UMA BRUXINHA

Acordou naquele dia disposta a fazê-lo especial. Chamavam de Dia das Bruxas. Ela esboçou aquele sorriso maroto e pensou, “ou seja, como todos os meus outros dias”…

-Quero que hoje seja diferente! Bruxa já sou todo dia! Que posso fazer para esse dia ser genial?

Uma brincadeira, uma arte, uma travessura, um pouco de candura, algo sem igual?

Saltou cedo da cama, preparou sua mistura energética mágica, colorida e agridoce. Raízes, frutas, folhas e ervas. Água fresca e mel. Nada de asa de morcego ou perna de aranha…eca!

Um banho na água fria que vinha direto do poço, um vestido leve e estampa floral, um batom suave, perfume de rosas, um colar de pedrinhas, cabelos com prendedor lateral de delicadas borboletas, um sorriso no rosto…estava pronta!

Ao sair à procura do Mago ele logo saltou em seu colo, seu parceiro de sempre, seu gatinho cinza com patas e rabo branco. “”Venha, Mago, temos trabalho”! Ele ronronou concordando.

Ao entrar no ônibus (nada de voar em vassouras, talvez mais tarde), sentou-se ao lado de um senhor sério e de olhar perscrutador.

Pôs a bolsa no colo, Mago miou, o senhor olhou interrogativo, ela fez sinal de silêncio com o dedo sobre os lábios e deu uma piscadela. Não podia carregar animais no ônibus. Ele sorriu cúmplice e fez sinal de boca fechada.

Os olhos do senhor tinham uma espessa camada de catarata e, ao observar o gatinho, viu que um dos olhos dele estava quase coberto com uma crosta parecida.

A moça explicou que o gatinho tinha aparecido com aquele problema nas duas vistas e que ela já tinha curado uma delas. Logo a outra estaria perfeita também, ela afirmou para o senhor.

Senhor Ângelo, encantado pelo jeito doce daquela moça e seu gatinho, evitou demonstrar sua descrença.

Ela fazia carinho no bichano todo o tempo em que conversava com Sr Ângelo. Ele prestava bastante atenção. Sentia falta de conversar com alguém. Era muito solitário.

Foram conversando durante toda a hora seguinte. Ele vivia só, viúvo, seus filhos e netos moravam longe, não gostava de depender de ninguém.

Ela trabalhava com crianças numa creche próxima de sua casa e com idosos no Posto de Saúde.

Ele passava sua vida ajudando os outros e auxiliando nas atividades para a terceira idade no clube perto de casa. Tinha muito medo de perder a visão e não poder mais ler ou ajudar no clube. Isso o entristecia muito.

Ficaram tão entretidos naquela conversa animada e profunda que se assustaram quando ela disse que teria que saltar no próximo ponto.

Sem pedir licença, ela segurou as mãos do Sr Ângelo, deu-lhe um beijo no rosto e despediu-se logo levantando e saindo. Mago estava quietinho, cúmplice de tudo.

Desceu deixando no ar um rastro de perfume de rosas e o calor da sua presença.

Ele a observava parada lá na calçada com o gatinho no colo. Ela soprou um beijo e acenou. Ele notou que Mago não tinha nada nas vistas, estavam limpas com seus grandes olhos verdes.

Estupefato e feliz percebeu que enxergava perfeitamente bem. Lá fora, as próprias mãos, tudo claro e nítido.

Com leveza e gratidão acenou para aquela moça que mais parecia um anjo, tão colorida, leve, bela e suave. Ela lembrava a ele sua esposa quando mais jovem.

O ônibus partiu e ele ficou olhando até ela sumir na esquina…

Sentindo-se revigorado e animado notou no banco em que ela estava um pacotinho com uma borboleta azul pousada. Como ela teria ido parar ali no ônibus fechado? -pensou ele.

Pegou, desfez o laço e a borboleta por ali quietinha. Havia um frasco com os dizeres “Gotas de Amor” e um bilhete.

“Sr Ângelo, é fácil mudar o mundo. Uma pessoa de cada vez. Espalhe amor como puder, em gotas ou numa tempestade. Feliz Dia das Bruxas! Assinado: Bruxinha Luz”

A borboleta se foi sem ele perceber e o deixou se perguntando como ela entrou, como ele se curou e quem havia dito seu nome para a Bruxinha Luz.

Alda M S Santos