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Praga urbana?

PRAGA URBANA?

Seria um pombo-correio?

Chegou pertinho de mim no jardim, joguei água

Querendo impedir que os cães o pegassem

Não voou, ficou me olhando, parecia pedir clemência com os olhos

Fechei a torneira, me abaixei e o peguei

Aquele olhar parecia falar, eu queria ouvir

E “ouvia” os argumentos dos outros para descartá-lo

“Isso é praga urbana, só transmite doenças”

“Que nojo! Mata! Bicho piolhento”

“Solta para os cachorros comerem”

“Isso prolifera igual praga, desequilíbrio ambiental”

“Só serve para distrair os velhinhos que os alimentam nas praças”

Lembrei de casos terríveis de extermínio de mamíferos e aves “nocivos”

E eu via apenas um pombo que me olhava

Que tinha asas para voar e me deixou pegá-lo

De onde veio? Por que estava só? Estaria nas últimas?

Praga urbana?

Para mim era apenas um pássaro

Não era um pombo-correio, mas me trouxe um recado

“Os humanos é que estão se tornando praga urbana

Em sua luta desenfreada para sobreviver roubam a vez de qualquer ser”

Eu o coloquei na beirada do balaústre

Ele continuou a me olhar: “confio em você”

Ficou ali muito tempo e depois voou para o muro

Trouxe seu recado:

“Não há na criação nenhum ser melhor que o outro”

Era mesmo um pombo-correio

Um ser da criação, símbolo da paz!

Praga urbana? Responsabilidade de quem?

Alda M S Santos

No banco de trás 

NO BANCO DE TRÁS

Nossa vida passa por momentos de alternância, muitas vezes sem percebermos. 

Nossa maneira de lidar com esse revezamento natural determina nossa paz diária.

Numa fase, temos o controle de nossas vidas, estamos ao volante, guiamos para onde queremos, do jeito que queremos.

Nossos filhos viajam atrás, confortáveis em suas cadeirinhas, ou já sentados no banco de trás. 

Aceitam o destino por nós escolhido. Confiam, se entregam, observam, aprendem. 

Sonham com o dia em que ocuparão o banco do carona ou, melhor ainda, do motorista. 

E chega a hora em que eles passam para a frente, nós passamos para o banco de trás. 

Aí muita sabedoria é necessária. De motoristas e passageiros. 

Passageiros precisam confiar no novo motorista, nos ensinamentos que eles receberam e relaxar. Não interferir tanto. 

O “controle” de certa forma está com eles. 

Motoristas necessitam saber que os passageiros, outrora motoristas, ainda que estejam menos ágeis ou espertos, não desaprenderam o que sabiam. Ainda podem ensinar algo.

São necessários aqui muita tolerância, respeito, gratidão.

Essa relação acontece dentro dos veículos e fora deles. 

Pais e filhos precisam reconhecer que à medida que crescem e envelhecem a situação pode se inverter ou, no mínimo, mudar. 

Aceitar que em qualquer idade todos podem aprender, podem ensinar. 

Num dado ponto notamos que não há supremacia de um sobre o outro, apenas admiração e amor. 

E um pouco de bom humor também não faz mal a ninguém. 

Sabemos que chegará o instante em que nem estaremos mais nesse carro. 

Outras crianças estarão no banco de trás e o ciclo recomeçará. 

Boa viagem! 

Alda M S Santos 

O quanto você aguenta?

O QUANTO VOCÊ AGUENTA?

O quanto de tons de verde ou de azul do céu eu aguento?

Por quanto tempo eu suporto o silêncio que vem de fora?

O quanto de sossego sou capaz de aturar? 

Por quanto tempo consigo ficar sem ouvir a voz dos outros?

O quanto eu aguento de sons de pássaros, cigarras, galinhas d’angola, galos, macacos?

O quanto eu tolero dessa brisa que acaricia minha pele, disputando espaço com os mosquitos?

Por quanto tempo ficaria deitada aqui, apenas a observar?

O quanto de cores e sons eu preciso para viver? 

Tudo depende de quanta paz interior eu tenha!

Tudo depende da minha capacidade de conviver comigo mesma!

Tudo depende da minha (in)dependência dos outros. 

O quanto você aguenta?

Alda M S Santos

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