CONSTRUINDO
Passamos a vida a construir. Somos construtores natos:
Uma casa, uma profissão, um lar, uma família, um amor, uma amizade…
Li certa vez que há pessoas que sofrem da síndrome do arquiteto
Planejam, constroem, dedicam-se a algo com afinco e amor,
Quando a obra planejada fica pronta não a habitam,
Partem para nova construção.
Pessoas inquietas, nômades, em trânsito, que não se prendem a nada ou ninguém.
Encontram prazer no construir, no conquistar, no realizar, no poder possuir.
Objetivo atingido, obra pronta, buscam novas emoções.
Acredito que nossas conquistas precisam ser curtidas.
As construções precisam ser habitadas!
Deus construiu o mundo aos poucos até chegar a seu objetivo máximo.
E parou para descansar e admirá-lo.
Acho que todos devemos chegar nesse ponto.
Porém, o ideal é que encontremos prazer na construção e na morada.
E sempre podemos reformar, quebrar uma parede aqui, mudar a cor ali.
Aumentar uns espaços, vitalizá-los, trocar portas e janelas…
Um bom construtor sempre encontra um jeito,
Sem ser preciso novas construções.
Deus até hoje mexe na sua obra, mas não desistiu dela.
Ele habita em nós todo o tempo.
Alda M S Santos
GREVES E PARALISAÇÕES DE PROFESSORES: DE NOVO?
Sou professora, pedagoga, há 27 anos. Aposentei-me agora em fevereiro, 27 anos de contribuição no magistério e 4 anos na iniciativa privada.
Ouço muito: “que sorte a sua, tão nova, mais ninguém conseguirá tal façanha antes de morrer”.
A Reforma Previdenciária a ser votada é desumana e cruel, ilógica e irracional, todos sabemos.
Porém, as mesmas pessoas que me parabenizam, dizem: “professores em greve, de novo”?
Foram incontáveis as vezes em que participei de paralisações ou manifestações ao longo de minha carreira. Independentemente se o governo era de direita ou esquerda, partido A ou B. Entrou lá, a situação é outra. O discurso muda radicalmente.
Muitos ganhos trabalhistas da categoria, ou garantia de direitos conquistados foi à custa de muita luta.
O que temos hoje aí é muito insatisfatório. Temos muito a crescer ainda em matéria de educação.
Agora, a Reforma Previdenciária vem para atingir a todos num golpe mortal e inigualável na história. Retrocesso.
O pior é que sabemos que a verdade não é ausência de recursos. É má administração e desvio dos mesmos.
Contas em paraísos fiscais, se desmanteladas, provavelmente pagariam por uns bons anos os inativos do país.
A luta pela dignidade no trabalho, de docentes e discentes, é antiga. Menina ainda, lembro-me de minha mãe nas manifestações, depois fui eu, agora uma nova categoria, de alunos meus, hoje trabalhadores, cidadãos conscientes, aí na frente de batalha.
Uma nova consciência está surgindo. Uma mãe de aluno falou um dia desses: “vocês têm que lutar mesmo, por vocês, por nós todos. Na iniciativa privada a greve é mais complicada. Lutem por todos nós, por nossos filhos”!
Quando o calo que aperta é dentro de nossos sapatos, aceitamos qualquer outro calçado que se apresente e sinalize algum conforto.
A greve não é de uma categoria. É de todo um povo!
A luta é de todos nós!
Alda M S Santos
MELANCOLIA
Melancólicos ficamos quando percebemos que a vida, por vezes,
É muito cordão para pouca pérola…
Escolhe daqui, procura dali,
Muitas pérolas falsas, pouquíssimas verdadeiras.
Pérolas à venda, pérolas dos outros,
Fica difícil montar um colar.
Ainda assim, cuidemos de nosso cordão e das pérolas que possuímos.
Mesmo que demore, outras virão.
Sua raridade é que as faz tão valiosas…
Tão especiais!
Alda M S Santos
PRECONCEITOS? CANSEIRA!
Preconceito hoje em dia virou palavra da moda, aquele que se forma sem fundamento, um pré-conceito, ou seja, formado sem exame crítico e sem conhecer algo do que se examina antes de defini-lo.
Sempre existiram, os mais diversos: de gênero, de opção sexual, de condição financeira, culturais, religiosos, contra os deficientes, de raça…
Hoje em dia, a lei “protege” as vítimas de preconceitos, mas isso, definitivamente, não garante que ele seja eliminado, sequer diminuído.
Os que estão sempre em “alta” são os raciais e os de opção sexual: racismo e homofobia.
A última manchete é: “advogado de 70 anos agride e chama cabeleireira de macaca em BH”.
“Pessoas próximas queriam dar uma surra nele, advogados queriam minimizar o problema.”
Nunca consegui conceber o que leva uma pessoa a julgar a outra inferior por qualquer razão que fosse, mas a questão racial é a mais revoltante e inconcebível.
Acredito ser de uma baixeza profunda: de caráter, de coração, de alma.
Vindo de uma pessoa de boa formação (?), vivida (!), conhecedora das leis terrenas (?) é ainda mais inaceitável.
Muitos diziam: não sabe que é contra a lei?
A questão não é essa! A lei maior não deve ser a dos homens, mas a de Deus: somos todos iguais perante Ele, irmãos entre nós.
Somos um país “liberto” da escravidão há 135 anos, mas continuamos escravizados por pensamentos mesquinhos e desumanos.
Ainda somos “senhores”, “capatazes”, ainda que em nossas veias corra o sangue mestiço de uma raça lutadora e guerreira.
A cada vez que a mídia divulga um caso desses, mais gente se amedronta, outros se revoltam dizendo que “não se pode fazer mais nada que é preconceito”.
Não consideram o quanto nossa dívida histórica com os negros é gigante, vergonhosa.
Enquanto nossa mente for pequena e limitada precisaremos de leis para coibir certas desumanidades.
O preconceito está entranhado em nós e da pior forma, velado.
Quando olharmos para os diferentes de nós e não julgá-los inferiores pelo que quer que seja, poderemos nos ver livres dessas leis.
Enquanto isso, prisão, ônus financeiro, vergonha para quem tiver essas atitudes. É o mínimo!
Alda M S Santos
CIÚME É AMOR?
Se pudéssemos escalonar, organizar os sentimentos
Em ordem de relevância, aceitabilidade e produtividade
O ciúme estaria nos últimos lugares.
Até depois do ódio.
Porém, apresentaria uma diferença crucial:
O ódio é reconhecido como 100% negativo, unanimidade.
Já o ciúme ainda é tido como prova de amor.
Definitivamente, não é!
A reação de cuidado com o outro, de proteção, de medo de perder,
Isso não pode ser chamado de ciúme. É até saudável.
O ciúme é maléfico, danoso, desconfiado,
Coisa de uma mente doente, possessiva e insegura.
E, quase sempre, evolui para o ódio.
Contudo, em diferentes graus, quase ninguém está a salvo;
De ser o ativo ou o passivo dos ciúmes.
E nenhuma das duas alternativas é agradável.
O ciumento sofre e faz sofrer, pois usa vendas
E só enxerga o que sua mente doente quer ver.
Desconfia, acusa, maltrata, fiscaliza, prende.
E nunca, nunca mesmo pode ser benéfico, visto que é irracional.
Ciúme é fogo que consome aos poucos o que há de bom no amor.
Se o intuito for prender, segurar o outro,
Quase sempre fracassa e o tiro sai pela culatra
Acaba por afastar seu “objeto” de adoração.
Quem sofre com os ciúmes, ativo ou passivo,
O ideal é que se faça um tratamento ou fuja dessa relação.
Alda M S Santos
SENTINELAS
Reclamamos muito dos juízes e carrascos da vida, que não são poucos!
Porém, muitas vezes, somos nós mesmos que nos julgamos, condenamos e executamos a pena: juízes, jurados e carrascos.
Por medo, preconceitos, desconhecimentos, falta de habilidade ou tato, por preguiça ou covardia, nos excluímos da vida.
Aquele curso, trabalho, empreendimento, ou proposta interessante que recusamos.
Uma atividade física que melhoraria nossa saúde e humor e não fazemos.
Uma viagem, um passeio, um convívio familiar dos quais não tomamos parte.
Novas amizades ou amores que abrimos mão, que fugimos, julgamos não merecer.
Nós mesmos abrimos mão, desistimos de algo que nos faria apenas o bem.
Somos nós mesmos, com nossa mente conturbada e volúvel, ora leão feroz e corajoso, ora ratinho amedrontado e covarde, que fazemos os caminhos de nossa vida.
Muitas vezes nós, como carrascos, não matamos de imediato, apenas somos sentinelas da cela nas quais nos colocamos.
Alda M S Santos
DE VOLTA PARA O ÚTERO
Vontade enorme de me enroscar em mim mesma
Ficar quietinha, respirar suavemente, pensar em nada
Preocupações e sensações zero, apenas o “inexistir”.
Colocar-me em modo voo, gastar pouca energia
Não atender a ninguém, nem a mim mesma.
Tudo nos ajustes “inativos”, “não perturbe”.
Voltar para o útero, encolhidinha,
Ambiente aquecido, solitário,
Dentro d’água, sons amortecidos.
Alimentada, nua, nem respirar precisa…
Apenas um carinho suave vez ou outra,
E nada podendo me fazer mal ou causar dores.
Faço X nessa opção!
Alda M S Santos
DOAÇÕES, PRA QUÊ?
Têm me causado muita angústia certas situações.
Basta dar uma navegada na internet, conversar com amigos, andar por aí…
Mal fiz uma divulgação de pedido de doações para idosos dos asilos, vejo uma notícia de que o Hospital Maternidade Sofia Feldman, público, que atende a milhares de gestantes carentes, está dependendo de doações para não fechar as portas.
E esta é apenas mais uma. Há inúmeros pedidos de doações para as mais variadas coisas: centros de narcóticos e alcoólicos anônimos, creches, asilos, hospitais, famílias sem teto, desamparadas, deficientes, aidéticos, doenças graves, suplementos alimentares, entre outras.
Mais uma “navegada” e a gente vê golpes, desvios de dinheiro, transações ilícitas, “laranjas” e o escambau!
Das duas uma: ou eu ando muito sensível ou esse mundo passou da hora de ser passado a limpo. Penso que as duas coisas.
Dá uma sensação de impotência perceber que por mais que se faça, esse buraco é sem fundo, o fosso não para de crescer.
Todos sabemos que com a quantidade de impostos que pagamos, se eles fossem bem administrados, não desviados, não haveria tanta necessidade de doações.
Por mais que a gente possa ajudar, financeiramente, trabalho voluntário, carinho, afeto, tempo, sempre parece ter mais e mais pessoas precisando.
O risco que se corre é que os corações se endureçam e ninguém se importe mais, não queira mais ajudar ou participar, ou sequer tenha condições de fazê-lo.
A história nos mostra que sempre houve necessidade de compaixão, de solidariedade, de caridade.
O que aumentou de forma gritante foi a corrupção, a safadeza, a hipocrisia e maldade de nossos governantes.
Nosso país possui recursos naturais, financeiros e humanos para ser uma nação de primeiro mundo.
Nosso maior problema são os desumanos que o administram e os humanos que os aceitam, por falta de consciência ou comodismo.
Precisamos atacar essas duas frentes, ou estaremos sempre “chovendo no molhado” e aumentando esse fosso.
Alda M S Santos
DORES NA SIMPLICIDADE E NO LUXO
Numa semana, num lar de idosos de classe baixa, na outra, num núcleo luxuoso para a maturidade.
Ambos com idosos colocados ali para serem cuidados, tratados, terem sua dignidade preservada.
Espaços limpos, pequenos e simples de um, destoam dos espaços amplos, muito bem decorados e bem aproveitados de outro.
Idosos em seus melhores trajes para receberem as visitas.
Um banho e roupas simples e ausência de acessórios de um, roupas e calçados finos, colares, brincos, maquiagem, chapéus, penteados, cabelos bem pintados e unhas bem feitas do outro.
No primeiro, poucas atividades além da rotina diária: refeições, banho, TV, pátio, sono, medicamentos.
No segundo, agenda cheia: leituras, músicas, visitas agendadas, apresentações, artes, convidados de todo tipo.
Mulheres interagem mais. Os homens, ou são galanteadores ou ranzinzas, muito calados, ou quase incapazes.
O que há de semelhante além de serem homens e mulheres idosos entre 70 e 100 anos de idade?
São como crianças! Olhos sem muita vivacidade, mas com brilho úmido, carentes de afeto. Todos eles!
Abraçam-nos e agradecem a nossa atenção e dedicação como algo precioso.
Querem ser tocados, ouvidos, compreendidos. Precisam do nosso tempo.
Cantamos músicas da sua época (com nossas vozes maravilhosas), deixamos a vergonha em casa, dançamos, tentamos ignorar os mais rabugentos, trazê-los para nós. Quase sempre conseguimos.
Em ambos, poucas visitas recebem. Alguns, ninguém os procura.
O mais triste é que, mesmo aqueles cercados de gente, de atividades, de “amigos”, de tarefas, falta-lhes algo.
Recebem amor, mas querem aquele amor especial, aquele amor específico, aquele que grudou na alma e dói a ausência.
Como me disse uma idosa sabiamente, eles têm muitas presenças, mas uma ou duas ausências impedem definitivamente a felicidade.
Concordo com uma senhora trovadora, residente do lar, autora de livros de outrora:
“Saudade, com tanto lugar lá fora, porque você insiste em doer aqui dentro?”
Divirto-os, me divirto e agradeço a cada um deles a oportunidade de me tornar uma pessoa melhor.
Alda M S Santos
SENTIMENTOS CRÔNICOS?
Nos consultórios médicos, quase sempre há diagnóstico da cronicidade de alguns males:
Doenças autoimunes, cardíacas, digestivas, respiratórias, alergênicas, circulatórias, entre outras.
Muitas doenças são agudas, ou seja, têm um pico de ação dos antígenos.
Nessa fase, os sintomas incomodam mais: dores e desconfortos vários.
Após um tempo ou tratamento com medicamentos, passam.
As doenças crônicas são aquelas que não têm cura, é preciso aprender a conviver com elas.
Há alguns medicamentos ou mudanças de hábitos que podem ajudar nesse convívio.
Porém, os doentes nunca irão se livrar do mal.
Penso que também possuímos alguns sentimentos que são agudos em nós:
Raiva, euforia, paixão, tristeza, decepção, revolta, mágoa, ciúmes…
E, como tal, não podemos permitir que se tornem crônicos. Podem matar!
Sentimentos crônicos são aqueles com os quais não podemos nem devemos deixar de conviver:
Felicidade, compaixão, solidariedade, alteridade, caridade, amizade, amor…
Nem sempre trarão alegrias, nem sempre será fácil.
Podem também causar dor e reações adversas, particularmente o amor, quando não correspondido.
Porém, ainda que fique bem guardadinho dentro de nós, que tenha suas fases agudas e retorne para seu cantinho,
Sempre fará bem, sempre, especialmente a quem o sente.
Alda M S Santos
CARNE FRACA?
Até onde eu estava acostumada a ouvir
“Carne fraca” era a justificativa dos pecados da luxúria
Aqueles que envolvem libido em alta e caráter em baixa.
Quanto ao que se refere hoje, Operação Carne Fraca,
Envolve crime de adulteração de carnes em putrefação
Com produtos químicos altamente danosos para maquiá-las,
Mistura de água para aumentar o peso, entre outros absurdos.
Marcas “acima de qualquer suspeita” envolvidas nessa fraude
Personalidades “importantes”, propinas, negociatas,
Dando aval a carnes com produtos cancerígenos!
Pessoas que deviam zelar pelo bem da coletividade
Envolvidas num crime de abrangência mundial.
Até onde chega a maldade e falta de caráter humanos?
Uma população carente, que pouco tem acesso a esse luxo
Paga caro por um produto que as leva para o caixão.
Ambas as “carnes fracas”, esta e a primeira,
Traem, enganam, mentem, se acovardam,
E matam!
Alda M S Santos
DIANTE DO ESPELHO
Diante do espelho eis a questão:
Quem é essa que me retribui o olhar?
Que olha além do brilho úmido, do tom castanho?
Dos cílios negros, do piscar intermitente?
Que tenta atravessar, ver em 3D, do outro lado?
O que vê? O que quer? Do que precisa?
Corajosa, mantém o olhar fixo em mim.
Mergulho profundamente, navego ali, temo me perder.
Vasculho recantos escondidos, cutuco pontos doloridos
Áreas obscuras, fechadas, há muito trancadas.
Retiro descartes jogados num canto, recupero itens da lixeira,
Troco “objetos” de lugar, demoro-me junto a alguns sentimentos
Sento, converso com eles, negocio, tento compreendê-los,
Aceitá-los, aproveitá-los, reativá-los ou descartá-los.
Tanta gente que já se foi e está ali. Reencontros, sorrisos. Para sempre serão amadas.
Vejo muito, vejo tudo, entendo tanto!
Hora de voltar!
Ela continua a me olhar. Lágrimas escorrem ali…
Lubrificaram o caminho difícil.
Encaram-se. Sorriem.
Não foi difícil encontrar o caminho de volta.
Bastou seguir o amor, como migalhas de pão, deixado nas trilhas.
Apesar de tudo, são vitoriosas.
Lembram de um verso que leram:
“Perdoa o que tiver que perdoar, abrace o que tiver que amar e o resto deixa, que a vida se encarrega de afastar”- (Tati Zanella)
Ou trazer de volta.
Alda M S Santos
VENTOS
Uma brisa, um ventinho leve, uma ventania
Aprecio seus efeitos estimulantes ou calmantes.
Se felizes, senti-lo na pele é extremamente prazeroso.
Causa euforia, animação, energia.
Se tristes, tem o poder de relaxar, de acalmar.
Um desânimo, uma alma angustiada, um coração apertado
Uma saudade, uma mente inquieta, um corpo cansado…
Na sacada, no alto de um prédio,
No alto de uma montanha, sentados na relva.
Na rede, na varanda, de madrugada, olhando a lua
Pedalando furiosamente numa estrada qualquer
Numa motocicleta, sem capacete, com cuidado.
No lombo de um cavalo trotando em trilhas na mata.
Num carro, vidros abertos, música alta, velocidade máxima…
Apertando o pé e seguindo em frente.
Sentindo o vento secar as lágrimas insistentes
Desarrumando os cabelos já rebeldes.
Levando embora o que é ruim, trazendo o que é bom!
Arrumando as gavetas da alma e do coração…
Alda M S Santos
ADAPTAÇÕES 💔
Sempre me impressionou a capacidade de adaptação dos seres humanos.
Quantas mutilações podem sofrer e continuar em frente.
Transferem a tarefa ou função perdida para outra área, outro membro, outro órgão.
Perdem pés, pernas, mãos, braços, articulações, órgãos diversos.
Usam outros em substituição, adaptam-se, sobrecarregam outra área. Basta ver uma paraolimpíada.
Diminuem a capacidade, arrefecem a vitalidade, mas a vida continua.
A vida sempre se impõe!
Até o cérebro pode “perder” certas partes e continuar ativo.
Mas se existe uma parte cuja adaptação é complicada é o coração.
Transplanta-se coração, tudo bem. O músculo coração pode ser substituído.
Porém, seu conteúdo, aquele gravado na alma, não se substitui facilmente.
Um filho, os pais, irmãos, amigos, amores…
Quem perde algo ou alguém importante tem sérias dificuldades para continuar.
Aqueles cuja alma já registrou como parte de si,
Quando se vão, saem levando um pedaço da própria alma em que grudou.
Substituição ou complementariedade de alma eu nunca vi.
A saudade até tenta compensar, mas não faz um trabalho muito bom.
Ao mesmo tempo em que pode alegrar, pode também ferir.
Esse tipo de adaptação o ser humano ainda precisa aprender.
Alda M S Santos
MANTENHA DISTÂNCIA PARA SUA SEGURANÇA
Sabe aqueles dias em que estamos dando choque em nós mesmos?
Pois é! Aqueles nos quais deveríamos carregar pendurada no pescoço e nas costas uma placa com a frase de para-choque de caminhão:
“Mantenha distância para sua segurança”.
Estamos impacientes, tristes, inseguros, insatisfeitos, decepcionados, com raiva até!
Ideal que nem saíssemos do quarto para evitar maiores danos ao “patrimônio” próprio e alheio! Risco de curto-circuito! Pane total.
Mas a vida chama! Trabalho, estudo, família, amigos, afazeres diversos.
Felizmente!
Lá fora, mesmo emburrados, escondidos atrás de uns óculos escuros, tentamos acordar.
Devagarzinho, vamos começando a enxergar as coisas belas e boas, que são muitas, e retribuir.
Fazendo o levantamento dos males que nos atingem, deixando todos eles, um a um, pelo caminho.
Com calma, com alma, respeitando nossos próprios limites, dores e lágrimas.
Aceitando os sorrisos, os carinhos, o amor que se apresenta.
Como “diz” outro caminhão:
“Nas curvas da vida, entre devagar…”
Se não quisermos atropelar ou ser atropelados.
Que aproveitemos a paisagem e as companhias.
Boa viagem!
Alda M S Santos
A DONA ARANHA
“A Dona Aranha subiu pela parede, veio a chuva forte e a derrubou”…
Insistentes muitos de nós agimos como a dona aranha, subimos, escalamos, sob forte sol, com a confiança de chegarmos lá em cima.
Vem uma “chuva” forte e nos derruba.
E parece tudo desabar!
“Já passou a chuva, o sol já vai surgindo e a dona aranha continua a subir”.
Baqueamos, mas fortes e guerreiros que somos não ficamos ali parados.
O sol volta a brilhar, novas paredes, novas aranhas, novas companhias…
Continuamos a subir!
“Ela é teimosa e desobediente, sobe, sobe, sobe, nunca está contente!”
Afinal a chuva derrubou a aranha, não a parede.
Enquanto houver paredes ela irá acreditar que é possível subir.
Não é qualquer chuva que derruba de vez uma aranha!
Não é qualquer coisa que derruba uma pessoa determinada.
Alda M S Santos
NÃO É UMA BOA!
A inversão de valores de nossa sociedade beira à insanidade.
Um jovem goleiro promissor, Bruno, é condenado a 22 anos e 3 meses pelo assassinato e ocultação de cadáver da ex-companheira e pelo sequestro e cárcere privado do filho.
Cumpre 4 anos, é liberado da prisão, e logo tem convites de times para que possa atuar novamente.
Errar é inerente à condição humana. Não há santos! Todos erramos! Todos! Erros existem para nos ensinar. Sair de um erro e cometer o mesmo em seguida é burrice, falta de caráter.
Bruno “pagou” pelo seu crime, se é que há meios de se pagar por uma vida que se tira. Pagou, tem direito a ser recebido de volta à sociedade, reconstruir sua vida!
Mas a sensação de impunidade grita aos olhos de todos. Foi um crime hediondo, cumpriu poucos anos, volta à sociedade como se nada tivesse acontecido!
Qual a imagem que se passa para nossas crianças e jovens? Aqueles que têm pais e mães desempregados há anos, que estão também desempregados! O crime compensa?
Homicídio triplamente qualificado (por motivo torpe, asfixia e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima), sequestro e cárcere privado, ocultação de cadáver.
Isso não é qualquer coisa, qualquer crime, qualquer erro!
A juíza do caso afirmou que a personalidade de Bruno “é desvirtuada e foge dos padrões mínimos de normalidade” e destacou que “o réu tem incutido na sua personalidade uma total incompreensão dos valores”.
Muitas piadas circulam por aí. Que ele tirou um diploma na prisão, que falta isso nos currículos dos desempregados…
É o modo do brasileiro de encarar o que o atinge. Brincando, fazendo piada.
Alguns patrocinadores do time “Boa”, que o contratou, retiraram o patrocínio. Não querem seus nomes envolvidos em tamanha sujeira.
Ontem foi recebido como celebridade por torcedores do time.
Um país em que praticamente todas as crianças sonham com o futebol, em ser jogadores, qual o exemplo que estão recebendo?
Que ídolos nossos filhos estão aplaudindo?
Nosso papel de pais e educadores torna-se ainda maior para se contrapor a tudo isso.
Fugir da questão não será uma “boa”.
Alda M S Santos.
MADRUGADA
É madrugada!
A cidade inteira adormece! Silêncio!
Um cachorro late, outro responde,
Uma motocicleta ronca veloz, meu marido ressona levemente ao meu lado.
Sons do ventilador, do motor da geladeira sendo acionado e interrompido,
Sons do silêncio da madrugada.
E eu aqui, acordada!
Fui despertada por um sonho estranho.
Os barulhos em mim são mais altos que a geladeira, o ventilador, os cães ou motos.
Apreensão, medo, angústia, decepção, arrependimentos, uma tristeza lá no fundo.
Tento relaxar para pegar no sono novamente.
Meu marido parece sentir e me abraça ternamente.
Enumero o que pode ser real do sonho, o que é sinistro, surreal, armadilhas do meu subconsciente.
Revejo as pessoas no meu sonho. Elas são realmente assim? São capazes disso?
Busco o que há de belo, de alegre, de amoroso e de pacífico em minha vida, tento contrapor.
Esse embate dura mais de uma hora. Mente agitada, alma comprimida.
Quando deixo as lágrimas rolarem, desaperto um pouco o coração, converso com Ele, tomo algumas decisões, consigo pegar finalmente no sono.
Acordo com o sol alto e parecendo ter levado uma surra.
À luz do dia nada é tão tenebroso quanto parece!
Felizmente! E a vida continua, feliz.
Alda M S Santos
AMOR/AMIGO
O que se espera de um amigo/a?
Mais ainda do que se espera de um amor.
Pois a amizade é um amor especial, diferente, mais leve,
Sem tantas cobranças, ciúmes ou desatinos.
Amizade tem confiança, confidências, lamentos, congratulações.
Não há necessidade de impressionar, há naturalidade, transparência.
Há ouvidos atentos, braços abertos, ombros largos, expressão calorosa.
A alegria na companhia do outro salta aos olhos de qualquer um, por mais diferentes que sejam entre si.
Onde há ao menos dois amigos/as juntos há risadas, gargalhadas, zombarias.
Também há papos sérios, conselhos,
puxões de orelhas, lágrimas, logo enxugadas pelo outro.
Há carinhos, abraços, toques, sorrisos…
Acima de tudo, os amigos acreditam uns nos outros.
Defendem-se perante tudo e contra todos.
Conhecem todos os seus defeitos e qualidades.
E tudo faz parte do mesmo pacote de amor.
Qualquer coisa boa ou ruim que lhes aconteça pensam logo nos amigos/as. Sabem que nunca os decepcionarão.
Torcem pelo sucesso um do outro e as competições, se houver, são saudáveis!
Um amor para ser completo precisa ser um amor/amigo.
Já a amizade basta por si só, pois o amor incondicional é sua essência.
Amizade verdadeira assim é coisa de alma!
Muito raro de encontrar!
Alda M S Santos
NOSTALGIA DO VOO
Qual o objetivo de se aprender a voar?
Obviamente, ser capaz de realizar o voo sem ajuda.
Voo solo. Sem supervisão ou orientações, independente.
Todos que se dispõem a ensinar algo sofrem da nostalgia do mestre.
É a nostalgia do voo solo.
Aqueles que de alguma forma se dedicam a ensinar
A orientar, estimular, curar, possibilitar o crescimento
Apagando mágoas, traumas e inseguranças
Querem que seus pupilos cresçam e apareçam
É o caso dos professores, dos médicos, dos psicólogos
De modo mais pessoal, dos pais, das mães,
Dos amantes, dos amigos…
Veem dia-a-dia a evolução de seus aprendizes
O passo a passo do aprendizado, as lutas
As quedas, a impotência, os avanços, as vitórias
E chega o dia deles voarem sozinhos, longe dos “mestres”.
Mostrar que a lição foi válida, a que vieram,
Para que tanto se dedicaram e se esforçaram.
Alegres, seguem seus caminhos, voam alto.
Aos mestres, cabe o sentimento de orgulho e de dever cumprido
Mesclados à imensa saudade e sensação de perda.
Os alunos superaram os mestres e se foram.
Os mestres devem se recolher e ficar em segundo plano,
Muitas vezes até sair de cena. Deixá-los voar.
Como as aves, as borboletas e os beija-flores.
Seres feitos para voar não podem ser mantidos presos.
Se as lições foram mesmo aprendidas
Saberão que é bom ter pouso entre voos,
E um dia retornarão para um abraço.
Os alunos, os pacientes, os filhos, os amantes, os amigos…
Alda M S Santos
POESIA
Dia Nacional da Poesia
Dia de todos nós…
Cada ser carrega em si a magia
O encanto, a beleza poética.
Em estado de dormência, de latência,
À espera dos “poetas” de plantão para despertá-la.
Uns a transformam em poemas.
Outros apenas vivem a poesia que encontram nos outros
Em forma de sorrisos, de carinhos, de abraços, de saudades,
De trabalho, de vida, de doces beijos e muito amor.
Desperte a poesia que há no outro,
Desperte a poesia que há em você!
Alda M S Santos
DESCAMINHOS
E quando chegamos naquela parte do caminho
Em que já atravessamos partes leves, agradáveis, floridas
Também as difíceis, duras, pedregosas,
Já fomos longe demais e percebemos que não é mais possível prosseguir?
Descobrimos que pra frente pode haver raios e trovões
Tempestades, tsunamis, maremotos intensos?
É possível descaminhar?
Dar marcha à ré, retornar pelo mesmo caminho,
Voltar ao ponto de largada, retomar?
Como se ao voltar fôssemos desfazendo tudo, desmanchando detalhes
Voltando a fita em câmera lenta
Sorrindo e chorando tudo outra vez
Apagando as pegadas deixadas na areia…
Ou o melhor a fazer é seguir em frente
Por outro caminho, gravando por cima?
Talvez possamos usar nova fita, fazer nova gravação
E deixar esse arquivo guardado num cantinho
Para ser utilizado em momentos de nostalgia e saudade
Ou de novos aprendizados…
De qualquer maneira, perder a “direção” nunca é bom.
É preciso sentar-se à beira do caminho, refletir, retomar as forças e a serenidade.
De quem tanto caminhou, espera-se que logo pegará sua bússola e, cedo ou tarde, vislumbrará uma nova trilha!
Alda M S Santos
MARCADO A FERRO
Estava de camiseta estilo nadador
Ombros e braços à mostra,
Uma bela tatuagem de uma garota de longos cabelos nas costas
E um nome que não pude ver.
Malhava no aparelho ao lado do meu
“Nem precisa registrar assim, não é?”
O quê?
“A tatoo. É minha garota!”- disse aquele senhor mais velho.
Há outros tipos de registros, concordei.
“As pessoas escrevem suas histórias em nós de diversas formas”. – disse sorrindo.
Certamente! Umas escrevem a lápis, logo se apaga e não deixam marcas.
Outras escrevem à caneta, demora um pouco mais, mas também desmancham e deixam algumas marcas.
“E há aquelas que registram a ferro. Nunca mais conseguimos apagar”- ele completou.
Sim. Ficam impregnadas em nós. Registradas na pele, no coração e na alma. Nem que a gente queira consegue extirpar.
“É o caso dessa garota, minha filha, nem precisaria estar nas minhas costas. Ela se foi, mas está registrada a fundo lá dentro”.
Todos temos histórias registradas em nós!
“Você tem a pele limpa, mas certamente tem muitas histórias marcadas a ferro”.
Todos nós, senhor! Todos nós!
Alda M S Santos
LOBOTOMIA
“Por que a gente fica velha e lembra só de coisas que machucam o peito da gente?” -Perguntou-me uma idosa, lágrimas a escorrer no rosto enrugado, olhos cheios de histórias!
Pessoas jovens também, querida! Precisamos levar a mente a pensar nas coisas boas que todos temos, respondi.
“Mas até coisas boas ferem o coração, porque não existem mais”.
Sei que não é fácil, mas a mente é flexível, precisamos levá-la para bons lugares. Curtir a saudade boa. Interagir com as companheiras, participar mais, digo.
“Quero não, perdi o gosto, estou aqui esperando pra morrer e sozinha. Queria fazer aquela operação que apaga o cérebro da gente, como chama mesmo”.?
Lobotomia?
“Essa mesmo! Aí a gente não sofre, apaga o que dói!”
Eu a abracei e brinquei: gosta de abraço? Não gosta de cantar? Vamos cantar? Se fizer lobotomia irá esquecer os abraços, as músicas!
Ela riu e disse: “vou tentar lembrar do que é bom! Quando você volta?
Quantos de nós não temos vontade de “apagar” em nós o que nos machuca?
O risco é apagar o que há de bom também!
Melhor mesmo é conviver com nossas dores, nossos amores, nossas amizades, nossos atropelos.
E tentar produzir mais sorrisos que lágrimas, equilibrando a balança.
Alda M S Santos
NÃO HÁ VACINAS!
Entre tantos os machucados e feridas
Das mais superficiais até as mais profundas
Daquelas que ficam secas até as que mais sangram
Das que causam dor aguda ou crônica
Que precisam suturas ou anestesias
Que causam pranto ou, num canto, solidão
Além do medo de se machucar novamente
Entre todos eles, o machucado mais doloroso
A ferida mais difícil de cicatrizar
Que demanda mais tempo e coragem
É aquela causada pelo (des) amor
Simplesmente, porque é de onde a gente menos espera o golpe
Pega-nos desprevenidos, distraídos, confiantes.
Aí atinge fundo, rasga, mutila, deixa marcas, cicatrizes.
Mas quando se convalesce, se recupera, fica mais forte
E recomeça tudo… Novos riscos!
Contra o (des)amor não há vacinas!
Alda M S Santos
RESPOSTAS
Muitas são as questões nessa vida,
Maiores ainda as variedades de respostas!
Quando a questão é a indiferença, a tristeza, a apatia
Nossas respostas podem ser idênticas à questão,
Ou também podem vir em forma de revolta, bom humor, energia
Se a questão que se apresenta for a raiva, a rebeldia, a intolerância,
Pode-se obter esses mesmos itens como resposta,
Mas é possível haver também o silêncio, a calma, a alteridade.
Quando a questão é o carinho ou o amor acontece o mesmo.
Muitos responderão com carinho e amor em diferentes intensidades.
Porém, há aqueles que responderão com indiferença, repulsa
Afastamento e até mesmo certa rispidez.
As respostas que damos ao que se nos apresenta
Dependerá, em parte, de quem nos faz o questionamento
E, a maior parte, do que temos em nós.
Questões quase sempre são as mesmas
Existem para nos instigar, nos provocar, nos acordar
O que difere nas respostas que oferecemos
São as fórmulas e dados de que dispomos para resolvê-las em nós.
Quem não aprecia a raiva ou indiferença,
Dificilmente responderá com raiva ou indiferença.
Quem não “reconhece” o carinho ou o amor,
Terá sérias dificuldades em reconhecê-lo numa “questão”
Para oferecer resposta à altura.
Porém, uma vez aprendido, sentido e reconhecido
Ninguém ficará imune a ele.
É contagioso e incurável.
Ainda bem!
Alda M S Santos
AI, QUE VONTADE QUE DÁ!
Uma fonte numa linda praça no centro da cidade
Um calor de lascar, uma criança seminua a correr na água e voltar
Um ciclista a se refrescar
Jovens “malucos” a correr na água e a sorrir…
Ai, que vontade que dá!
Uma senhora que te abraça e te aperta
Que segura sua mão, conta sua história e se lamenta, carente de afeto
Quer você, precisa de você, confia em você,
Como se te conhecesse a vida toda.
Ai, que vontade que dá!
Uma criança que te sorri, te chama a brincar, a pular, a contar-lhe uma história.
Ai, que vontade que dá!
Um amanhecer claro, ensolarado, poucas nuvens brancas a correr no azul do céu,
Deitar-se no chão, sentir o calor do sol aquecer cada parte de seu corpo e agradecer a vida.
Ai, que vontade que dá!
Um domingo inteiro pela frente, sem nenhuma programação, livre, a ser preenchido como quiser…
Ai, que vontade que dá!
Alda M S Santos
NUM LAR
A vida inteira num lar
Com pais, irmãos, avós, primos
Companheiros, filhos, sobrinhos…
Ou uma vida dedicada à família dos outros,
Que cresceram, se foram, não precisam mais deles
De repente, não há mais lar, ou familiares, ou amigos…
A solidão é a fiel companheira
E surge um novo lar…
Cuidados, novas pessoas, talvez novas amizades…
Algumas atividades, visitas esporádicas…
Pra que ainda estou vivendo?- alguns se perguntam.
Tenho onde morar, estou aqui porque quero!-dizem outros.
Meu sobrinho quer vir me ver, a mulher dele que não deixa! – afirma outra.
Gosto de vocês aqui, alegram nosso dia!- diz outra sorridente a cantar.
E assim a vida segue…
85, 99, 102 anos de idade.
O que querem? O que esperam?
Algo que o dinheiro não compra:
Atenção, um toque, um carinho, ouvidos, ombros…
Só isso!
Que possamos cuidar de nossos idosos!
Que tenhamos quem cuide de nós quando chegar nossa vez.
A maior pobreza é a falta de carinho.
Alda M S Santos
VOCABULÁRIO
Três jovens conversavam no metrô
Fiquei deveras encabulada com a riqueza do vocabulário
“Catiando, pagar vecha, cair na pilha, pera, os cana, fulerage”
Fiquei na dúvida se era mesmo o português que falavam!
Tudo bem! Se eu estivesse envolvida no papo,
Se o contexto me dissesse algo, até poderia entender.
Alguns vocábulos eram mais comuns:
“Tá ligado, sacô, birita, mina, pinta, carango, pela saco…”
Mas “sapeco, larica, cabrito, bobó…”
Desisto!
Dois rapazes e uma moça se faziam entender.
Riqueza de vocabulário? Talvez!
Fiquei a me perguntar se conseguiriam se comunicar de modo mais “normal”,
Ou se, na verdade, eu é que estava fora do padrão.
Olhei para os lados, ninguém parecia se importar.
Fones nos ouvidos, olhos fechados, digitando nos celulares…
O trem parou e um rapaz saiu:
“Dá um rolé, seco numas marola”!
“ Vá lá noiado”!
Tchau, até mais, adeus, até a próxima…
Alda M S Santos
OUTRO OLHAR
Outro dia li que devemos ver as coisas que não nos agradam sob uma nova perspectiva.
Sempre deveríamos tentar um ângulo novo, outro olhar, uma nova possibilidade.
Tentei aplicar esse “conselho” ao que via naquele momento.
Um ser humano jazia no asfalto, virava e se ajeitava, fazia-o de cama.
Passei, olhei, pensei: “tristeza viver assim, dói na gente”.
Uma avenida perigosa, carros, motos, ônibus e caminhões para todo lado.
Pessoas passavam apressadas, como eu.
Retornei, quis tentar um novo olhar.
Deve ser uma possibilidade para eu fazer algo, pensei.
Bem assim na minha frente! E não é a primeira vez!
Pensei no meu marido a dizer para não me meter, tomar cuidado, que tudo é perigoso!
Cheguei mais perto, devagar. Abaixei-me, chamei, cutuquei.
Ele se virou, se ajeitou, como se estivesse sobre seus travesseiros macios.
Chamei outra vez. Ele abriu os olhos, mas não parecia me ver.
Perguntei se precisava de algo. Claro que precisava!
Mas a gente fica meio impotente, sem saber o que dizer.
Ele riu meio sem entender e tentou se levantar.
Perguntei se queria que o ajudasse a ir para casa, onde morava.
“Por aí! Pode me pagar uma branquinha, branquinha?”
Riu da própria associação e repetia: uma branquinha, branquinha!
Falei: “Pago um prato de comida, te ajudo a ir pra casa, mas pinga não pago.”
“Então, não quero nada, branquinha! Me deixa dormir quieto aqui!”
Resmungando enrolado se ajeitou de novo em sua “cama”.
Segui meu caminho meio inconformada.
Ouvi ainda umas pessoas dizerem: “é bêbado, deixa para lá, moça!”
Mas venci meu medo e tentei ver com outro olhar.
Um dia dá certo! Pra mim e pra eles.
Alda M S Santos
DE QUANTAS HISTÓRIAS SE FAZ NOSSA HISTÓRIA?
Rimos de chorar esses dias, minhas irmãs e eu!
Extremamente prazeroso lembrar episódios da infância
As artes, as birras, as surras, a cumplicidade de irmãos
As rixas, os ciúmes, as dificuldades, o amor acima de tudo.
Ou da adolescência, as incertezas, os medos, a baixa autoestima,
A incerteza do ser adulto ou ser infantil, espremido entre ambos.
Os amigos confidentes, os primeiros beijos e paixonites
A vida adulta, os compromissos, as responsabilidades…
Tantas são as histórias! Tão ricas de emoções!
Relembrá-las é viver de novo, com uma nostalgia boa
Sem os sofrimentos! Se possível com quem as viveu conosco.
Estes, mesmo se lembrados, já não doem tanto.
O que ficou foi a certeza de ter vivido algo especial
Com pessoas especiais,
Ainda que não façam mais parte do nosso convívio!
Minha história é feita de muitas histórias,
E muitos e valiosos personagens!
E a de vocês?
Alda M S Santos
SOMOS RESPONSÁVEIS!
Tinha um homem no meio do caminho
Não um caminho especial,
Ou bonito, arborizado, gramado ou fresquinho
Piso de cimento quente, sob o sol, atrás de veículos,
À vista de todos
Sem ser realmente visto por ninguém!
Não era um ser humano, um alguém
Era um homem qualquer
Jogado num caminho qualquer,
Abandonado por outros seres humanos(?) quaisquer,
Somos responsáveis!
Alda M S Santos
AMOR, AMAR!
Amor é substantivo abstrato, pois designa um sentimento:
“Amor é dor que desatina sem doer”
Amor é adjetivo, pois qualifica um ser agradável:
“Ela é um amor de pessoa”!
Amor é objeto direto, pois completa o sentido do verbo:
“Não há quem não goste de fazer amor”.
Amor é advérbio de modo, pois modifica o verbo:
“Cuida dele amorosamente, independente do que faça”.
Amor é sujeito: aquele que age sobre o verbo
“O amor cura todas as feridas”.
Amor é predicado: o que se diz sobre o sujeito:
“Aquele senhor não é muito amoroso!”
Mas principalmente, o amor é verbo.
Ele não poderia ser mais nada se não sofresse nossa ação direta ou indireta.
Amor é construção diária! Eu amo, tu amas, ele ama!
Eu sofro, tu és feliz, ele acredita! Não importa!
Verbo amar! Quero conjugar!
Em todos os tempos, modos, vozes e espaços!
Alda M S Santos
AVALIAÇÃO FÍSICA
Fazer uma avaliação física e de condicionamento pode ser meio desconcertante,
Mesmo com todo o cuidado do profissional e desenvoltura da paciente.
Conversas amenas, faz-se uma anamnese, histórico físico e de saúde geral.
Mas o fisioterapeuta avalia cada detalhe
Frente, verso, laterais, pra cima, pra baixo,
Andando, indo, voltando, abaixando, esticando, dobrando,
Quase do avesso…
Olhar atento, clínico, profissional, mas incomoda.
Procura por defeitos, por falhas, algo que não se encaixa
Ou que se encaixa inadequadamente.
Aperta aqui; dói? Aperta ali: e aqui?
“Claro, caramba! Tá apertando!”
A verdade é que não é agradável ficar sob escrutínio.
Hiperlordose lombar, cervicalgias, joelhos valgos, desnível dos ombros
Ixi! Virei um ET e não percebi!
Bicicleta ergométrica, um calor de matar, suor escorrendo.
Batimentos cardíacos medidos em atividade e em repouso.
Medição de massa magra e de gordura.
“Você está ótima. Pressão normal, coração batendo, não apanhando,
Musculatura forte. Precisa apenas fortalecer mais um pouco os músculos,
Talvez perder uns três quilos. Continue a hidroginástica.
Comece musculação e pilates”.
Ah, bom! Três coisas só! Se estivesse mal iria morar na academia.
Brincadeiras à parte, a saúde vai bem, obrigada.
Apenas desgastes que o tempo causa e a gente deve cuidar.
Toda “máquina” precisa de reparos e manutenção.
Cuidar é nossa obrigação!
Alda M S Santos.
E O DIA DO HOMEM?
Perguntaram-me: por que Dia da Mulher, se não existe Dia do Homem?
Ao longo da existência humana a mulher sofre tudo quanto é tipo de preconceitos e estereótipos.
De criatura menos inteligente, inferior, objeto e serva do homem, percorreu um longo caminho para ter hoje direito a vez, voz, voto, valor…
Tem uma profissão, seu espaço como cidadã, mãe, esposa/amante.
É um ser independente física, financeira e emocionalmente.
Não sou feminista e não prego superioridade de qualquer dos gêneros.
Sou feminina, de rosa ou azul, pilotando o fogão ou um carrão e, como tal, defendo que homens e mulheres são seres iguais em direitos e deveres, cada um com suas semelhanças, diferenças e individualidades.
Ambos são complementares entre si, não apenas em sua anatomia, mas em todas as áreas.
Hoje, o desafio da mulher é enfrentar as inúmeras cobranças, inclusive as próprias, de indivíduo multifuncional.
Não exigir tanta perfeição de si mesma como mãe, esposa, profissional, amante, dona de casa…
E, além de tudo, estar sempre magra, linda, perfumada e sorridente. O dia é de reflexão para todos.
Um VIVA A TODAS AS MULHERES e homens que se amam como filhos do mesmo Criador e se respeitam acima de tudo.
Alda M S Santos
MULHER!
Ser humano do sexo feminino
Bela, mas que pode ser fera
Encantadora, mas que assusta
Frágil, mas de força descomunal
Levanta ou derruba com um olhar
Capaz de ser colo enquanto pede colo
Emoções de tirar o fôlego ou devolver o ar.
Submissa? Só se quiser!
Parceira? Pra quem merecer!
Inteira, mas que se faz metade
Para ter o prazer de completar e completar-se,
Sendo a metade de outro alguém.
Simplesmente, Mulher!
Alda M S Santos
NEM TUDO QUE RELUZ É OURO
Quando queremos valorizar algo falamos que reluz
Que brilha, que tem o tom certo, que ofusca os demais
Gostamos de brilho!
Porém, nem tudo que reluz é ouro.
Há muito caco de vidro por aí se fazendo passar por diamante.
Devemos tomar cuidado, não nos entusiasmar demais.
Muito entusiasmo pode botar tudo a perder
Cegar nossa percepção visual, emocional
Impedir de ver o brilho e valor interno
Há pedras preciosas foscas aos montes
E, quase sempre, são mais valiosas
Que os cacos de vidro por aí.
Estejamos atentos!
Alda M S Santos
UM PASSO DE DANÇA
Sentir-se flutuar, fazer parte do ar
Estar dentro, mas livre
Estar fora, mas presa na magia
Em cada acorde, um movimento em sincronia
Em cada passo, uma expressão, um dizer com o corpo
A comunhão é do corpo com a música
A harmonia é da alma com a melodia
Afinam-se enquanto se completam
Até nos erros sintonizam-se.
Precisam-se!
Ela e a melodia tornam-se uma só
Num simples passo de dança…
Alda M S Santos
ENTRE PINGAS E RESPINGOS
São oito horas da manhã, terça-feira
Descalço, sem camisa, bermuda suja, larga e caindo
Pernas abertas, cambaleia de um lado a outro pela padaria
Fala alto, ri, ininteligível, fala para si mesmo.
Tenta alcançar uma água tônica na prateleira
Trabalho difícil, exige muita concentração e equilíbrio
Itens em falta!
Quase cai sobre mim
Alcanço a água tônica e a entrego a ele
Sorri, sorriso vazio, de dentes e de alegria.
Um senhor o interpela
“Bêbado a essa hora, José?”
Ao que ele retruca alto e sorridente:
“Bê-ba-do, não! Tô fe-liz”!
E sai porta afora medindo os cantos da rua.
Entre pingas e respingos vai vivendo
Não tem sexo, idade, trabalho ou identidade, é um bêbado.
Tudo perdeu…
Mas, “tô feliz”!
Que tipo de vida ruim tem uma pessoa para se considerar melhor assim?
Tô triste! Respinga em mim!
Alda M S Santos
APENAS O QUE TEMOS
O que somos capazes de doar?
Oferecer gratuitamente a conhecidos ou desconhecidos?
A familiares, amigos, amores?
Um sorriso acolhedor, um olhar compreensivo?
O ombro, o colo, o silêncio?
Um abraço, um beijo, um pão com queijo?
Palavras de conforto e estímulo?
Um chocolate, um beijinho melado, uma rosa, uma oração?
Um teto, uma cama, um lar, um coração onde morar?
Tudo isso, nada disso? Apenas dinheiro?
Por mais desejo que a gente tenha
Só podemos doar aquilo que temos em nós.
Risco de ficar desabastecido não há.
O que se doa, multiplica-se!
Alda M S Santos