CHEIRO DE AMOR
Olfato cria lembranças marcantes e eternas
Mais que qualquer outro sentido
Cheiro de mãe, cheiro de colo, de casa de vó,
De infância, de escola, de domingo, de Natal,
Cheiro de praia, de roça, de rio, de mata,
De namoro, de amigos, de filhos,
De abraços quentinhos, de cheiro no cangote,
De beijos molhados de chuva, de suor…
De muitos cheiros se faz minha memória.
Um único comum a todos:
Cheiro de amor.
Alda M S Santos
MARCAS IMPRESSAS
Sempre vemos algo que dizemos: isso me lembra fulano…
Pode ser o jeito de sorrir, de jogar o cabelo
O modo de andar, de se vestir
A delicadeza das atitudes, o abraço, o beijo,
A voz, as palavras doces,
A fisionomia sisuda, o mau humor, a ansiedade.
A atenção, o carinho, a preocupação,
A criatividade, a intensidade, as bochechas coradas
A animação ou desânimo, o jeito lento ou acelerado.
O modo de dançar, cantar ou encantar,
A fé, a coragem, a força de vontade,
O perfume, o olhar, o batom rosa, a barba por fazer, aquela bebida…
Quais serão as marcas que deixamos impressas por aí?
Podem ser infinitas!
Preferiríamos que fossem apenas as agradáveis!
Caminhemos com esse intuito!
Alda M S Santos
MEMÓRIAS
“Fomos Garotas de Copacabana. Viu como eu era bonita? Igual você!”
Ela ajeitava seus lençóis o tempo todo. O espaço que era só seu.
Foto acima da cama, com nome, data de nascimento: 20/09/1930.
Um pequeno armário com o crucifixo pendurado, poucos pertences e fotos, muitas fotos.
Todas espalhadas na cama. Mostrava e contava sua história.
“Minha irmã morreu no Rio. Não tenho mais pra onde ir.”
Toda uma vida, memórias registradas ali em preto e branco, em cores.
Uma Bíblia, um livro do Pe Marcelo, todos inchados de fotos, cartões de aniversário, cartas, envelopes…
“Para marcar onde li e pra Jesus proteger. Jesus protege, sabia? Está com minha irmã! ”
Sim, e conosco também!- respondi.
“O meu coração é só de Jesus. A minha alegria é a Santa Cruz.”
Cantava e me pedia para acompanhar. A companheira ranzinza do quarto reclamou.
“Vamos parar! Ela dá chinelada na gente”.
Fui lentamente até ela. Expulsou-me. Insisti. Devagar. Deixei, voltei.
No final, coloquei a faixa de Miss Guerreira, abracei a ranzinza, beijei suas bochechas, sorriu, ganhei um “obrigada, vai com Deus”!
Deixei-as com suas histórias em papel, poucos objetos e memórias, muitas se apagando.
E fui embora com as minhas.
Farão parte de minha história a partir de hoje.
Alda M S Santos
MARCADO A FERRO
Estava de camiseta estilo nadador
Ombros e braços à mostra,
Uma bela tatuagem de uma garota de longos cabelos nas costas
E um nome que não pude ver.
Malhava no aparelho ao lado do meu
“Nem precisa registrar assim, não é?”
O quê?
“A tatoo. É minha garota!”- disse aquele senhor mais velho.
Há outros tipos de registros, concordei.
“As pessoas escrevem suas histórias em nós de diversas formas”. – disse sorrindo.
Certamente! Umas escrevem a lápis, logo se apaga e não deixam marcas.
Outras escrevem à caneta, demora um pouco mais, mas também desmancham e deixam algumas marcas.
“E há aquelas que registram a ferro. Nunca mais conseguimos apagar”- ele completou.
Sim. Ficam impregnadas em nós. Registradas na pele, no coração e na alma. Nem que a gente queira consegue extirpar.
“É o caso dessa garota, minha filha, nem precisaria estar nas minhas costas. Ela se foi, mas está registrada a fundo lá dentro”.
Todos temos histórias registradas em nós!
“Você tem a pele limpa, mas certamente tem muitas histórias marcadas a ferro”.
Todos nós, senhor! Todos nós!
Alda M S Santos
LOBOTOMIA
“Por que a gente fica velha e lembra só de coisas que machucam o peito da gente?” -Perguntou-me uma idosa, lágrimas a escorrer no rosto enrugado, olhos cheios de histórias!
Pessoas jovens também, querida! Precisamos levar a mente a pensar nas coisas boas que todos temos, respondi.
“Mas até coisas boas ferem o coração, porque não existem mais”.
Sei que não é fácil, mas a mente é flexível, precisamos levá-la para bons lugares. Curtir a saudade boa. Interagir com as companheiras, participar mais, digo.
“Quero não, perdi o gosto, estou aqui esperando pra morrer e sozinha. Queria fazer aquela operação que apaga o cérebro da gente, como chama mesmo”.?
Lobotomia?
“Essa mesmo! Aí a gente não sofre, apaga o que dói!”
Eu a abracei e brinquei: gosta de abraço? Não gosta de cantar? Vamos cantar? Se fizer lobotomia irá esquecer os abraços, as músicas!
Ela riu e disse: “vou tentar lembrar do que é bom! Quando você volta?
Quantos de nós não temos vontade de “apagar” em nós o que nos machuca?
O risco é apagar o que há de bom também!
Melhor mesmo é conviver com nossas dores, nossos amores, nossas amizades, nossos atropelos.
E tentar produzir mais sorrisos que lágrimas, equilibrando a balança.
Alda M S Santos
ALÉM DO HORIZONTE
Os anos passam, a tecnologia avança, as pessoas crescem
A medicina evolui, o amor e o romantismo se transformam…
Todos para melhor, certo? Há sérias controvérsias!
No que tange ao amor e ao romantismo houve transformações
Mas, para melhor? Analisemos!
Basta uma simples “apreciação” nos nomes pensados para atrair
Entre “bondes”, “gaiolas” “popozudas”, “safadões”, “créus”,
“Fogosas” e “quebra-barracos”
Ainda podemos encontrar “letras” que atingem fundo:
“Meu p. te ama”, “piranha recalcada”, “late, que eu to passando,”,
“Um otário para bancar”, “encaixa nela”…
Todas dessa estirpe!
Como diria o “ultrapassado” Roberto Carlos, são muitas emoções.
Como ficam o amor e o romantismo, a sedução, o namoro no portão?
A conquista, o dar-se as mãos, as poesias num cartão, as rosas?
“Aquelas rosas que não falam, mas exalam o perfume que roubam de ti”?
São as mesmas as “amadas amantes” de hoje?
Prefiro um amor velhinho e ultrapassado
“Esse amor demais antigo, Amor demais amigo, Que de tanto amor viveu”
Mesmo os amores não vividos eram lindos, poesia pura!
“Tentei deixar de amar, não consegui/Se alguma vez você pensar em mim
Não se esqueça de lembrar/Que eu nunca te esqueci”.
Alguém aí entendido de “bondes”, pode me informar
Onde passa o próximo com destino ao passado?
Vou a “120, 150, 200km por hora”…
“Além do horizonte deve ter algum lugar bonito pra viver em paz”
“Não deixo marcas no caminho pra não saber voltar”…
Alda M S Santos
BACKUP DE NÓS
Assistindo ao filme “Diário de uma Paixão”
Reflito sobre a fragilidade de nossa existência.
Independente do tempo que vivemos por aqui,
Todos acumulamos muitos dados, muitas memórias.
Possuímos um disco rígido muito potente: o cérebro.
Assim como os computadores com seus HDs.
Como eles, também somos uma “máquina”.
Com o tempo, também podemos apresentar defeitos, avarias.
O HD pode não abrir, não permitir acesso, travar, deletar alguns dados, ou apagar de vez.
Todo especialista da informática aconselha: manter vários backups atualizados.
O mesmo vale para o nosso HD central.
E o fazemos sem perceber de um modo muito especial.
Em cada pessoa que convivemos vamos deixando arquivos
“Salvamos” nelas um pouco de nós: pais, filhos, cônjuge,
Amigos, amores, colegas, vizinhos, até em nossos desafetos
Em todos eles fazemos um pequeno backup de nós
Se um dia nosso HD vier a falhar podemos ser neles “restaurados”
Se ele se apagar de vez, nossa história estará registrada
Em todos aqueles que amamos, que nos amaram.
Devemos cuidar para fazer backups primorosos.
Voltando ao filme: vale a pena assistir.
Uma linda história de amor e backups!
Alda M S Santos
PLEASE, DONT’GO
Bastaria uma análise preliminar
Para percebermos quantas pessoas perdemos ao longo da vida.
Muitas se foram de nosso convívio…
Independente do motivo, fizeram falta.
Pessoas importantíssimas:
Um amigo da infância,
Do amanhecer ao anoitecer.
Amigos/irmãos da adolescência,
Que aturavam nossas paixonites e segredos.
Colegas de faculdade, namorados grudados.
Amigos de todas as horas.
Pais, irmãos, cônjuge, filhos, familiares…
Quantos foram?
Imaginávamos o afastamento?
Que um dia não contaríamos mais com eles?
Se tivéssemos pedido, teriam ficado?
Quisera poder revisitá-los.
E aqueles ao nosso redor hoje?
Por quanto tempo ficarão?
Ou também se perderão no tempo, nas lembranças?
Qual a finalidade de cada um deles?
Será que já vêm com tempo pré-estabelecido?
Ou se pedíssemos,
Please, dont’go!
Eles ficariam?
Alda M S Santos
QUANTO TEMPO?
Em menos de duas horas ela arruma suas coisas …
Doa materiais, joga fora o descartável
Separa para si o inseparável
Quanto tempo leva para se desfazer de uma vida?
Muitas lembranças…
Uma vida inteira ali
Muitos amigos, colegas
Abraços, carinhos, sorrisos, desavenças
Tudo parece impregnado em suas células
Seu lugar já foi ocupado
Brinca ao sentar no colo de sua substituta
“Você fará muita falta!”- dizem.
“Tem você em cada cantinho daqui”.
“Lembrarei de você para sempre”.
Será? Promessas já foram dívidas
Hoje, quase sempre, são palavras ao vento
Foram 27 anos ali.
Quanto tempo leva para sermos apagados de vez?
Quanto tempo leva para a rotatividade nos levar para longe?
Quanto tempo leva para esquecer?
A vida segue…
Mas ela sabe e responde por si:
Nem todo o tempo do mundo!
Dentro dela nada jamais se apaga.
Alda M S Santos
ESPECTROS
Sempre fiquei encabulada com as pessoas idosas que vão perdendo a memória.
Entre os muitos males que acometem os mais velhos, o que mais me intriga e amedronta é a perda da lucidez, da memória recente.
Meu avô, no final da vida, não se lembrava dos filhos, chamava minha mãe pelo meu nome, misturava dados importantes.
Nosso cérebro é ainda um mistério para a Ciência.
O que faz com que algo de nosso passado distante esteja nítido e algo dos últimos anos se apague?
Será que “escolhemos”, inconscientemente, o que lembrar?
Será que o que fica é a melhor parte, o que mais nos marcou ou o que não causa dor?
Se fosse possível realmente escolher, quais momentos gostaríamos de eternizar em nós?
Há realmente algo que desejemos apagar sem nos descaracterizar?
Ainda que estejamos marcados nas vidas daqueles que amamos, que convivemos, acho cruel essa perda das lembranças.
Penso que ao se extraí-las, vão nos apagando aos poucos, viramos um espectro de nós mesmos.
Pior que isso, só sermos apagados da mente daqueles que amamos.
Exceto se morrermos cedo, certamente não estaremos incólumes!
É consenso que ninguém quer perder nada.
Porém, sei que há dissenso, mas, a ter que perder algo, opto em manter minha mente, minha lucidez, minhas memórias.
E, se possível, minha visão, para ler e escrever.
Ah! Esqueci que não nos cabe escolher…
Alda M S Santos
LEMBRANÇAS
Muitas lembranças são associativas, quer dizer, nos remetem a algo ou alguém.
E isso as torna mais fortes, prazerosas e duradouras.
Aquela música suave ou dançante e letra tocante,
O perfume que traz nítida à mente a pessoa ou situação,
Pés e pernas entrelaçados na areia,
Namoro e amassos na varanda,
O cheiro de bolo no forno, de churrasco no domingo,
Cabelos esvoaçantes, um andar seguro,
Um olhar penetrante, um estilo de ser e vestir…
Uma voz mais calma, um jeito rebelde e meio cri cri, o raciocínio rápido,
O sorriso contagiante, sincero e cativante,
Um filme com pipoca no sofá da sala, um livro na rede, poemas românticos,
Um bate papo demorado no portão,
Aquela pracinha, um sorvete ou açaí, uma carona, um beijo soprado
O último pedaço de pizza, a bala de hortelã passada num beijo,
A cerveja gelada e espumando, a coca com limão,
Um mingau de fubá com queijo, chá de capim cidreira, chuva no telhado,
A leveza e o prazer de uma taça de vinho ou champagne,
Mensagens e SMS de carinho e cuidado,
Um abraço na pontinha dos pés que aperta o corpo e o coração…
Cada coisa nos remete a alguém…
Lembranças se associam às pessoas que foram importantes.
Memórias que veem à tela da mente a qualquer hora e se fazem saudosas e eternas…
Alda M S Santos
MARCAS DE PRAIA
E a viagem acabou…
Será? O que restou?
Trazemos mais que marquinhas de biquíni no corpo,
Mais que uma pele dourada ou cabelos rebeldes,
Mais que fotos maravilhosas e sorridentes,
Mais que uma concha, tattoo ou souvenir,
Muito mais do que se pode ver.
Vai além do que está aparente.
Trazemos marcas impressas na alma,
Energia renovada, lembranças boas,
Carinho de um povo interessante e lutador,
Uma cultura diferenciada, lugares lindos.
Tudo isso vira massa a se moldar dentro de nós.
E o que ela se tornará só depende de nós mesmos,
Da combinação do que já somos com o que recebemos.
Nunca voltamos os mesmos de uma viagem.
Felizmente!
Alda M S Santos
MEMÓRIAS
Memórias são lufadas de ar que ventilam nossos dias
Impedindo a asfixia em alguns momentos
São gotas de energia a irrigar nossa emoção
Com sorrisos ou lágrimas
São páginas amareladas de nosso viver
Capítulos revisitados, reescritos
São combustível que mantêm girando o motor da vida
Chegam quando querem, invadem, alegram,
E se vão…deixando saudades…
Assim, continuamos a produzir nossa história,
Novas memórias…
Alda M S Santos
MEMÓRIAS
Somos uma caixinha de memórias e lembranças
Todas bem guardadinhas!
Há uma certa ordem nessa arrumação.
A cada vez que uma delas é lembrada e revivida, ela fica por cima, na superfície.
Como numa busca virtual, mais fácil de ser acionada.
Aquelas que quase nunca mexemos ficam lá no fundo, últimas.
Quanto mais se mexe, mais se lembra.
Quanto mais se lembra, mais se vive.
Daí a importância de lembrarmos das coisas boas.
Momentos de alegria e vitórias,
Lembranças de amor e prazer,
Períodos de amizade e carinho…
Instantes de abraços apertados e sorrisos falantes…
E estaremos formando novas boas lembranças.
Deixando as dores, medos e traumas submergirem.
Quando assustarmos, as coisas negativas quase não virão à tona.
Estarão no fim da busca, no fundo da caixa,
Sufocadas pelo poder da alegria e do amor.
Um domingo frio, neblina, amor e cobertor,
Um sábado de sol, clube e amigos
Ou uma segunda-feira de cansaço, risadas e trabalho,
Se tornarão deliciosas rotinas reais e da memória.
Se a busca na caixinha for feita com alguém que se ama, mais rica ela será.
Alguma lembrança boa?
Alda M S Santos