COMO CONFIAR?

Como confiar num mundo em que o Merthiolate não arde
Nas delícias da Coca-cola que desentopem sanitários
Nas sandálias Havaianas que arrebentam as tiras tão facilmente
No leite que não vira coalhada depois de três dias fora da geladeira
No Bombril que não tem mais mil e uma utilidades?

Como confiar?

Como confiar numa justiça com tantos pesos e medidas
Na palavra dada que de nada vale se não for documentada
Nos amores que não duram até que a morte os separe
Nas brigas entre rosas e cravos em que ambos não saiam despedaçados
Num “te amo para sempre” apenas se você me amar?

Como confiar?

Como confiar nas compatibilidades de gêneros, ao invés das incompatibilidades de gênios
Que “primeiro as damas” é coisa de feminismo ou machismo
Que ter um quintal sem muro é apenas utopia de Roberto Carlos?

Como confiar?

Nas crianças que dançam  “quadradinho” até o chão e não mais “Atiram o pau no gato”
Nos olhares dos pais que não são entendidos como alertas de perigo
Nos adultos isolados da infância e da velhice como seres inatingíveis?

Como confiar?

Como confiar na fé que se professa e não se vive
No ouro que não “compra” terreno no céu
Nos “homens de Deus” que têm doenças mundanas
Na felicidade encontrada apenas nas conquistas profanas?

Como confiar?

Nas amizades que, monetariamente, calculam perdas e ganhos
Na saudade que não dói, no machucado que não sangra
No abraço que não acalma, na família que não se enlaça
No beijinho que não cura qualquer mal?

Como confiar num mundo tão confuso, hipócrita e perdido?

Alda M S Santos