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poemas e reflexões da vida cotidiana

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Descarrilhou?

DESCARRILHOU?

É fácil ser bom quando tudo parece perfeito

Quando o trem da vida segue nos trilhos

O céu está limpo, jardim florido, pássaros a cantar

Quando somos queridos e amados, quando notamos justiça a nossa volta

Os amigos nos abraçam, há borboletas no jardim e no estômago

A fé prevalece, Deus é Pai, somos agradecidos…

Porém…

Provamos realmente que somos bons e sábios

Se conseguirmos manter certa paz, serenidade e confiança

Quando a saúde física perturba, a emocional oscila

Quando o trabalho é muito cansativo, o chefe nos desvaloriza

Os filhos são rebeldes, com ou sem razão, os pais precisam de ajuda e não pedem ou reconhecem

Os amigos nos abandonam ou não podem estar por perto

O cônjuge nem sempre compreende nossas angústias

O céu escurece, o mundo cai, sem perfumes, sem sorrisos, sem beija-flores

Quando nos decepcionamos, perdemos algo que amamos, nosso time tropeça

Quando nos sentimos lesados e todos parecem se tornar nossos inimigos

Deus não nos ama mais, nos rebelamos, queremos consertar tudo à força…

Nessas horas é difícil ser bom, pacífico

Mas de que vale uma bondade apenas quando tudo parece bem

Se ela é mais necessária quando tudo vai mal?

Se o trem da vida descarrilhar, melhores peritos temos que nos tornar

Para os vagões não desgovernarem e atropelarem todos a nossa volta!

Alda M S Santos

Equalizando

EQUALIZANDO

Decepções são como os favores

Nem sempre recebemos ou retribuímos a quem nos “presenteou”

Recebemos favores de um ali

Devolvemos a outro mais na frente

Decepcionamos alguém aqui

Somos decepcionados por outro acolá

Essas são as voltas desse mundo tão cíclico

Ainda que possa parecer cruel

É seu jeito de ser leve e equalizar as coisas…

Alda M S Santos

Em construção

EM CONSTRUÇÃO

Não somos somente aquilo que nosso olhar transmite

O que há em nós reflete no outro, diferentemente em cada um

E retorna para nós para processamento

Posso ser vista melhor do que sou, dado o grau do amor de quem me vê

Ou posso ser vista menos do que sou, pela (in)capacidade do receptor de entendimento

Ambos ajudam em minha construção do eu

Instigam melhorias, ainda que pós erros e decepções

Somos uma massa sendo “sovada” todo o tempo

Ora homogênea, ora heterogênea

E essa massa cresce ou míngua a cada contribuição recebida

Pode adquirir sabor e beleza ou desandar, azedar

Dependendo do que o outro nos oferece

Alguns ingredientes são essenciais, outros dispensáveis

E há aqueles que, como a cereja do bolo, são puro encanto

Uma receita antiga, mas cheia de atualizações

Tornamo-nos pessoas dia a dia

Seres incompletos e insossos ao nascer

Vamos recebendo do meio os ingredientes necessários

Para a concretização desse plano de Deus em nós…

Alda M S Santos

O que nos move?

O QUE NOS MOVE?

Seres distintos que somos todos

Iguais apenas em nossa humanidade

Essa máquina complexa: corpo, mente, alma

Possuímos os mesmos combustíveis a mover nosso motor diariamente:

A dedicação ao trabalho

O conforto da fé

Carinho das amizades sinceras

Calor de um amor verdadeiro

Alegrias e dores da maternidade/paternidade

Gratidão pela família unida

Satisfação com o estudo e aprendizado

Prazer em cultivar corpo e mente saudáveis

Bem estar em fazer o bem, sempre que possível

Consciência tranquila e cuidado para não machucar ninguém

Acúmulo de bens materiais

Diversões variadas…

As preferências por um ou outro

Leva-nos a tecer a trama complexa da vida

A costurar esse tecido que nos ampara, liberta ou aprisiona

A dependência maior de um ou de outro é que nos difere

E nos torna mais ou menos felizes…

O que nos move?

Alda M S Santos

O bem contido no mal

O BEM CONTIDO NO MAL

Em todo mal, se olhado com cuidado, se melhor observado

Há algo de bom que possa ser aproveitado

A luz não teria tanto brilho, se a sombra não amedrontasse

A liberdade só é tão almejada por quem já viveu qualquer tipo de prisão

A saúde é percebida como um bem maior quando sofremos qualquer dor

O silêncio é melhor sentido pós barulho intenso

O amor é indispensável a quem sofreu com indiferença

A paz é maior bênção onde já se viveu a guerra

Alimento e abrigo são presentes para quem viveu ao relento e passou fome

A vida tem maior valor quando vencemos a morte dia a dia

Sentimos melhor a presença

Onde antes houve ausência

O cheio só tem valor onde houve vazio

A percepção da falta mensura a fartura

A iminência da perda evidencia qualquer preciosidade

Faz-nos valorizar e ser gratos ao que temos…

Alda M S Santos

Trocamos

TROCAMOS

Trocamos um quintal grande e arborizado, uma cisterna de águas límpidas e um cachorro fiel por um playground “seguro” de concreto, atrás de grades e muros altos

Trocamos caminhadas ou pedaladas até a escola ou trabalho por esteiras e aparelhos na academia

Trocamos frutas e verduras da horta ou pomar e quitandas de forno à lenha por produtos enlatados e industrializados

Trocamos as brincadeiras de pique-esconde e polícia -ladrão na rua por fases de jogos nos computadores

Trocamos uma amizade verdadeira e de confiança por outra mais “valiosa”, mais promissora, mais cordata, menos instigante

Trocamos uma paquera na praça do coreto, um namoro no alpendre, um relacionamento duradouro por outros imaginados, ilusórios e incertos

Trocamos chás de boldo e hortelã, um abraço amigo ou um desabafo choroso no colo de alguém querido e confiável por drogas alucinógenas e causadoras de dependências

Trocamos a responsabilidade por erros que cometemos, a oportunidade de crescimento, pela justificativa de “eu não fui atrás”, “eu não busquei”, “não é culpa minha”, enganando a nós mesmos

Trocamos a alegria do convívio com uma família grande, amorosa e até briguenta, por um trabalho qualquer que muito nos ocupe em busca de dinheiro que nem teremos tempo ou satisfação para gastar

Trocamos nossas alegrias e tristezas naturais por remédios tarja preta

Trocamos nossa essência para manter ou conquistar algo que nem sempre nos fará bem

Trocamos tanta coisa em busca de alta expectativa de vida, de facilidades e felicidade passageira

Para vivermos 75/80 anos, aos invés dos 50 de outrora

A que custo?

Alda M S Santos

Provações

PROVAÇÕES

Quando entendemos a razão de cada provação, dor ou sofrimento

A parte que nos cabe, a nossa responsabilidade em tudo que vivemos

Fica menos pesado enfrentá-las, aceitá-las, nos fortalecer

Precisamos evitar a facilidade de apontar o dedo para os erros alheios e olhar para os nossos próprios erros

Assim, podemos evitar produzir novamente as razões do sofrimento causado em nós e nos outros…

É muito clichê, mas “sofrimento ensina” para quem se dispõe a aprender

Assumir os próprios erros exige caráter e maturidade

Corrigi-los e evitá-los gera sabedoria…

Alda M S Santos

Descaminhos

DESCAMINHOS

Um caminho acertado se faz de muitos descaminhos

Quantos desalinhos são necessários para se alinhar

Quantos despareados encontramos antes de bem parear

Quantas lágrimas são necessárias para fazer brilhar o sorriso

Quanto precisamos nos perder para ter a certeza que nos encontramos

Quantos desatinos cometemos até conseguirmos nos atinar

Quanto precisamos entender do que se passa dentro de nós

Para entendermos minimamente o que se passa dentro do outro?

Quanto?

Todo histórico de acerto carrega consigo um sem número de rascunhos…

Alda M S Santos

O tempo

O TEMPO

Se ignorássemos que o relógio trabalha do mesmo modo para todos

Acreditaríamos que ele privilegia alguns: passa mais devagar, mais acelerado ou até pare, dependendo da pessoa

Os mesmos 50, 60 ou 70 anos não têm o mesmo efeito para todos

Pesos diferentes para rostos, corpos, mentes e almas diferentes

A genética e a questão sócio-econômica pesam, bem sei

Mas não é o que faz a diferença maior entre as mesmas sessentonas, setentonas ou cinquentões

O efeito do tempo parece amenizado em alguns rostos, corpos e almas

Valem-se muitas vezes de preenchimentos estéticos, próteses, cirurgias, cremes e botox

Mas não há nada, nenhum recurso estético que mantenha tão bem um olhar brilhante e terno

Um sorriso lindo, um colo acolhedor, um corpo ágil e alma leve

Quanto uma vida recheada de amor, carinho e compaixão

Que acabam por aumentar o poder de atração e prazer na companhia de alguns

E reduzem uns 10 anos de rugas no rosto e de “peso”nas costas daqueles que não se entregam

Amor não vivido, gritos calados, sonhos desfeitos, culpas e medos têm efeito terrível no corpo e na alma

Mais que marcado por rugas, o rosto se torna opaco e sem brilho

As costas parecem carregar o mundo, o passo reduz, a boca só emite amargor

A vida bem vivida, em paz consigo mesma, com amor, sem excessivas cobranças

Tem o poder de fazer o relógio ser mais lento, andar ao contrário, quase parar

Melhor, tem o poder de fazer cada segundo se eternizar no tempo…

Alda M S Santos

Somos todos sapos!

SOMOS TODOS SAPOS!

Voltemos da Disney! Nada de príncipes ou princesas!

Somos todos “sapos”! Não há contos de fadas, nem beijos tão poderosos assim!

Todo sapo quer ser sapo!

Para que iria querer se transformar num humano

Confuso, frustrado, complicado e sempre insatisfeito?

Todo humano quer ser humano

Até mesmo desumano, vez ou outra!

Mas amor ou beijos não transformam ninguém, apenas despertam o adormecido

Por amor, dedicação, prazer, sacrifícios ou abnegação acordamos uns aos outros

O amor abre os olhos da alma, faz-nos ver o que o outro realmente é

Enxergamos o que ele tem de melhor e está escondido na penumbra das vaidades

Ou camuflado nas folhas secas do medo do sofrimento e da rejeição

O amor faz-nos desenvolver qualidades em potencial que desconhecíamos e nos torna melhores

Amor faz reviravolta na alma!

Se um beijo transformar sapo em príncipe ou princesa, olhe bem!

Algo está errado…o feitiço tem curta duração!

Melhor um “sapo” real, verde, feio, de verdade, que um príncipe de enganação !

Alda M S Santos

A última carta

A ÚLTIMA CARTA

Lembra-se do que escreveu naquela última carta

Sem saber que seria a última?

Lembra-se daquele abraço, daquele sorriso

Sem ter consciência que não haveria outros?

Lembra-se de um simples tchau, um até mais, sem saber que eram um adeus?

Lembra-se das gargalhadas perdidas, brigas tolas

Sem considerar que poderia se arrepender, sentir tanta falta?

Se não houver mais chance

Dizemos o que queríamos ao escrever,

Abraçar, sorrir, brigar, nos despedir, amar?

A marca derradeira foi a que gostaríamos de ter deixado?

A memória pode falhar, o outro faltar, empecilhos mil surgirem

A vida se esvair como fumaça no céu

Quantos “últimos” e saudosos momentos temos vivido?

Haverá tempo de reviver alguma coisa?

Oportunidade para uma última carta?

Bom mesmo seria não esperar pela última carta

Mas sempre “escrever” como se fosse a última…

Alda M S Santos

Terminou, mas não acabou…

TERMINOU, MAS NÃO ACABOU…

Aquela vida que se jogou do alto de uma passarela no asfalto lá embaixo

Deixa a sensação aos que ficam de que há algo inacabado

Terminou, mas não acabou…

Não era a hora, foi interrompida por força das circunstâncias que desconhecemos

Aquele relacionamento feliz, mas que andava pisando em ovos, lutando contra medos, culpas, fragilidades e inseguranças

Terminou, mas não acabou…

Não acaba quando o amor permanece, a saudade ainda machuca, a ausência fere e dói

Quando não é dado um fim pacífico dentro de si

Aquele ser que se levanta todos os dias, sem brilho, sem alegria, sem norte

Que não encontra razões para estar vivo, cujos olhos opacos não dizem nada além de “cansado de viver”

Ainda não terminou, mas está se acabando…

Exceto o que deu fim a si mesmo lançando-se pelas dores e amarguras ao asfalto

E que continua apenas na mente dos que ficaram e nada puderam fazer,

Os demais não se acabaram, ainda que pareçam finalizados

Não estão mortos, a vida existe lá dentro

Camuflada em meio à penumbra da solidão

E precisa de luz para ser de novo despertada,

Esse suicídio lento pode e deve ser interrompido

Deixar correr as águas desse rio para a imensidão do mar

Retirar as amarras, as cordas do pescoço, desfazer os nós

Criar laços de amor e vida…

Alda M S Santos

Simplesmente nua

SIMPLESMENTE NUA

Quero ter a coragem de me apresentar nua,

Completamente nua, sem disfarces ou maquiagens

Alma rasgada, sem vergonhas, pudores ou medos

Nasci nua, nua retornarei

Querendo ou não…

De nada valerá tudo que aqui acumulei

Exceto o que tiver guardado na sacola leve da minha alma

Ou nos espaços especiais, cedidos ou por empréstimo,

Que tiver ocupado positivamente na alma de alguém

Bens materiais, diplomas, cultura, contas bancárias…

Tudo são “vestimentas”, acessórios!

Currículo só valerá o emocional

Tudo o mais ficará para trás…

O que interessa é se isso tudo

Permitiu que eu me tornasse uma pessoa melhor,

Mais tolerante, amiga, amável, solidária, correta

Para mim mesma, para aqueles que me cercam…

Nudez da alma é a verdadeiramente cativante

E é só por ela que Ele se interessa!

Simplesmente nua, assim quero me apresentar…

Alda M S Santos

Areias da praia

AREIAS DA PRAIA

Há acontecimentos, ou pessoas, na vida da gente

Que são como as ondas do mar molhando nossos pés na praia, suavemente

Parecem trazer apenas frescor, alegria, paz e união

Porém, levam a areia de debaixo de nossos pés quando se vão

Tiram nosso chão, nossa segurança e autoconfiança

Levam consigo quase tudo que trouxeram, inclusive o amor e esperança

Mas sempre deixam a lembrança do frescor

E a certeza que outras ondas virão, outra cor

E estaremos mais firmes sobre nossos próprios pés

Mais fortes, experientes e sábios para encarar novo revés…

Alda M S Santos

Dores

DORES

Ponho-me a observar uma borboleta que borboleteia feliz no jardim

Os pássaros que cantam em total diversão e voam dos galhos das árvores para o comedouro

Cachorros cochilando na varanda, ora correm, ora saltam, balançando o rabo, alegres e fiéis

Irracionais, parecem não ter qualquer tipo de dor ou angústia

Concluo que deve haver algo de muito sagrado nas dores humanas

Posto que não há humano que viva sem elas

Certamente é uma forma de “purificação” a que os animais estão isentos

Estamos sempre a lutar contra uma delas

As dores físicas, orgânicas, são inúmeras

As famosas cefalalgias e diversos tipos de “algias”

Aquelas que sabemos apontar onde dói e medicar

Há ainda as dores de tristeza, de angústia, de saudade, de desamor

Dores que ferem lá no fundo e não identificamos a origem

Dores psicológicas, mentais, emocionais, existenciais

Aquelas que o médico não encontra no RX ou na tomografia

As mesmas que a maioria das pessoas olha e diz

“Fulano é feliz, não tem problemas, sempre sorrindo”…

Há ainda as dores do outro que carregamos como nossas

São do outro, mas ele está tão dentro da gente,

Que dói em nós também…

Por essa perspectiva, se tudo que dói em nós

Dói naqueles que nos amam

Dá pra calcular o sofrimento de Jesus

Ao sofrer com nossas dores

Particularmente aquelas autoinflingidas, que nós mesmos buscamos

Por desconhecimento, ignorância, descuido, ou autoflagelo…

Sei lá!

Mas que às vezes dá vontade de ser uma borboleta

Ah, isso dá!

Alda M S Santos

Confissões

CONFISSÕES

Quantas confissões são necessárias para a leveza de nossa alma?

Ao diretor espiritual, aos pais, aos amigos, ao cônjuge, aos filhos, a desconhecidos

Ao terapeuta, a Deus, ao travesseiro, apenas a nós mesmos?

Quantas confissões são verdadeiras, corações rasgados,

Regadas a lágrimas, alma nua?

Admitir um erro, uma fragilidade, uma raiva, uma inveja, um amor

Quase nunca é fácil!

Assumir e confessar a responsabilidade num fracasso

Ou a inabilidade em lidar com algo ou alguém

É humanamente difícil!

As confissões que envolvem sentimentos e emoções são as mais complicadas!

Posso não ter amado ou me dedicado o suficiente a alguém

Demonstrado dificuldade ao admitir ou confessar o amor

Mas nunca disse amar, sem ter amado verdadeiramente

Nunca deixei que outro assumisse um erro que era meu

Mesmo assim, erros, medos e fragilidades confesso mais ao travesseiro…

Essas confissões nos deixam nus perante o outro

São difíceis, porém, as mais importantes

Esse “peso” retirado da alma, dividido com alguém, ainda que conosco mesmos

Nos faz mais leves para seguir em frente

Com mais sabedoria para aceitar a nós mesmos e ao outro

Com as qualidades e defeitos inerentes a todo ser humano

Procurando acertar mais que errar

Fugindo das canoas furadas que já conhecemos

E buscando, ainda que inadvertidamente, os melhores caminhos…

Alda M S Santos

Nossos horizontes

NOSSOS HORIZONTES

O tamanho de nossos horizontes,

A distância que eles se encontram de nós

As possibilidades que nos apresentam

Dependem muito dos caminhos que percorremos primeiro dentro de nós

A princípio, o horizonte pode ser extenso, lindo, colorido

Mas com o tempo pode ir se reduzindo, perdendo a beleza, as cores

Quando nos prendemos demais nos caminhos tortuosos dentro de nós mesmos

Podemos nos perder, nossos horizontes parecerão menores, mais distantes, impossíveis

Vão diminuindo, se amiudando…

Para enxergar as possibilidades que o horizonte nos oferece

É preciso tirar o foco de nossos labirintos internos

E olhar ao longe…

Alda M S Santos

Pontes

PONTES

Pontes são convites, são chamados

Elos a permitir a ida de um lugar a um ainda não-lugar

Aquele que vemos apenas pelas frestas das persianas de nossa mente

Apresentar o desconhecido ao conhecido

Possibilitar o novo, encorajar

Passarelas ou pinguelas, as físicas ou as mentais

Assustadoras para muitos, paralisantes

Fundamentais para tantos…

Necessárias onde há falhas no caminho, obstáculos, interrupções

Rios, mares, montanhas, abismos

Aqueles da natureza ou dentro da gente

Não vale é ficar parado onde já esgotou possibilidades

Ou no meio da ponte a impedir o caminho dos outros

Ou ainda esperando até as forças faltarem para a travessia

Encontrar pessoas ponte, pessoas pinguela

A nos dar as mãos, acalmar nossos medos

Encorajar cada passo na pinguela

“Em frente, não olhe para baixo”

“Um passo de cada vez, tá quase lá, estou aqui”

São ouro num mundo tão cheio de muros…

Alda M S Santos

Quanto vale uma vida?

QUANTO VALE UMA VIDA?

Uma pergunta difícil : quanto vale uma vida?

Uma vida vale tudo, mas não há nada que pague.

Também não vale nada, visto que não há valor material que possa sustentá-la

E tantas vezes parece estar presa a um único fio…e perdura

E outras, parece forte… e se perde

Vale o tamanho do nosso amor, da dor que fica

Da ausência deixada, da lacuna não preenchida

Como amor não tem medida, a vida também não tem…

Qualquer vida que se perde

Que permitimos que se vá

Que não conseguimos impedir a partida

É uma perda irreparável,

Independente de quem foi

Sexo, idade, classe social, instrução, religião, profissão…

É sempre um projeto de Deus interrompido…

E uma vida nunca pode substituir a outra

Cada vida é única e especial

Algumas são mais preciosas para a gente que outras

São aquelas que Deus nos entregou nas mãos e disse

“Cuida, confio em você”!

São aquelas pelas quais seremos cobrados

São aquelas que trazem tudo de bom que temos

Que fazem a nossa própria vida ser preciosa

Que nos alimentam de sorrisos e lágrimas

Que nos fazem acender, manter e fazer valer nossa porção divina…

Alda M S Santos

No livro da minha vida

NO LIVRO DA MINHA VIDA

Quem sou no livro da minha vida?

Autora, protagonista, coadjuvante,

Ou apenas mera figurante?

Qual a trama que me envolve

Fujo dela, enfrento, busco novos cenários

Encontro outros núcleos importantes,

Ou sou fechada em mim mesma?

Possuo par romântico, sonhos e ideais compartilhados

Ou sou autossuficiente e basto a mim mesma?

Sou daquelas mocinhas românticas e sonhadoras

Ou a “bandida” que faz mal aos outros e a si mesma?

Tenho trilha sonora própria e melodramática

Ou sou lutadora, guerreira, corajosa, humana

Mesmo sem perder a feminilidade, a doçura?

Sou um livro aberto, claro e cristalino

Ou daqueles cheios de suspense e mistério

Onde ninguém sabe o que esperar do próximo capítulo?

Quem sou eu no livro da minha vida?

Mesmo redescobrindo a cada dia quem sou

Fundamental é não desistir nunca dessa história

Sou responsável por essa edição, sucesso ou não!

E você, que personagem é?

Alda M S Santos

Nos bancos da calçada

NOS BANCOS DA CALÇADA

Casinhas simples, receptividade gigante, janelas na divisa com a rua

Ao sabor do vento, do sol, da chuva

E dos olhares curiosos de quem passa…

Terreiros grandes que costumam dar num ribeirão

Muitas vezes com hortas, galinheiros, pomares, chiqueiros, cisternas…

Na calçada, banquinhos de todo tipo

Madeiras, troncos de árvores, tijolo, concreto, não importa

A prosa dos fins de tarde após a lida que eles possibilitam é que interessa

O tempo que virou, o filho que não apareceu, o netinho precisando benzer

As galinhas que pararam de botar, o Bingo da igreja,

A comadre que está ruim das vistas ou a teimosia do compadre

A filha que se formou, o neto que nasceu nos Estados Unidos e começou a andar

O prefeito que está envolvido em mais uma falcatrua ou corrupção

A sobrinha que foi para Belo Horizonte com o filhinho doente,

A Maria do João Neto que doou um bezerro para a rifa da festa de Nossa Senhora Aparecida…

Entre os estrepes dos pés e os estrepes da vida

Tudo é compartilhado nos bancos da calçada

E a vida se torna mais leve,

Numa boa prosa de fim de tarde olhando a rua,

Aguardando aquela visita ou telefonema que nem sempre chegam…

Alda M S Santos

Checkin

CHECKIN

Hora de voltar, fazer o checkin de vida, prosseguir

Conferir dados, documentos, bagagens a despachar

Facilitar acesso a itens importantes na bagagem de mão

Aqueles dos quais podemos precisar a qualquer momento.

Que colocaríamos em nossa bagagem de vida,

Se tudo que pudéssemos ter acesso se limitasse a uma mala de 23 kg,

E nada mais pudesse ser levado?

Deixaríamos muito para trás?

Que temos carregado de supérfluo a pesar em nossas costas?

Que temos carregado que não é nosso de verdade?

O quanto de importante temos deixado pelo caminho?

Temos feito bem nosso checkin de vida?

Alda M S Santos

Chama acesa

CHAMA ACESA

A chama interna de cada um de nós necessita ser mantida

Ela que garante nosso prazer de viver

Que nos faz levantar da cama todos os dias e seguir…

Cada qual tem um combustível próprio: família, trabalho, amigos, Deus

Às vezes, meio apagadinha, outras, labareda

Ideal que dependamos o menos possível de combustíveis alheios.

Passar a vida buscando combustível do outro,

“Furtando” combustível, oxigênio alheio,

Dependendo de diminuir ou apagar a chama dos outros

Mesmo involuntariamente, para manter a nossa acesa

Não faz uma chama bonita e duradoura!

Nossa chama deve iluminar o outro, e vice-versa, alastrar-se

Há algo muito errado se nossa chama acesa apagar a de alguém!

Que encontremos nossa luz!

Alda M S Santos

Ratos e navios

RATOS E NAVIOS

“Quando o navio afunda os ratos

São os primeiros a abandonar o barco”!

Esperteza, covardia, medo, visão de longe alcance?

A verdade é que ratos gostam de vida boa e fácil

Surgiu o perigo, ao primeiro sinal, fogem,

Lançam-se às águas do mar em busca de nova vida

Não se importando com o que deixaram para trás

Outros ratos companheiros, gatos, o navio que os alimentou…

Instinto de sobrevivência ou covardia, tanto faz!

Nos barcos dessa vida precisamos estar atentos

Há muitos ratos disfarçados de salvadores, de bombeiros

Que ao primeiro sinal que o navio irá soçobrar

Como ratos, não estendem a mão, fogem…

Alda M S Santos

Modo de fazer

MODO DE FAZER

A receita parece simples, os ingredientes são conhecidos:

Ser fiel a si mesmo, respeitar os próprios limites

Não fazer ao outro o que não gostaria que fizessem consigo

Deixar o coração comandar, acompanhado da razão

Viver intensamente com retidão e disposição

Escolher sempre os melhores caminhos

Aprender com os erros, evitando repetí-los,

Doar amor, aceitar o amor,

Ser solidário, ter fé e esperança…

Na prática o “modo de fazer” complica-se um pouco

Os ingredientes parecem diferentes,

Muito líquidos ou “perdidos”, fora de validade,

O coração se engana, a razão exagera

Os caminhos não são tão claros

O amor declarado se transforma,

Os medos e traumas surgem

As escolhas parecem difíceis…

A disposição, esperança e fé minam…

E o bolo não cresce, encrua!

Isso é ser humano!

Testar receitas, criar a própria receita!

Isso é viver!

Cada receita vira um novo prato dependendo do gourmet…

Ou como uma planta que adormece, se fortalece

E floresce em apenas algumas épocas,

Assim, vamos seguindo

Acreditando que Alguém sempre olha por nós,

E faz nosso bolo crescer…

Alda M S Santos

Embaladas a vácuo

EMBALADAS A VÁCUO

É sabido que as pessoas são diferentes

Consequentemente, lidam de modo diferente com ganhos e perdas

Mas queria entender como algumas pessoas

Conseguem parecer embaladas a vácuo

Parecem isoladas do mundo externo,

Quase nada as atinge,

Superam, esquecem qualquer coisa facilmente

Mesma postura, mesmo perfil

Passe uma brisa ou um furacão

Amor ou desamor, alegria ou decepção

Sucesso ou fracasso, vida ou morte

Nada muda para elas!

Como máquinas, acolhem ou descartam “dados” sem danos

E seguem…

Não é inveja ou despeito,

Nem que eu queira ser exatamente assim!

É para saber como “pegar” ao menos um pouquinho disso!

Alda M S Santos

Por onde tens andado?

POR ONDE TENS ANDADO?

Por onde tens andado?

As estradas nem sempre são planas ou belas…

Que caminhos tens trilhado?

As trilhas, muitas vezes, têm bifurcações confusas…

O que tens plantado?

As sementes nem sempre são boas ou as terras férteis…

O que tens colhido?

A colheita nem sempre é farta ou digna…

Mas, mais vale com quem se anda

Com quem se planta e se cuida

E com quem se partilha a colheita…

Os pés podem estar sujos dos caminhos incertos

As mãos machucadas pela colheita mirrada

Mas o coração precisa estar limpo e puro

Recheado de bondade, amor e compaixão

A alma repleta de luz a iluminar nossos caminhos

E, se não iluminar, ao menos não criar sombras nos caminhos dos outros

São coração e alma que mostram os caminhos que trilhamos

Mesmo que nem sempre haja flores ou belas paisagens,

Podemos vislumbrar um jardim, um oásis…

Por onde tens andado?

Alda M S Santos

Aprendendo a viver

APRENDENDO A VIVER

Quantas vezes é preciso cair para aprender a ficar de pé?

Quantas vezes precisamos passar pelo escuro para valorizar a luz?

Quantas vezes passaremos pela mesma pedra no caminho até aprender a dela desviar?

Quantas vezes cometeremos o mesmo erro até evitá-lo?

O cachorro chega devagar o focinho num canto onde foi sapecado por lagarta e se afasta veloz

Um bebê olha ressabiado para a tomada em que levou um choque

Quantas vezes precisamos passar por algo para entender?

Deus disse que deve-se perdoar 70 vezes 7

Supõe-se que se erre o mesmo tanto

Mas não precisa ser necessariamente o mesmo erro!

Isso se chama autoproteção, maturidade, experiência!

Nem é preciso muita racionalidade ou inteligência, apenas instinto, medo!

E assim a vida segue…

Deus tirando as pedras, a gente sendo atraído por elas

Entre erros, acertos, cuidado e proteção

Da gente mesmo, dos outros…

Vamos aprendendo a viver!

Alda M S Santos

Free day

FREE DAY

E se pudéssemos reviver um dia das nossas vidas

Exatamente como foi. Apenas um. Saberíamos escolher?

E se pudéssemos, ao contrário, apagar totalmente

Um dia de nossas vidas. Seria difícil?

E se pudéssemos rever ou reencontrar alguém

Que partiu de nossas vidas, por morte ou descuido

Bater um longo papo, deixar as lágrimas rolarem

Ou simplesmente abraçar longamente?

Entre quantas pessoas teríamos que escolher?

E se pudéssemos ter um dia livre, um free day

Em que fosse possível fazer tudo que desse vontade

Sem que ninguém fosse magoado, culpado ou punido

O que faríamos? Um dia seria o suficiente?

E se pudéssemos?

Nosso mundo seria um paraíso ou uma barbárie?

Nossas vidas são feitas de momentos que se vão…

Alda M S Santos

Ai que vontade louca!

AI QUE VONTADE LOUCA!

Ai que vontade louca de não sei bem o quê!

Quem sabe entrar num barco qualquer,

Lançar uma mochila dentro

Sentar e remar, remar, remar…

Bem devagar, deixando para trás o burburinho

Até ter somente água por todos os lados,

Parar, recolher remos, tirar a roupa, deitar e apreciar:

O céu de azul intenso, o sol queimando a pele

As nuvens apostando corrida entre si

Insetos barulhentos que não chegam a incomodar

Acompanhar o voo das gaivotas,

Ver os peixes nadando ao redor,

Avaliando os intrusos em seu espaço

Ouvir todos os barulhos do silêncio,

Conectar o silêncio barulhento dentro de mim

Encantar-me com toda a beleza do “nada”

Sentir o toque profundo, delicado, gostoso,

 Das quentes e úmidas mãos da natureza

E me extasiar…

Alda M S Santos

Foto Andreza Cristina Silva

Nas voltas que o mundo dá

NAS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ

Dizem que quando começamos a reviver certas coisas

A reencontrar pessoas que ficaram para trás

A relembrar tanta coisa do passado

A resgatar sentimentos e emoções

A ser menos cerimonioso, mais piedoso, menos juízes,

Nossas vidas já deram uma volta completa

E estamos recomeçando, dando a segunda volta, obtendo uma revanche.

Bom seria se pudéssemos ir passando a limpo

Um novo caderno, reescrevendo, desenhando,

Melhorando o que não ficou bonito, borrado pelas lágrimas ou erros,

Dando cor ao que foi maravilhoso, desbotando o que fez mal,

Resgatando o que se perdeu e fez tanta falta!

Nas voltas da vida eu teria muito a resgatar,

A querer reviver, colorir,

Quase nada a apagar…

Bom sinal?

Alda M S Santos

Im ou explosão

IM OU EXPLOSÃO?

Implosão, explosão, ambas destruidoras

Derrubam, desmancham, apagam, zeram

Em se tratando de pessoas

Qual a que causa menos mal?

Explodir, quase sempre com os outros

E tudo que nos incomoda, machucar

Queimar tudo!

Implodir, para dentro de nós mesmos,

Estourar para o nosso interior,

Arrefecer por falta de alimento, de oxigênio, ferir-se

Como aqueles espirros contidos…

Qual o menos danoso?

Im ou explodir?

Alda M S Santos

Origens: Fazemos parte

ORIGENS: FAZEMOS PARTE

Várias coisas nos remetem às nossas origens

Um lugar com seus cheiros e cores, por mais que ele mude

Uma música com sua poesia encantadora

Um livro com sua história real ou ficcional

Um sorriso que nos recepciona…

Mas nada melhor que aquele abraço apertado e beijo estalado,

Para nos emocionar e dizer:

Você faz parte desse lugar,

Dentro e fora…

Alda M S Santos

Tombos

TOMBOS
Pode ser muito bom estar no alto,
Mas tudo que sobe, desce.
E quem te ajudou a subir,
Pode te ajudar também numa descida,
Leve e tranquila, ou te derrubar de uma só vez.
O contrário também é válido,
Quem, aparentemente, te mantinha embaixo,
Pode ajudar a te elevar.
Ora estamos em cima, ora embaixo.
Todos nós! Uns apenas disfarçam melhor.
Equilíbrio, sabedoria, solidariedade e harmonia
São fundamentais na gangorra da vida!
Alda M S Santos

Caos

CAOS
Memórias passadas, presentes, futuras
Misturadas, desorganizadas…
Atropelando-se!
Alegrias, vitórias, tristezas, dores, decepções, desejos.
Todas no mesmo consciente,
Tantas vezes inconsciente.
Vontades, sonhos, expectativas
Realizadas, apagadas, em modo de espera…
Todas atrás da mesma comporta
Com um vertedouro, aparentemente, eficaz,
Calculadamente construída.
Mas que parece querer romper-se a qualquer momento.
Caos ou organização?
Alda M S Santos

Figurinha repetida

FIGURINHA REPETIDA

 Valorizemos o que temos de diferente em nós

Em nossas vidas, em nossas amizades.

E pernas pra que te quero…

Não se completa um álbum com figurinha repetida.

Alda M S Santos

Estações

ESTAÇÕES 

Nascemos Primavera, flores, beleza, encanto, projetos, sonhos, árvores a plantar,

Crescemos Verão, sol, calor, energia, diversão, frutos a colher, realizações,

Amadurecemos Outono, perdas, danos, reconstrução, seletividade, recomeços,

Envelhecemos Inverno, sabedoria, tranquilidade, paz, serenidade, resignação, calmaria…

Não há como escapar das estações de nossas vidas.

 É preciso aproveitar! 

Nada impede que possamos curtir os veranicos em pleno outono ou inverno. 

Nossa estação “interna” apenas nossa alma pode determinar…

Alda M S Santos

Próximo do nocaute

PRÓXIMO DO NOCAUTE

Ver, mesmo de olhos cerrados,

Sentir, mesmo com o coração fechado,

Dizer, mesmo sem palavras,

Ouvir, mesmo os gritos ou sussurros dos silêncios, 

Acreditar, mesmo que tudo pareça ruir,

Abraçar, ainda que os braços pesem,

Sorrir, mesmo entre lágrimas, 

Lutar, mesmo próximo do nocaute,

Beijar, mesmo com lábios ressequidos pela distância, 

Prosseguir, mesmo com a sensação de andar para trás,

Viver, mesmo que a vida pareça pertencer a todos, menos a nós mesmos. 

Alda M S Santos

Passagem comprada

PASSAGEM COMPRADA

Viemos para esse mundo com a passagem de volta comprada.

Falta apenas o carimbo com a data de retorno.

E quando acontecerá nós não sabemos.

Podemos fazer inúmeras viagens por aqui antes dela, 

E acompanhados!

Muitas são as possibilidades!

Concentrar-nos na derradeira viagem impede que aproveitemos o passeio.

Ela chegará, quer a gente queira, quer não. 

E nela iremos sozinhos!

Podemos escolher aproveitar bem todas elas.

Alguma delas pode ser nosso retorno, de avião, de trem, a pé…

 E iremos felizes de volta para casa! 

Alda M S Santos 

Passageira

PASSAGEIRA

Nossa vida pode muitas vezes ser

Tal qual fogo de palha, tempestade de areia,

Chuva de verão, a luz de um raio,

O barulho de um trovão, as ondas do mar,

Um trem bala ou um avião a jato.

São rápidos, passageiros,

Mas sempre deixam seus rastros.

Gravam suas marcas indeléveis,

Nos outros, em nós mesmos.

Alda M S Santos

Pouso

POUSO

Pista de pouso e decolagem
É área de trânsito intenso,

Ora para um lado, ora para o outro.

Observe se os ventos são favoráveis,

E pouse ou decole com segurança!

Tão importante quanto saber pousar

É também saber a hora de decolar!

Parado no mesmo lugar é arriscado

E não leva a lugar algum.

Alda M S Santos

Piloto automático

PILOTO AUTOMÁTICO
Aqueles dias em que a vontade é de apenas sentar e esperar
Deixar-nos conduzir pelos momentos, pelo vento, sem qualquer interferência,
Seja manual ou emocional…
Programar o piloto automático:
Local de saída e, talvez, de destino e deixar tudo por conta dele,
Como num vídeo game que joga sozinho quando não há jogadores.
Como num avião, equipado com instrumentos que permitem a condução do aparelho,
Sem a intervenção da tripulação,
Regulando desvios de rota e de altitude, assegurando voo e pouso tranquilos.
Não precisar se preocupar com nada,
Nem mesmo obstáculos diversos ou condição climática.
Simplesmente, confiar,
E seguir…
Alda M S Santos
imagem google fotos

Memórias

MEMÓRIAS
“Fomos Garotas de Copacabana. Viu como eu era bonita? Igual você!”
Ela ajeitava seus lençóis o tempo todo. O espaço que era só seu.
Foto acima da cama, com nome, data de nascimento: 20/09/1930.
Um pequeno armário com o crucifixo pendurado, poucos pertences e fotos, muitas fotos.
Todas espalhadas na cama. Mostrava e contava sua história.
“Minha irmã morreu no Rio. Não tenho mais pra onde ir.”
Toda uma vida, memórias registradas ali em preto e branco, em cores.
Uma Bíblia, um livro do Pe Marcelo, todos inchados de fotos, cartões de aniversário, cartas, envelopes…
“Para marcar onde li e pra Jesus proteger. Jesus protege, sabia? Está com minha irmã! ”
Sim, e conosco também!- respondi.
“O meu coração é só de Jesus. A minha alegria é a Santa Cruz.”
Cantava e me pedia para acompanhar. A companheira ranzinza do quarto reclamou.
“Vamos parar! Ela dá chinelada na gente”.
Fui lentamente até ela. Expulsou-me. Insisti. Devagar. Deixei, voltei.
No final, coloquei a faixa de Miss Guerreira, abracei a ranzinza, beijei suas bochechas, sorriu, ganhei um “obrigada, vai com Deus”!
Deixei-as com suas histórias em papel, poucos objetos e memórias, muitas se apagando.
E fui embora com as minhas.
Farão parte de minha história a partir de hoje.
Alda M S Santos

Dores na simplicidade e no luxo

 DORES NA SIMPLICIDADE E NO LUXO

Numa semana, num lar de idosos de classe baixa, na outra, num núcleo luxuoso para a maturidade.

Ambos com idosos colocados ali para serem cuidados, tratados, terem sua dignidade preservada.

Espaços limpos, pequenos e simples de um, destoam dos espaços amplos, muito bem decorados e bem aproveitados de outro.

Idosos em seus melhores trajes para receberem as visitas.

Um banho e roupas simples e ausência de acessórios de um, roupas e calçados finos, colares, brincos, maquiagem, chapéus, penteados, cabelos bem pintados e unhas bem feitas do outro.

No primeiro, poucas atividades além da rotina diária: refeições, banho, TV, pátio, sono, medicamentos.

No segundo, agenda cheia: leituras, músicas, visitas agendadas, apresentações, artes, convidados de todo tipo.

Mulheres interagem mais. Os homens, ou são galanteadores ou ranzinzas, muito calados, ou quase incapazes.

O que há de semelhante além de serem homens e mulheres idosos entre 70 e 100 anos de idade?

São como crianças! Olhos sem muita vivacidade, mas com brilho úmido, carentes de afeto. Todos eles!

Abraçam-nos e agradecem a nossa atenção e dedicação como algo precioso.

Querem ser tocados, ouvidos, compreendidos. Precisam do nosso tempo.

Cantamos músicas da sua época (com nossas vozes maravilhosas), deixamos a vergonha em casa, dançamos, tentamos ignorar os mais rabugentos, trazê-los para nós. Quase sempre conseguimos.

Em ambos, poucas visitas recebem. Alguns, ninguém os procura.

O mais triste é que, mesmo aqueles cercados de gente, de atividades, de “amigos”, de tarefas, falta-lhes algo.

Recebem amor, mas querem aquele amor especial, aquele amor específico, aquele que grudou na alma e dói a ausência.

Como me disse uma idosa sabiamente, eles têm muitas presenças, mas uma ou duas ausências impedem definitivamente a felicidade.
Concordo com uma senhora trovadora, residente do lar, autora de livros de outrora:

“Saudade, com tanto lugar lá fora, porque você insiste em doer aqui dentro?”

Divirto-os, me divirto e agradeço a cada um deles a oportunidade de me tornar uma pessoa melhor.

Alda M S Santos

Mantenha distância para sua segurança 

MANTENHA DISTÂNCIA PARA SUA SEGURANÇA

Sabe aqueles dias em que estamos dando choque em nós mesmos?

Pois é! Aqueles nos quais deveríamos carregar pendurada no pescoço e nas costas uma placa com a frase de para-choque de caminhão:

“Mantenha distância para sua segurança”.

Estamos impacientes, tristes, inseguros, insatisfeitos, decepcionados, com raiva até!

Ideal que nem saíssemos do quarto para evitar maiores danos ao “patrimônio” próprio e alheio! Risco de curto-circuito! Pane total.

Mas a vida chama! Trabalho, estudo, família, amigos, afazeres diversos.

Felizmente!

Lá fora, mesmo emburrados, escondidos atrás de uns óculos escuros, tentamos acordar.

Devagarzinho, vamos começando a enxergar as coisas belas e boas, que são muitas, e retribuir.

Fazendo o levantamento dos males que nos atingem, deixando todos eles, um a um, pelo caminho.

Com calma, com alma, respeitando nossos próprios limites, dores e lágrimas.

Aceitando os sorrisos, os carinhos, o amor que se apresenta.

Como “diz” outro caminhão:

“Nas curvas da vida, entre devagar…”

Se não quisermos atropelar ou ser atropelados.

Que aproveitemos a paisagem e as companhias.

Boa viagem!

Alda M S Santos

Descaminhos

DESCAMINHOS

E quando chegamos naquela parte do caminho

Em que já atravessamos partes leves, agradáveis, floridas

Também as difíceis, duras, pedregosas,

Já fomos longe demais e percebemos que não é mais possível prosseguir?

Descobrimos que pra frente pode haver raios e trovões

Tempestades, tsunamis, maremotos intensos?

É possível descaminhar?

Dar marcha à ré, retornar pelo mesmo caminho,

Voltar ao ponto de largada, retomar?

Como se ao voltar fôssemos desfazendo tudo, desmanchando detalhes

Voltando a fita em câmera lenta

Sorrindo e chorando tudo outra vez

Apagando as pegadas deixadas na areia…

Ou o melhor a fazer é seguir em frente

Por outro caminho, gravando por cima?

Talvez possamos usar nova fita, fazer nova gravação

E deixar esse arquivo guardado num cantinho

Para ser utilizado em momentos de nostalgia e saudade

Ou de novos aprendizados…

De qualquer maneira, perder a “direção” nunca é bom.

É preciso sentar-se à beira do caminho, refletir, retomar as forças e a serenidade.

De quem tanto caminhou, espera-se que logo pegará sua bússola e, cedo ou tarde, vislumbrará uma nova trilha!

Alda M S Santos

Num lar

NUM LAR

A vida inteira num lar

Com pais, irmãos, avós, primos

Companheiros, filhos, sobrinhos…

Ou uma vida dedicada à família dos outros, 

Que cresceram, se foram, não precisam mais deles

De repente, não há mais lar, ou familiares, ou amigos…

A solidão é a fiel companheira

E surge um novo lar…

Cuidados, novas pessoas, talvez novas amizades…

Algumas atividades, visitas esporádicas…

Pra que ainda estou vivendo?- alguns se perguntam.

Tenho onde morar, estou aqui porque quero!-dizem outros.

Meu sobrinho quer vir me ver, a mulher dele que não deixa! – afirma outra.

Gosto de vocês aqui, alegram nosso dia!- diz outra sorridente a cantar.

E assim a vida segue…

85, 99, 102 anos de idade.

O que querem? O que esperam? 

Algo que o dinheiro não compra:

Atenção, um toque, um carinho, ouvidos, ombros… 

Só isso! 

Que possamos cuidar de nossos idosos!

Que tenhamos quem cuide de nós quando chegar nossa vez.

A maior pobreza é a falta de carinho. 

Alda M S Santos 

Um passo de dança 

UM PASSO DE DANÇA

Sentir-se flutuar, fazer parte do ar

Estar dentro, mas livre

Estar fora, mas presa na magia

Em cada acorde, um movimento em sincronia

Em cada passo, uma expressão, um dizer com o corpo

A comunhão é do corpo com a música

A harmonia é da alma com a melodia

Afinam-se enquanto se completam

Até nos erros sintonizam-se.

Precisam-se!

Ela e a melodia tornam-se uma só

Num simples passo de dança…

Alda M S Santos

Loucuras?

LOUCURAS? 

Quero ser um caracol, fechar-me dentro de mim mesma

Sair apenas quando a luz de fora entrar

Ou a de dentro conseguir iluminar tudo lá fora

Quero brincar de esconde-esconde

Encontrar um esconderijo bem original

E lá ficar até ser encontrada por alguém com a mesma ideia.

Quero inspirar fundo, bem fundo, sufocar-me em coisas boas

E expirar, jogando fora tudo que faz mal 

Quero correr, correr muito, sem direção, até esgotar todas as forças e não sentir mais nada.

Quero ser uma bolha de sabão, subir, subir nas árvores, nas nuvens, encantar e desaparecer. 

Quero mergulhar, sem máscaras ou snookers, sentir tudo, descobrir tudo

Afogar-me, se preciso for, e renascer.

Loucuras? 

Às vezes são necessárias para se manter a sanidade.

Alda M S Santos

O que fazemos nessa nau? 

O QUE FAZEMOS NESSA NAU? 

Há dias, períodos e fases que queremos jogar tudo para cima.

Chutar o balde, rodar a baiana, subir nas tamancas. 

Ou, diferentemente disso, enfiar debaixo das cobertas, atrás de uns óculos escuros num canto qualquer, sermos invisíveis.

De verdade: quantas vezes nos perguntamos a que viemos, o que estamos fazendo nessa nau? 

Milagrosamente, algo sempre nos tira de lá. Desse buraco escuro do nosso existir.

É preciso sempre acreditar que é apenas fase. Que vai passar. Por mais difícil que pareça.

Muita gente desistindo na primeira pedra ou buraco do caminho.

Não sabem que muitos caminhos, aparentemente errados, difíceis ou sombrios foram dar em veredas maravilhosas!

Tenhamos fé! Em nós mesmos, Naquele que nos enviou, nos acompanhantes que nos deu. 

Alda M S Santos

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