é redobrado…

Pensamento que tento afugentar, mesmo sendo “natural”,

Visto que são idosos e muitos deles estão doentes.

Mas, a verdade é que só Deus sabe de todas as coisas,

Tanto podem ser eles a ir embora para casa, como pode ser eu ou um de nós

Deus é que sabe onde estaremos fazendo mais falta

Devíamos sempre viver com todos como se pudesse ser a última visita

E sem chance para despedidas

A última vez dei um beijo nessa Miss Guerreira

Estava jantando no quarto, já não se sentia bem…

Vá com Deus, Luzia Guedes

Todos no céu vão amar você tocando seu pandeiro

Amamos você! Saudades!

Alda M S Santos

#carinhologos

#carinhologossolidarios

Céu e inferno

CÉU E INFERNO

Ansiamos pelo céu, tememos o inferno

Mas ambos estão muito pertinho de nós

Na verdade, ambos estão dentro de nós, ou nós dentro deles

Estamos no paraíso quando experimentamos boas sensações

Amor correspondido, amizade sincera, família unida

Corpo e mente saudáveis, paz conosco mesmos

Tudo lá fora torna-se lindo, colorido, brilhante, mesmo com raios e trovões, gelo ou nuvens pesadas…

Isso é paraíso.

Experimentamos o inferno quando não temos sintonia conosco, com os outros

Quando faltam empatia, amor, amizade, sossego

Quando sobram culpas, autoflagelos, dores, males físicos e mentais

Autopiedade, desconfianças, desamor, escuridão

Lá fora pode ser um espetáculo maravilhoso, sol quente, amor, natureza viva

E nós de olhos cerrados nos sentindo destruídos …

Isso é inferno.

O céu e o inferno, se fossem um lugar específico

Se tivessem que ser localizados num mapa

Seriam dentro de nossa própria mente, de nossa consciência

No mais íntimo de nossa alma

E depende de nós entrar ou sair de cada um deles

Fazer malas, mudar, deixar pra trás o que fere, ainda que com sofrimento

Mudanças sempre são dolorosas

E não precisamos morrer para isso…

Alda M S Santos

O que sobra de mim?

O QUE SOBRA DE MIM?

O quanto há dos outros em mim

E o quanto há de mim nos outros?

Quando alguém amado ou bem próximo morre ou se afasta

Sabemos que ali com eles foi uma boa parte de nós…

Morremos um pouco na morte ou afastamento de entes queridos: familiares, amigos, mentores

E porque não dizer também dos desafetos?

O que sobra de mim,

Sem a parte de mim que os outros carregam?

O quanto de mim é, na verdade, baseado no que sou para os outros,

No que eles são para mim?

Minha história seria a mesma

Se fossem retiradas pessoas que a ajudaram a compor?

Nossas vidas são entrelaçadas a outras vidas

Se um fio é retirado, todo o novelo se modifica!

O fio original já não sabemos mais qual é

Está emaranhado no todo.

Seria como retirar o ovo de um bolo pronto.

O que é ovo, leite, farinha, e o que é bolo?

Alguns fios são como o fio base que sustenta toda a estrutura do novelo

Somos fios estruturais na vida de algumas pessoas

E a recíproca também é verdadeira

Cada qual tem o seu: pais, filhos, amores, amigos…

Daí o tanto que balançamos com as perdas da vida…

Morremos um pouco ao morrer cada ser que amamos

O que sobraria de mim sem você?

O que sobraria de você sem mim?

Um novelo, que falta fios, talvez sem cor, frágil

Mas, ainda assim, um novelo…

Alda M S Santos

Desumano, demasiado desumano

DESUMANO, DEMASIADO DESUMANO

Uma vida jogada fora, desperdiçada de modo cruel

Desumano, demasiado desumano

Um ser humano, alcoólatra, cuidador de carros nas ruas

Calado, triste, educado, não incomodava ninguém

Onde dormia, bebia, comia, dependia da ajuda dos outros

Há poucos dias recusara ajuda do AA, acreditando não precisar

Uma briga, jogam álcool em seu corpo, ateiam fogo

Não resiste, parte cruelmente assassinado.

Grande ironia da vida, morrer pelo álcool

Curtido na maldade humana!

Uma raça onde a liberdade de um fere a do outro

Nesse mundo humano tão desumano

Ou seria, como diria Nietzche, “humano, demasiado humano”

Pois um animal não seria capaz de tal atrocidade!

Certamente ele está em paz agora!

Noutra dimensão…

RIP

Alda M S Santos

Duas imagens

DUAS IMAGENS

No porta-retratos a imagem era de uma mulher madura

Meio corpo para fora da piscina, sorridente, feliz

Exalava energia e saúde

Contrastando com aquela senhora que estava numa cama hospitalar

Pálida, envelhecida, enfraquecida, doente

Sondas e apetrechos médicos variados ligados a seu corpo

Cochilava, boca aberta, muito magrinha

Fiz um carinho em seus cabelos, em seu rosto, dei-lhe um beijo

Ela abriu os olhos e me encarou

Desejei um Ano Novo de alegrias, saúde e paz

Entreguei umas lembrancinhas, li um cartão

Sorriu para mim com os olhos em agradecimento

Tornou a fechá-los…

A vida se esvaía ali naquele lar de idosos

Que passava em sua mente?

Arrependimentos, decepções, mágoas,

Ou alegrias, amores vividos, saudades?

Visitava mentalmente lugares queridos?

A foto era como queriam se lembrar dela

Alegre, jovial, saudável…

Mas o choque era grande para quem não a conheceu antes!

Associar as duas imagens era desconcertante

A sensação que fica é de que a vida é fluida

E quase sempre termina de um modo bem triste…

Precisamos valorizar a saúde que temos

A vida que há em cada um de nós,

Antes do fim…

Alda M S Santos

Acertando as contas

ACERTANDO AS CONTAS

Ela chegou ali de um modo nada louvável: à força

Abdicando da própria vida

Logo foi questionando para uma imagem amigável: por que me abandonou?

Levada para uma biblioteca gigante de luz

Lindos e variados livros, de todos os tamanhos e espessuras

Alinhados nas prateleiras, pareciam ter vida

Nas lombadas, os nomes de todas as pessoas, biografias

Autorizada, escolheu alguns nomes conhecidos e folheou

Uns eram finos, outros com interrupções, espaços em branco

Vários com mais de um volume

Histórias de vidas acompanhadas em tempo real

Buscou pelo que continha seu nome, não encontrou

“Você escolheu não estar aqui”!

Em salas contíguas, outros livros, outras vidas

Uma delas de pessoas que já tinham partido

Na outra, pessoas em estágio “terminal”, tratamento intensivo

Encontrou seu nome, pegou sua história

Ali, todos os momentos de sua vida e todos que dela participaram

Os momentos difíceis em que pessoas anjos preciosas apareceram

-“Eu não te abandonei, veja!”-o olhar era de puro amor

-“Mas muitos foram embora”-ela disse, chorando.

-“Ficaram pelo tempo necessário, enquanto podiam te fazer bem”!

Olhou mais alguns livros de “histórias amadas”

Notou que seu livro ainda possuía páginas em branco

Uma página arrancada, ela observou que estava escrito “fim”.

-“Volte! Sua história não acabou. Você ainda é necessária na história de muita gente”!

Ao lado do seu, todos os livros nos quais era personagem

Histórias de amor entrelaçadas…

Recebeu um abraço de amor intenso,

Forças renovadas, voltou…

Iria preencher aquelas páginas em branco…

Alda M S Santos

E a vida segue…

E A VIDA SEGUE…

Dia: sol, luz, insegurança, amor, coragem, expectativas,

Vida que segue…na leveza ou peso do que somos

Noite: escuridão, medos, perseguições, ameaças, desconfianças, acusações…

Morte que tudo interrompe…na leveza ou peso do que carregamos

Sonhos e pesadelos…

Tudo cinzento e cruel!

Alegrias que fortalecem

No brilho do amor e amizade

Lágrimas que lavam a alma

Força que renasce da coragem e fé

E a vida segue…

Na linha tênue que a separa da morte!

Alda M S Santos

Se eu faltar pra você…

SE EU FALTAR PRA VOCÊ…

Se eu faltar pra você, quanto tempo sofrerá por mim?

Ficará revoltado, achando que a vida foi injusta, que merecia mais?

Será daqueles que mergulham em histórias e mais histórias pra esquecer minha partida?

Escreverá um livro contando nossa história para relembrar, não me apagar da sua mente?

Sentirá falta do quanto te amei, de minha companhia diária, do quanto nos fizemos bem?

Ou será do tipo que procuraria exatamente por quem disse que nunca faria, por pura rebeldia?

Seria capaz de me responsabilizar pelo que não foi culpa minha?

Saberia ser agradecido a Deus pela vida que compartilhamos, ou revoltado pelo fim?

Seguirá em frente, amará outra mulher logo, pois acostumou-se a uma vida de amor?

Não sei o que você faria…

Soubesse com antecedência da minha partida poderia até levar você…

Mas não seria justo! Você tem direito à sua vida!

Afirmo apenas que levaria você comigo para sempre:

No coração e na alma para qualquer dimensão…

Alda M S Santos

Vida e Morte

VIDA E MORTE

Nascer e morrer, morrer e nascer

Extremos de uma mesma história,

Ou parceiros nessa caminhada?

Partes comuns de uma mesma vida,

Ou pontos antagônicos?

Por que temos tanta dificuldade em lidar com a morte?

Ela está perto de nós todo o tempo

Quase tanto quanto a vida!

A vemos na natureza: plantas e bichos, água, ar, fogo, terra

E vezes demais entre os humanos também: renovação

A diferença é que morte entre plantas e bichos quase sempre vemos como “natural”.

Aceitar a ideia da morte não significa, necessariamente, desvalorizar a vida!

Acostumar com a morte pode nos fazer ter uma vida plena

Da qual sabemos que terá fim a qualquer momento,

Independente de nossas vontades ou desejos.

O que não é natural é desejá-la mais que a vida.

A morte não deveria nos meter mais medo

Mas a vida nos meter mais coragem!

Alda M S Santos

Dia dos mortos

DIA DOS MORTOS

Temos dia pra tudo nesse mundo

Hoje é dedicado aos que já se foram

Como se precisassem de dia especial

O máximo que se pode fazer por eles é oração

Qualquer atitude, pensamento ou sentimento bom

Precisa ser feito por aqui mesmo.

E mortos, todos somos um pouco.

Quantas coisas em nós foram mortas

Assassinadas por nós mesmos ou pelos outros ao longo da vida

Ou, simplesmente, deixamos morrer por inanição?

A vantagem dos que estão vivos

É que sempre é possível deixar renascer o que morreu, ou quase

Replantar, cuidar, deixar brotar novamente,

Enquanto houver vida, esperança e desejo…

Alda M S Santos

Quase morrer

QUASE MORRER

Não se expor, não falar, não demonstrar, não pedir ajuda,

Não se expressar, se fechar, se calar, se esconder, ser forte…

Ficar cada um na sua! Bem pequenino, quase invisível!

Recolher-se para dentro de si mesmo!

Essa é a ordem! Que nos impõem, que nos impomos.

Até quando?

Até esquecermos como é ser autêntico.

Ou até esse mundo insano entender que vida não se oprime,

Que vida oprimida é quase morrer, ou matar!

Quantas mortes são necessárias para se valorizar uma vida?

Alda M S Santos

Exangue

EXANGUE

Exaurido, debilitado, sem forças

Exangue! Sem sangue, sem cor…

É possível um coração ficar assim?

Apenas se estiver sem vida!

Pois qualquer que seja a emoção

Boa ou ruim, alegre ou triste,

Mesmo que ele pareça vazio demais

Ou totalmente sobrecarregado,

Sempre terá cor, terá vida,

E continuará a bater, a bombear vida, a espalhar amor…

Alda M S Santos

Morrer por amor?

MORRER POR AMOR?

Nada de Romeu e Julieta,

Esse romantismo exacerbado,

Amor impossível, que se mata para permanecer “junto”.

Mas que há muitos que se envenenam dia a dia,

Pelo outro, para o outro,

Isso não se pode negar!

A cada vez que você se nega,

Que deixa de lado algo que ama,

Que abre mão, que cuida, que se descuida,

Que tolera coisas que não gosta,

Que deixa espaços vazios,

Que se conforma com a falta de algo,

Que “cede” sua felicidade para proteger o outro,

Para ver o outro bem,

Um pouco de “veneno” é ingerido.

Há muitas maneiras de “morrer” para manter vivo a quem se ama!

Há muitas maneiras de “viver” para não matar a quem se ama.

Alda M S Santos

Vivo ou morto?

VIVO OU MORTO

Quem está mais perto da morte

Um semimorto ou um semivivo?

No semimorto supõe-se uma parte viva

No semivivo supõe-se uma parte morta

Ou a pergunta deveria ser

Quem ainda tem chances de sobrevida?

Depende do CTI que frequente,

Dos cuidados profissionais recebidos,

Das visitas especiais constantes,

Das motivações que receba em doses diárias,

Mas, principalmente, do desejo de viver,

E esse vem de dentro,

Quer seja no semivivo ou no semimorto.

Vivo ou morto?

Alda M S Santos

Epitáfio

EPITÁFIO

No dia seguinte ao meu aniversário

Pedem-me, numa formação em serviço

Para escrever meu epitáfio

Parece meio mórbido

Mas nos leva a refletir

Na nossa finitude

E no quanto tudo é vago

Se não houver amor e perdão.

Alda M S Santos

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