DÓI
Dói o tempo sofrido que passou
Dói também a marca que deixou
Dói o silêncio que grita na alma
Dói a angústia de uma falaciosa calma
Dói um presente de dúvidas recheado
Dói um futuro de medo imaginado
Dói não ver a esperança combatida
Dói ver a solidariedade banida
Há dor, há prazer nesse viver:
Prazer em nunca desistir, insistir
Prazer em regar os jardins, florir
Prazer em dar as mãos, sorrir
Prazer em acreditar num porvir… e seguir
Entre dores e prazeres, a vida é soberana!
Alda M S Santos
MUITO A AGRADECER
Minha dor é só minha, é pessoal
Meu modo de lidar com ela é individual
Não posso fugir delas, posso enfrentá-las
Do meu jeitinho, chorando baixinho
Debaixo do cobertor macio e quentinho
Ou lá fora em busca de energia e luz
Ou do voo e canto de um passarinho
No meu tempo, à mercê dos contratempos
Vou me fortalecendo e aprendendo
Posso escolher quem eu quero comigo
Onde estarão a compreensão e abrigo
Na hora certa, ainda que pareça incerta
Encontrarei a natureza brotando em mim
E ela é forte, se renova, se refaz
Tal qual fênix ressurgindo das cinzas…
Me ajuda quem me ouve e ampara
E não me julga, apressa, exige ou repara
Saber que tem alguém ali nos longos caminhos
É a certeza que a dor que espeta hoje
Pode ser a flor perfumada ao amanhecer
Certamente nesse vai e vem da vida
Terei muito a aprender e agradecer…
Alda M S Santos
DÓI
Dói não acreditar quase em nada
Também dói investir em canoa furada
Dói se espetar no espinho da rosa, machuca
Dói mais ainda não ter uma roseira, vida maluca
Dói sofrer por um amor não correspondido
Mais doloroso é não amar, é tempo perdido
Dói ver o mundo com tanta desumanidade
E que ainda não aprendemos a viver com dignidade
Dói não realizar os sonhos, os desejos
Dói mais ainda já não sonhar com abraços e beijos
Dói ver por aqui tanta indiferença e desigualdade
E por mais que se faça, não amenizar essa realidade
Viver é por vezes pesado e doloroso
Mas não desistir faz o mundo mais prazeroso
Amar, amar, se doar é o único caminho
Para doer menos, não se sentir inútil e sozinho
Alda M S Santos
SEQUELAS
Viver é uma brincadeira que deixa sequelas
As cicatrizes nos joelhos
Dos tombos nos passeios de bicicleta
Os vergões, deformações e paralisias
Dos descaminhos por abismos emocionais
Os hematomas e traumatismos
Dos mergulhos em mares escuros e em amores frustrantes
As fraturas na alma
Das quedas do alto das expectativas
Os traumas e medos
Deixados pelos monstros que alimentamos e nos assustam
As lombalgias e hérnias
Do peso desnecessário que insistimos em carregar
As decepções e mágoas
Causadas pelos ídolos que “criamos”
Tudo isso deixa sequelas para a vida toda
Nem sempre agradáveis ou prazerosas
Muitas vezes, sequer toleráveis
Mas o viver sempre vale a pena
Sequelas nos lembram que vencemos
Que sobrevivemos
A cada marca, uma história
Todas as sequelas são lesões que ficaram
Depois que a cura se estabeleceu
Sequelas? Tenho algumas!
E a vida segue certeira como tem que ser
Sempre em frente!
Alda M S Santos
MI-MI-MI
Vi a definição outro dia: o que é mi-mi-mi?
É aquela dor que não dói em mim
Achei tão perfeito, não se tem a dimensão
Aquilo que dói no outro carece compaixão
Posso tentar imaginar, me colocar no lugar
Se minha alma for terna, souber avaliar
Mas a exata complexidade do que ele sente
Só cabe a ele dimensionar, sejamos prudentes
Se é dor no corpo, na alma, no coração
Se é algo que fere com força a emoção
Se machuca, remexe feridas, martiriza
Não cabe ser algoz quando a ele traumatiza
Não é mi-mi-mi dar voz a sua dor
Quem faz pouco caso já perdeu o valor
Cabe a cada um de nós total respeito
O que é do outro, é do outro, vamos agir direito!
Alda M S Santos
DÓI
Dói joelho esfolado, coração magoado
Dói ser decepcionado ou por alguém enganado
Dói um sapato apertado, o bolso esvaziado
Dói envelhecer sem alguém do bem ao lado
Dói bater o pé na quina, imaginar-se em ruína
Dói não saber em quem confiar, não poder desabafar
Dói perder o bonde, o sono, não ser seu próprio dono
Dói falsa amizade, sem haver reciprocidade
Dói ter a cama vazia ou viver de vã filosofia
Dói ter a alma estagnada, a saúde roubada
Dói ver a natureza destruída, a fé subtraída
Dói não ter a quem responsabilizar por esse penar
Dói ver o tempo passar sem poder aproveitar
Dói se sentir perdido ou sem lugar
Dói sentir muito frio ou muito calor
Dói morar num coração de favor
Dói não preservar a própria essência
Dói ter um peso qualquer na consciência
Dói não se sentir amado ou desejado
Dói querer o impossível ao seu lado
Mas toda dor tem um processo de cura
Um analgésico, um sorriso, Deus, afastam a amargura
Um rio, um céu, um Sol, uma Lua, um cobertor
Ter alguém de verdade que seja nosso amor…
Alda M S Santos
MUNDO FLORIDO
Dizem que vejo o mundo florido
Dos sonhos, sem qualquer bandido
Não sou tão ingênua, mas prefiro enxergar as flores
Gosto do mundo mais colorido, sem tantas dores
Desbravar caminhos, construir pontes
Encontrar belezas aos montes
Quem sabe um rio de águas cristalinas
Ou muitas minas, ricas fontes
Bandidos não me assustam assim
Assusta-me o não viver, da vida me esconder
Devo ser bruxa, feiticeira ou algo assim
Quero fazer da vida um perfumado jardim
Para os lados, para cima, verde intenso
Quero naquela árvore subir, num galho deitar
E ali, na natureza, encontrar a paz, o meu lugar
Alda M S Santos
QUANDO DÓI
Quando dói a cabeça, o ouvido
A coluna, o estômago, o joelho
Tomamos um analgésico qualquer e resolve
Mas quando a dor vem de um lugar
Que a gente não identifica qual é
Que fazer?
Investigar os sintomas: angústia, tristeza, desânimo
Raiva, passividade, solidão, medo?
Seja ele qual for a alma precisa de cuidado
Precisa de ter alguém especial ao lado
Em doses homeopáticas ou cavalares
Para a dor do corpo vamos à farmácia
Para a dor do coração recorremos ao abraço de um irmão …
Quer um abraço?
Alda M S Santos
O TEMPO CURA?
O tempo não cura nada
Ele passa, passa, e algumas coisas ficam mais leves
Ele, sabiamente, nos permite cobrir as feridas
Com uma grossa cicatriz de proteção
Perdem o tom vermelho brilhante
Tornam-se mais rosadas até quase parecerem sumir
E ela fica ali para ser vista e relembrada
Algumas cicatrizes todos podem ver
Outras, são muito internas
E só quem as possui tem acesso
Ficam escondidas atrás de sorrisos
De uma alma que se doa, de mãos que trabalham
O tempo não cura!
O tempo nos ensina a lidar com o que não tem cura
O tempo nos permite olhar para as cicatrizes
E retirar dali aprendizado em meio ao que já foi dor aguda
O tempo pode até nos ajudar
A fazer de uma cicatriz algo novo, útil e belo
Uma obra de arte que merece ser vista por todos
Cada qual lida do seu jeito
Com as feridas, o tempo e suas cicatrizes
Tornando-os aliados ou adversários…
Alda M S Santos
ANJOS QUE CHORAM
Absorvendo nossas quedas e dores
Anjos se machucam, anjos choram
Choram quando veem que insistimos no caminho errado
Choram quando nos ferimos
Choram quando ferimos os outros
Choram quando não conseguem nos ajudar
Choram quando choramos…
E o mundo chora com eles
Aqueles que estão por aí
Insistentes, persistentes, corajosos
Que se machucam, se ferem, se doem, se doam
Por aqueles que protegem nas dores
Que acolhem no sofrimento, na fragilidade
Se olharmos bem, se apurarmos nossos ouvidos
Seremos capazes de ouvir o choro dos anjos
De ver seu sofrimento atrás de sorrisos
Suas lágrimas silenciosas nas batalhas por nós
Por lutar por seres humanos melhores
Por um mundo melhor,
Anjos choram…
Quem são nossos anjos?
Alda M S Santos
ESQUECER OU LEMBRAR?
Você já se esqueceu?
A vida continuou, não parou
Ao menos não parou para todo mundo
Mas para aqueles que sofreram a perda de alguém
Dor, angústia, lágrimas, revolta, tristeza, medos
Às vezes precisamos esquecer
Para seguir vivendo…
Noutras, exatamente ao contrário,
Precisamos lembrar de quem partiu e vive em nós
Para não nos sentir morrendo…
Uns precisam de 30 dias, meses ou anos para esquecer
Outros se lembrarão e serão lembrados
Mesmo que passe uma vida inteira
Algo sempre estará rompido em quem perdeu alguém
Que representou no mínimo 50% de seu viver
Esquecer ou se lembrar continuamente
São modos similares de ativar novamente a válvula da vida…
Alda M S Santos
A IMPORTÂNCIA QUE TE DOU
Dou importância demais a você
Teria dito novamente a psicóloga
Por isso não sai dos meus sonhos
Dos meus pesadelos, para ser mais exata
Entra sem pedir licença, invade
Amedronta, assusta, aterroriza
Sou eu que preciso definir qual espaço você ocupará na minha vida
Muito, pouco ou nenhum!
O que não se resolveu na consciência
Tenta-se resolver na inconsciência
Você me assaltou, roubou, assustou, machucou, feriu
Causou medos e traumas, mas vencemos, ambos
Estou viva e você ficou sem uma dívida a mais a pagar
Então, fiquemos assim: não precisa mais me assustar
Você não tem participação especial na minha história
Ou, se teve, pela realidade dolorida da situação, passou
Não te desejo mal, apenas que encontre seu caminho
E que não precise mais assaltar ninguém…
E que Deus nos proteja a todos!
Alda M S Santos
QUANDO EU CRESCER
– Por que você está chorando?
– Porque está doendo!
– Se chorar para de doer?
A garotinha parou um pouco o choro, pensou e disse:
-Não! Mas se não chorar dói mais…
E voltou a chorar
E ele a abraçou…
Assim, duas crianças de idades diferentes debatiam depois do tombo.
E, na sabedoria infantil, esclareciam as dores e curas.
Chorar pode não melhorar a dor ou curar o mal no momento
Mas não sobrecarrega a emoção de lágrimas represadas
E deixa a ferida livre para cicatrização
No tempo certo, sem maiores riscos de infecções…
Crescemos e desaprendemos de como curar um joelho ralado
E ainda temos a pretensão de curar uma emoção abalada
Engolindo o choro e fingindo que ela não existe…
Quando crescer quero ser criança
Sem medo de subir em árvores, balançar nas gangorras
E sorrir ou chorar quando for preciso…
Alda M S Santos
SUPERAMOS?
É preciso superar e seguir em frente, todos dizem
Mas quando se pode dizer que superamos?
Quando o problema foi eliminado, deixou de existir
Ou quando não o deixamos mais nos atingir?
Quando a ferida foi da alma apagada
Ou quando a lembrança já vem sem doer, está liberada?
Quando nominamos todos os responsáveis pelo bem e pelo mal
Ou quando já não se culpa mais ninguém pelo vendaval?
Quando as ausências já não são tão grandes, foram preenchidas
Ou quando optamos por deixá-las ter seu próprio espaço, acolhidas?
Quando podemos dizer que superamos?
Será que é quando se desiste de esquecer o que passou, bom ou ruim
E decide carregar ambos na bagagem; o ruim como aprendizado e o bom como saudades?
Será que é quando perdoa-se falhas cometidas por quem quer que seja
E aceita-se o porvir como presente?
Ainda que o brilho no olhar nem sempre venha dos sorrisos,
Mas das lágrimas saudosas que possam irrigar as lembranças e o viver?
Estarmos vivos quer dizer que superamos, que fomos mais fortes que tudo?
Sempre penso nisso ao fixar no olhar de todos eles…
Superaram? Superamos?
Alda M S Santos
#carinhologos
INSANAS PRODUÇÕES
Sofrer é um modo louco, insano de viver
Foge ao controle de qualquer ser humano
Cada qual lida como consegue, como suporta
Compulsivamente, muitas vezes, amargamente, noutras
Fechando-se em si mesmos, usando alucinógenos variados
Exigindo muito de si, fisicamente, em atividades esportivas
Hibernando, mergulhando no mais escuro e profundo do ser
Criando, desenhando, pintando, compondo
Plantando ideias de amor, de fé, de compaixão
Sofrimento insano gerando obras de artes
Plásticas, da literatura, da música…
O quanto de lindo deixado para a posteridade não é fruto de sofrimento produtivo
Como ostra produzindo lindas pérolas
Como lagartas em casulo transformando-se em borboletas leves e coloridas?
Não temos como fugir ao sofrimento
Inclusive ao sofrimento de quem amamos, que dói muito também em nós
Mas podemos usá-lo como combustível, inspiração, força
Escolher o que queremos fazer com ele:
Insanas e lindas produções artísticas
Ou loucas produções bélicas, destruições próprias e alheias…
Na verdade, fingir que o sofrimento não existe
É que é o modo mais insano, doloroso e improdutivo de sofrer…
Alda M S Santos
NA PRÓPRIA PELE
Não dá para dimensionar o que se passa com o outro
Se sensíveis formos, apenas podemos especular, ter uma ideia
Mas, saber mesmo, só sentindo na própria pele
Só chorando as mesmas lágrimas
Só pisando e se cortando nos mesmos cacos de vidro
Só queimando sob o mesmo sol ou frio
Só desanimando na mesma queda ou escorando nas mesmas porteiras entreabertas da esperança
Só ardendo o peito com as mesmas angústias
Só aguentando as mesmas faltas, lidando com as mesmas falhas
Só sofrendo as mesmas perdas
Só estando sob o jugo das mesmas ameaças
Só tendo suportado o peso doloroso da mesma arma
Só sufocando pelos mesmos medos ou aflições…
Só assim sabemos, só assim não permitimos aos outros o mesmo mal
Só assim protegemos a quem amamos
Só assim nos humanizamos mais e mais…
Alda M S Santos
A DOR MAIS DOÍDA
A dor mais doída é certamente a que sentimos no momento
Podemos até com certa sensibilidade imaginar a dor do outro
Mas, se nunca a sentimos, não dá para mensurar com precisão
Porém, penso ser unanimidade:
A dor mais doída é aquela que remédio não cura
Uma ida à farmácia e uma cesta de medicamentos não amenizam
Para as dores do corpo há remédio: agudas ou crônicas
Mas para as dores da emoção, da alma, do coração
Não há ida à drogaria que cure!
Aquela mágoa com o outro que aperta o coração
Aquela decepção que inunda olhos e alma
Aquela culpa ou frustração que minam a autoconfiança
A saudade daqueles que se foram sem volta
As dores mais doídas dentro da gente ninguém mensura
As dores mais doídas são as da tristeza e mágoa
Escurecem os olhos, apagam o sorriso, afastam-nos de nós mesmos
A ida à farmácia deve ser substituída por um passeio longo dentro de nós, todos os recantos…
E acreditar que encontraremos um caminho claro e bonito
E seguir…
“A tristeza é como um rio
Se estancada, ela aprofunda.(Pe Fábio de Melo)
Alda M S Santos
DORES
Ponho-me a observar uma borboleta que borboleteia feliz no jardim
Os pássaros que cantam em total diversão e voam dos galhos das árvores para o comedouro
Cachorros cochilando na varanda, ora correm, ora saltam, balançando o rabo, alegres e fiéis
Irracionais, parecem não ter qualquer tipo de dor ou angústia
Concluo que deve haver algo de muito sagrado nas dores humanas
Posto que não há humano que viva sem elas
Certamente é uma forma de “purificação” a que os animais estão isentos
Estamos sempre a lutar contra uma delas
As dores físicas, orgânicas, são inúmeras
As famosas cefalalgias e diversos tipos de “algias”
Aquelas que sabemos apontar onde dói e medicar
Há ainda as dores de tristeza, de angústia, de saudade, de desamor
Dores que ferem lá no fundo e não identificamos a origem
Dores psicológicas, mentais, emocionais, existenciais
Aquelas que o médico não encontra no RX ou na tomografia
As mesmas que a maioria das pessoas olha e diz
“Fulano é feliz, não tem problemas, sempre sorrindo”…
Há ainda as dores do outro que carregamos como nossas
São do outro, mas ele está tão dentro da gente,
Que dói em nós também…
Por essa perspectiva, se tudo que dói em nós
Dói naqueles que nos amam
Dá pra calcular o sofrimento de Jesus
Ao sofrer com nossas dores
Particularmente aquelas autoinflingidas, que nós mesmos buscamos
Por desconhecimento, ignorância, descuido, ou autoflagelo…
Sei lá!
Mas que às vezes dá vontade de ser uma borboleta
Ah, isso dá!
Alda M S Santos
SOFRIMENTOS
Há duas maneiras das pessoas encararem as duras penas da vida
Algumas sabem o peso de determinado sofrimento
E jamais querem o mesmo para alguém, próximo ou não
Outras, como sofreram aquilo, não se importam com o outro
Às vezes, desejam que o outro passe pelo que passou,
Até, muitas vezes, causam no outro a mesma dor
Na tentativa errônea de sofrer menos, não sabendo-se só
Como se ao doer no outro doesse menos em si próprio
São os modos diferentes que a alma de cada um
Mais evoluída, ou menos, lida com o próprio sofrimento!
Mas aprende, cedo ou tarde, que a dor de cada um é única
E deve ser enfrentada dentro de si mesmo,
Até ir apagando aos pouquinhos…
Alda M S Santos
ANGÚSTIA
Peito apertado, vontade de ficar apenas deitado
Ou sair de cena, desligar por uns tempos, hibernar
Sensação de angústia, vontade de chorar…
Quantas vezes nos sentimos assim
Sem sequer saber exatamente quais os reais motivos, as razões?
Os modos de lidar conhecidos não funcionam
Ler, escrever, assistir filme, dormir, ouvir música…
Quando conversar com alguém, rezar, ajudar os outros, pouco auxiliam.
Tudo parece fora de lugar, desconectado!
Lá fora parece tão grande, mas não nos cabe
Cá dentro está apertado e nos machuca…
Queremos apenas um cantinho na nossa medida
Que tenha chuva e tenha sol,
Que tenha lágrimas, mas também tenha sorrisos
Que tenha Deus, prazer de viver
Que tenha quem nos ame,
Que tenha quem amamos
Que a gente se encontre de novo nessa nau…
Alda M S Santos
O QUANTO DÓI O QUE MAIS DÓI?
Dor de dente, cólicas renais, parto, coluna,
Enxaquecas, ressacas, crises de abstinência, nervo ciático,
Luto, amor, saudade, solidão, compaixão, ingratidão…
São tantas a doer!
Dores são bem democráticas
Quase sempre distribuídas a todos
O grau de cada uma e o que fazemos delas
É o que nos difere uns dos outros.
Tantas pessoas sorridentes por aí
Com dores que uns julgam pouca coisa
E outros sequer pensariam em suportar.
Qual a dor que mais dói?
Aquela que sabemos que também dói no outro,
Ou a que sabemos suportar sozinhos?
A dor que mais dói é certamente a que sentimos no momento.
O quanto cada dor dói, só quem a sente é capaz de dizer.
Nunca subestimar a dor ou sofrimento do outro,
Não potencializar a nossa, tampouco fingir que não existe,
São bons modos de encarar esse mal comum a todos.
Uma injeção de amor também seria o ideal!
Alda M S Santos
QUANDO TUDO DÓI
Há dias em que tudo dói
Até cabelos e ossos
Partes que dizem ser desprovidas de sensibilidade
Por não terem terminações nervosas
Mas quando sentimos dores que não identificamos,
Tudo parece doer!
Normalmente são dores que vêm lá de dentro
Alguma questão mal resolvida dentro de nós.
Qual o remédio? Qual a cura?
Silêncio e oração, família e amigos,
Independente da ordem em que apareçam para nós,
Ou que tenhamos que buscá-las!
Simplesmente, precisamos…
Alda M S Santos
NÃO DÁ PARA MENSURAR!
Há coisas que por mais que se tente, não conseguimos mensurar!
O tamanho da dor que aperta no peito de quem perde um amor,
Ou o vazio na vida de uma mãe que não poderá mais abraçar seu filho,
Não dá pra mensurar!
A culpa de alguém que não pôde proteger a quem amava,
Ou a saudade que machuca no peito dos apaixonados,
Não dá pra mensurar!
A tristeza e revolta que acompanham os perseguidos,
A dificuldade de seguir em frente com fé, quando tudo que se quer está no passado,
Ou o medo de caminhar rumo a um futuro incerto e sem brilho,
Não dá pra mensurar!
A verdade é que só se pode mensurar
Aquilo que está dentro de nós!
O que se passa com o outro,
Podemos apenas imaginar…
Alda M S Santos
PRECISO ESQUECER
Preciso esquecer as dores e me concentrar nos amores
Preciso esquecer o que me falta e atentar ao que me preenche
Preciso esquecer as angústias e valorizar as bênçãos
Preciso esquecer tudo e todos que de mim não se ocupam
Preciso esquecer tudo e todos que de mim se esqueceram,
Montar e seguir caminho…
Preciso lembrar de esquecer!
Alda M S Santos
CICATRIZES REABERTAS
Cicatrizes aparentes costumam ser grosseiras, ásperas, rígidas
Cicatrizes escondidas são mais finas e delicadas
Ambas demonstram força e fragilidade
Fragilidade por ter se machucado,
Força por ter sobrevivido
Mas ambas deixam o indivíduo com medo do risco,
Sem coragem de andar “descalço”
Cicatriz reaberta demora mais a fechar,
Cicatriz reaberta é a dor de hoje potencializada,
Pela dor de ontem no hoje,
Pelo medo do hoje no amanhã!
Alda M S Santos
PRA PARAR DE DOER
-Papai, quero ser grande e forte como você para os machucados não doerem!
-Não, filho, os machucados doem, a gente apenas finge que não dói e não chora à toa!
-Então quero ser forte como a delicadeza da mamãe.
-É? Por quê? Ela chora!
– Ela disse que chora para parar de doer. Quero assim!
Alda M S Santos
ISSO É MOTIVO, SIM!
Se tem uma coisa que irrita qualquer pessoa que chora,
É alguém dizer “Só isso? Mas isso não é motivo para chorar”!
Quem chora sofre de alguma dor intensa, ou alegria, sei lá!
Mas quem chora sabe! E muito bem!
Pode ser dor de dente, falta de dinheiro, doença, saudade,
Unha encravada, comercial de margarina, filme romântico,
Um jardim bonito, uma palavra mal dita, um sonho frustrado,
Ônibus lotado, amizade falsa, cabelos rebeldes, coração partido…
A quem observa cabe abraçar, dar colo, chorar junto…
O dia de todo mundo chega.
Num dia a gente sorri, em muitos outros a gente chora…
E vamos querer um abraço também!
Alda M S Santos
COMA INDUZIDO
Procedimento: Indução de um coma atemporal
Indicação: Proteção de circuitos importantes
Retorno à consciência de dentro pra fora
Quando for capaz de processar estímulos externos sem dor,
Quando a alma estiver em paz consigo mesma.
Alda M S Santos
DORES
Uma sombra escura, uma luz que não clareia,
Um sorriso que não ilumina, uma palavra que nada diz,
Uma fome insaciável, uma sede não identificada,
Um silêncio inoportuno, uma distância forçada,
Uma mágoa contida, um olhar apagado,
Um amor não correspondido, um desejo represado,
Um sonho tão sonhado, não realizado,
Um tempo tão longo, tão improdutivo,
Uma realidade dura, crua, não digerível,
Uma esperança que morre, por fim.
Ausências, ausências, ausências…
Uma energia que se esvai e se esgota,
De onde tudo deveria brotar…
Alda M S Santos
DORES NA SIMPLICIDADE E NO LUXO
Numa semana, num lar de idosos de classe baixa, na outra, num núcleo luxuoso para a maturidade.
Ambos com idosos colocados ali para serem cuidados, tratados, terem sua dignidade preservada.
Espaços limpos, pequenos e simples de um, destoam dos espaços amplos, muito bem decorados e bem aproveitados de outro.
Idosos em seus melhores trajes para receberem as visitas.
Um banho e roupas simples e ausência de acessórios de um, roupas e calçados finos, colares, brincos, maquiagem, chapéus, penteados, cabelos bem pintados e unhas bem feitas do outro.
No primeiro, poucas atividades além da rotina diária: refeições, banho, TV, pátio, sono, medicamentos.
No segundo, agenda cheia: leituras, músicas, visitas agendadas, apresentações, artes, convidados de todo tipo.
Mulheres interagem mais. Os homens, ou são galanteadores ou ranzinzas, muito calados, ou quase incapazes.
O que há de semelhante além de serem homens e mulheres idosos entre 70 e 100 anos de idade?
São como crianças! Olhos sem muita vivacidade, mas com brilho úmido, carentes de afeto. Todos eles!
Abraçam-nos e agradecem a nossa atenção e dedicação como algo precioso.
Querem ser tocados, ouvidos, compreendidos. Precisam do nosso tempo.
Cantamos músicas da sua época (com nossas vozes maravilhosas), deixamos a vergonha em casa, dançamos, tentamos ignorar os mais rabugentos, trazê-los para nós. Quase sempre conseguimos.
Em ambos, poucas visitas recebem. Alguns, ninguém os procura.
O mais triste é que, mesmo aqueles cercados de gente, de atividades, de “amigos”, de tarefas, falta-lhes algo.
Recebem amor, mas querem aquele amor especial, aquele amor específico, aquele que grudou na alma e dói a ausência.
Como me disse uma idosa sabiamente, eles têm muitas presenças, mas uma ou duas ausências impedem definitivamente a felicidade.
Concordo com uma senhora trovadora, residente do lar, autora de livros de outrora:
“Saudade, com tanto lugar lá fora, porque você insiste em doer aqui dentro?”
Divirto-os, me divirto e agradeço a cada um deles a oportunidade de me tornar uma pessoa melhor.
Alda M S Santos
SENTIMENTOS CRÔNICOS?
Nos consultórios médicos, quase sempre há diagnóstico da cronicidade de alguns males:
Doenças autoimunes, cardíacas, digestivas, respiratórias, alergênicas, circulatórias, entre outras.
Muitas doenças são agudas, ou seja, têm um pico de ação dos antígenos.
Nessa fase, os sintomas incomodam mais: dores e desconfortos vários.
Após um tempo ou tratamento com medicamentos, passam.
As doenças crônicas são aquelas que não têm cura, é preciso aprender a conviver com elas.
Há alguns medicamentos ou mudanças de hábitos que podem ajudar nesse convívio.
Porém, os doentes nunca irão se livrar do mal.
Penso que também possuímos alguns sentimentos que são agudos em nós:
Raiva, euforia, paixão, tristeza, decepção, revolta, mágoa, ciúmes…
E, como tal, não podemos permitir que se tornem crônicos. Podem matar!
Sentimentos crônicos são aqueles com os quais não podemos nem devemos deixar de conviver:
Felicidade, compaixão, solidariedade, alteridade, caridade, amizade, amor…
Nem sempre trarão alegrias, nem sempre será fácil.
Podem também causar dor e reações adversas, particularmente o amor, quando não correspondido.
Porém, ainda que fique bem guardadinho dentro de nós, que tenha suas fases agudas e retorne para seu cantinho,
Sempre fará bem, sempre, especialmente a quem o sente.
Alda M S Santos
LOBOTOMIA
“Por que a gente fica velha e lembra só de coisas que machucam o peito da gente?” -Perguntou-me uma idosa, lágrimas a escorrer no rosto enrugado, olhos cheios de histórias!
Pessoas jovens também, querida! Precisamos levar a mente a pensar nas coisas boas que todos temos, respondi.
“Mas até coisas boas ferem o coração, porque não existem mais”.
Sei que não é fácil, mas a mente é flexível, precisamos levá-la para bons lugares. Curtir a saudade boa. Interagir com as companheiras, participar mais, digo.
“Quero não, perdi o gosto, estou aqui esperando pra morrer e sozinha. Queria fazer aquela operação que apaga o cérebro da gente, como chama mesmo”.?
Lobotomia?
“Essa mesmo! Aí a gente não sofre, apaga o que dói!”
Eu a abracei e brinquei: gosta de abraço? Não gosta de cantar? Vamos cantar? Se fizer lobotomia irá esquecer os abraços, as músicas!
Ela riu e disse: “vou tentar lembrar do que é bom! Quando você volta?
Quantos de nós não temos vontade de “apagar” em nós o que nos machuca?
O risco é apagar o que há de bom também!
Melhor mesmo é conviver com nossas dores, nossos amores, nossas amizades, nossos atropelos.
E tentar produzir mais sorrisos que lágrimas, equilibrando a balança.
Alda M S Santos
PORQUE ESCOLHI VIVER
Porque escolhi viver nem sempre serei sorrisos.
Viver implica aceitar um pacote de possibilidades.
Tantas vezes é meter a cara onde parecia arriscado.
É pegar o ônibus em movimento.
Acordar cedo, dormir tarde, nem dormir…
É enfrentar humores oscilantes, humanos vacilantes.
É chorar de dor de dente, de dor de amor, sofrer pela dor do outro.
É dormir orando de preocupação ou agradecimento.
É ter dias nublados e outros ensolarados.
É encharcar-se até a alma nas tempestades próprias.
Poderia ter escolhido me recolher, não me envolver, não participar.
Sentar na janela e só observar a paisagem…
Mas eu escolhi viver.
Por isso, sou assim
Multifacetada…
Ora lágrimas, ora sorrisos…
Ora prazer, ora saudade…
Nem sempre sorrisos
Mas quando eles existem…
Sua luz é capaz de gerar brilho por dias…
Porque escolhi viver…
Alda M S Santos
É sempre tão fácil aconselhar! Os problemas dos outros sempre nos parecerão simples, ou ao menos não tão complicados. Sentimo-nos até mesmo “superiores” por poder ver o que o outro não está conseguindo enxergar, vislumbrar uma saída, quando ele parece estar perdido.
Podemos não entender uma mãe que chora e perde o sono por um filho doente, duvidar da força de vontade de alguém que insiste em beber, sabendo que o álcool lhe faz mal, desacreditar no amor quando vemos um homem chorar por tê-lo perdido, perder a paciência com o papo repetitivo de um idoso ou com a mania de doença e morte de uma jovem bonita e saudável.
Mas há um momento em que tudo muda de figura!
Quando temos os nossos filhos, entendemos e nos emocionamos com qualquer problema que envolva crianças. Acreditamos no alcoolismo como doença, que deve ser tratada, quando o vivenciamos na família. Entendemos o homem que chora por amor, quando amamos, lutamos, sofremos, sorrimos, choramos e perdemos alguém que é tudo pra nós. Passamos a amar os idosos quando vemos alguém sendo grosseiro com as histórias que tanto amamos de nossos avós. Aprendemos a ter carinho com a jovem “saudável” quando temos uma sobrinha bulímica, anoréxica ou depressiva em casa.
Há outros meios de aprender a se colocar no lugar do outro, de exercitar a alteridade, a compaixão, a solidariedade, o amor. Porém, nenhum deles é tão eficaz quanto sentir na própria pele, vivenciar o mesmo problema.
Será por isso que Deus nos permite vivenciar tantas experiências? É apenas um professor amoroso, mas “exigente”?
Seja como for, sempre vale a pena repensar, ter bastante sensibilidade, quando nosso olhar recair sobre os problemas de alguém. Só ele, somente ele, poderá dizer a intensidade de sua dor. Estejamos atentos!
Alda M S Santos