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Fases e faces

FASES E FACES
Fases, faces, brilho e sombra
Prerrogativas da Lua, das pessoas
Minguante, minguando, definhando em C invertido
Um ser recolhido perdendo luz, abraçando sombras, até ser Nova
Sombra total, escuridão, brilho oculto na outra face
Aquela escondida de todos, preservada, um ser em tempo de esperas
Sol, Lua, céu, pessoas…
Fases: construção do novo, maré, podas, plantação
Crescente, crescendo expectativas, alimentando esperancas, recebendo luz até ser Cheia, redondamente linda
Cheia de si, de brilho e orgulho, transparência
Sol, Lua, céu, pessoas…
Fases… dos seres vivos, dos amantes
Toda sombra esconde um brilho
Todo brilho esconde uma sombra
Fases, faces, brilho e sombra
Prerrogativa da Lua, das pessoas
Minguando, se escondendo, crescendo, aparecendo
Enquanto houver céu e sol
Dentro e fora de nós…

Alda M S Santos

Fecho os olhos

FECHO OS OLHOS

Fecho os olhos quando não quero ver algo

Fecho os olhos quando quero me isolar do exterior

Fecho os olhos quando quero ver melhor

Fecho os olhos quando quero me conectar com meu interior

Fecho os olhos quando não quero ver o que é feio, o que magoa

Fecho os olhos fingindo não ver, não perceber, não saber ou sentir

Fecho os olhos para me proteger do desamor, das decepções

Fecho os olhos quando quero ver o essencial

Fecho os olhos para ver com outros sentidos

Fecho os olhos para ver a brisa leve arrepiar a pele

Fecho os olhos para ver as ondas batendo nas pedras

Fecho os olhos para ver o voo livre das gaivotas

Fecho os olhos para me aquecer nos primeiros raios de sol da alvorada

Fecho os olhos para absorver bênçãos, para potencializar o bem

Fecho os olhos quando quero ver com os olhos do coração

Como num beijo de amor e entrega

Que tudo vê e sente com os olhos da alma…

Fecho os olhos, tudo vejo, tudo percebo…

Feche os olhos!

Alda M S Santos

Marcas do caminho

MARCAS DO CAMINHO

Há caminhos que escolhemos

Bonitos, diversos, floridos, claros, com fontes refrescantes

Mas que apresentam pedras e buracos a transpor

E há caminhos que nos escolhem, se impõem

Por vezes tranquilos, em outras verdadeiras provações

A ambos imprimimos nossas marcas, deixamos nossas pegadas

Leves, fáceis ou nem tanto para quem vem atrás

Ou pisamos nas pegadas alheias, apagando-as

Preguiça de construir as próprias marcas, dar os próprios passos

Destruindo o que outro construiu com sacrifício

Ou, ao contrário, completando as pegadas alheias

Com sabedoria, amor, perdão e generosidade

Construindo um mundo melhor…

Esses caminhos são os mais gratificantes!

Alda M S Santos

Deliciosos paradoxos

DELICIOSOS PARADOXOS

O corpo tão “morto”, tão cansado, tão pesado

Que tem dificuldades para relaxar e descansar

Em contrapartida, a alma tão viva, tão leve, tão agradecida

Que quer curtir, relembrar mais um pouquinho os bons momentos

Assim funciona o ato de doar-se em prol de alguém

Fraternidade e generosidade renovam esperanças de um mundo melhor

Mais humano, menos violento, mais amoroso

Quem dá ou recebe já não se sabe, não se identifica

E não importa, todos ganham!

Alda M S Santos

Muletas e braços

MULETAS E BRAÇOS

Ora braços, ora muletas

Esse é o rodízio, essa é a alternância da vida

Quem está acostumado a ser apenas braços

Terá dificuldades quando precisar se tornar muletas

E a recíproca também é válida

Braços se apóiam, precisam da segurança da muleta

Para manterem firme o corpo todo

Precisam confiar no apoio que recebem para se entregar

Para não tombar…

Muletas precisam ser fortes e aguentar o peso

Suportar com firmeza o corpo que recai sobre elas

Enquanto forem necessárias!

E a vida segue sempre em frente

Ora braços, ora muletas

Ora caminhos, ora caminhantes

Ora fragilidade, ora força

Ora ombros, ora cabecinha…

Alda M S Santos

Blindados?

BLINDADOS?

Há como nos blindar dos golpes da vida

Ou sempre existirá algo a nos ferir

Até mesmo dentro de uma bolha

Para onde, vez ou outra, preferimos fugir?

Um amigo doente, alguém querido ausente

O emprego que falta, a injustiça que maltrata

Famílias que tentam se preservar, unidos para não tombar

Velhos esquecidos, largados, crianças com um péssimo legado

Alguém que decepciona, a fé que às vezes abandona

A morte que não tem critérios, a vida com poucos refrigérios

Humanos vivendo blindados pelo egoísmo

Humanos atingidos pelo próprio individualismo

Blindados?

Até quando vamos querer nos blindar da vida

Sabendo que é assim, absorvendo tudo que ela apresenta

Do jeito que damos conta, golpeando ou sendo golpeados

Que ela é verdadeiramente vivida?

Alda M S Santos

Nublado

NUBLADO

Quero um dia inteirinho de chuva

Daqueles cujo céu fique totalmente encoberto

Chuvinha constante, ora fininha, ora mais intensa

Daqueles que nos “autorizem” a ficar o dia todo sob as cobertas

Sem precisar justificar, sem precisar de um porquê

A nostalgia e introspecção comuns desses dias nos liberam para tal

Eles são, por si só, a razão do recolhimento

Sentindo o friozinho úmido lá de fora, as gotas da chuva escorrendo na janela

Cheirinho de terra molhada, flores agradecidas, pessoas correndo

Escondendo-se sob as marquises, dividindo guarda-chuvas

Umas felizes, outras praguejando, esbravejando

Os abraços molhados, os encontros, os reencontros

O amor, a saudade de infância que sempre fica no ar…

Crianças sempre amam, andam nas enxurradas, nada temem

Adoro observar as pessoas em dias assim

O cinza molhado ativa as cores ou ausência delas nas pessoas

Os cães sequer saem das casinhas

O bem-te-vi por certo também está em “casa”

Um pijama macio, uma meia velha, cabelos revoltos, uma xícara de chá

Um livro, um filme ou uma música

Uma história para escrever…

Sei lá…

Dias nublados e chuvosos são dias muito produtivos

Ainda que o produto seja apenas interno e invisível aos olhos de fora…

Alda M S Santos

Ao pó voltarás

AO PÓ VOLTARÁS

Do pó viestes, ao pó voltarás

Profetiza a sagrada escritura

Real, ainda que pareça dura

Entre a vinda e a volta ao pó

Entre o choro feliz da chegada

E o choro sentido da partida

Muita água passa debaixo dessa ponte

Muita poeira é levantada

Muita alegria celebrada

Muitas dores sanadas

Na volta ao pó tudo se iguala

Todos enfileirados, todos pó sob pó

Ali não se separa sexo, idade, etnia

Religião, cultura ou bens materiais

Todos são pó, todos viram pó!

Igualdade ainda que tardia!

Entre pó, entre lápides, nomes diversos

Quantas histórias poderiam ser contadas e escritas dali?

Nomes desconhecidos, registros de alguém que passou por aqui

Amou, foi amado, sofreu, causou sofrimentos, viveu…

Foi feliz ou nem tanto, deixou marcas!

Flores mortas no caminho, um carinho, lembranças…

Datas de chegada e partida

Jovens ou velhos, não há critério ou escolha

É chegado o momento! Sem morbidez!

Todos iguais ao menos ali

A diferença está no que deles ficou em cada coração

No que cada alma leva consigo

Do pó viestes e ao pó voltarás!

Alívio ou tormento isso gera?

O que em nós não se tornará pó?

O que a alma carrega consigo nunca será pó!

Essa é a verdadeira diferença que não se nota ali…

Esse é o registro que nunca se apagará

Mesmo depois do descanso eterno…

Alda M S Santos

Submergindo

SUBMERGINDO

Submergindo vemos um mundo novo

Quanto mais fundo, mais tranquilidade

Novas vidas no entorno, novo olhar

Ainda que no movimento incessante do lugar

Respiração agitada que vai se acalmando

Deslumbramento, leveza, encantamento total

Silêncio que tranquiliza, reinado de paz

Seguimos a vida que ali se apresenta…

Submergindo vemos um mundo novo

Devagar, a princípio, no interior de nós mesmos

Muitos barulhos confusos, amedrontados ou desafiadores

Tentamos entender ou ignorar o que percebemos

Não sabemos lidar…

Vamos submergindo mais e mais…

Quanto mais nos recônditos de nós mesmos chegamos

Ora escuro, cinzento, ora em muitas cores e dores, cicatrizes

Mais entendimentos, mais clareza, mais fazemos as pazes conosco

Mais desejo de ali ficar, submersos em nós para sempre…

Paz!

Alda M S Santos

Quebra-cabeça

QUEBRA-CABEÇA

Imagino que Deus tenha diante de si um quebra-cabeças gigante

Daqueles de milhares e milhares de peças

De todas as cores, tamanhos e formatos

Que Ele vai escolhendo uma a uma, montando, encaixando com amor e cuidado junto conosco

Respeitando nossas decisões e escolhas…

Sabendo do que realmente precisamos

Ele encaixa peças importantes, disponibiliza outras, retira umas completamente fora de contexto

E nós daqui tentando encaixar o que não cabe, bagunçando tudo

Entortando peças, inutilizando umas, estragando outras

Quando nosso quebra-cabeças estiver difícil de montar

Paremos um pouco, aguardemos, respiremos fundo

Melhor colocá-lo sobre a mesa e esperar

Deixar espaço para enxergar as peças que Ele tira e coloca à nossa disposição

Ele tem a visão geral de interdependência que nós não temos

Ele sabe a peça que nos falta, a que sobra

As peças que não são do nosso tabuleiro

Que nunca se encaixarão, são de outro quebra-cabeças

Às vezes o agir consiste em parar e esperar

Aguardar a peça faltosa, abrir mão daquela que está torta

Isso é sabedoria e maturidade!

Alda M S Santos

Qual nosso limite?

QUAL NOSSO LIMITE?

Numa única vida, de um único ser

Existe um limite daquilo que ele consegue lidar, suportar

Sem se derrubar, sem pedir trégua?

Quantas causas consegue abraçar

Quantas amizades é capaz de dar atenção, tempo, cultivar

Quantos necessitados logra ajudar, se preocupar, estender a mão

Quantas lutas tem forças para travar

Quantas guerras dá conta de apaziguar

Quantas decepções e mágoas consegue abrandar sem ensandecer

A quantas pessoas está apto para amar, se entregar, se doar

Tudo isso de modo verdadeiro e intenso, sem enlouquecer

Sem detonar a si mesmo, sem deixar ninguém na mão?

Existe um estoque que vai baixando

Ou é como mina d’água que, se protegida pelas matas ciliares, jorra sem parar?

Temos matas ciliares o bastante, temos lençol freático extenso?

Qual nosso limite?

Alda M S Santos

Um dia de cada vez…

UM DIA DE CADA VEZ

Quando a felicidade estiver muito próxima da tristeza

Quando a força exigida para manter-se de pé

Estiver fragilizando ainda mais as pernas

Melhor deixar-se “cair”, reconhecer-se frágil

Talvez até impotente naquele momento

Sentar-se à beira da estrada, descansar de tantas dores e cobranças

Dos outros, de si mesmo, principalmente

Abastecer-se de fé e coragem, reconhecer-se humano

E quando a força for chegando aos poucos, se renovando

Levantar, voltar a seguir, um passo de cada vez, degrau por degrau

Lembrando do aprendizado que ficou para não cair ou derrubar novamente

Construindo pacientemente um novo caminho para si

Nem tão longo, nem tão difícil ou penoso

Abrindo os olhos para a luz que se apresenta à frente

Enxergando e vencendo apenas um dia de cada vez…

Alda M S Santos

Errar é humano?

ERRAR É HUMANO?

Errar é tão humano que há erros para todos os tipos de humanos

O erro inovador, aquele que se comete ao enfrentar algo diferente do costumeiro

“Isso tudo é novo para mim”

O erro insistente, velho conhecido, aquele que bate na mesma tecla, não desiste

“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”

O erro ingênuo, aquele que espera sentado ser contemplado nas voltas do mundo

“O que for meu virá até mim…”

O erro otimista, aquele que treina e teima no mesmo propósito

“A prática leva à perfeição”

O erro pessimista, aquele que desistiu de lutar

“A vida é cruel, tentar pra quê?”

O erro revoltado, injustiçado, aquele que se julga o preterido do mundo

“Nada cai do céu, tomo o que eu quero!”

O erro anjo da guarda, bom samaritano, aquele que erra em prol dos outros

“Era apenas para ajudar ou proteger fulano”

O erro vidente, aquele que prevê o final desastroso e insiste

“Eu sabia que só poderia dar nisso”

O erro original, aquele que só você é capaz de cometer

“Tantos erros novos para cometer, para que insistir no mesmo?”

O erro avalanche, aquele que sai derrubando e levando todos a sua volta

“Sai da frente que estão me empurrando…”

O erro “solidário”, aquele que não gosta de errar sozinho, sempre carrega alguém consigo

“Mas não fui só eu que errei”

E o erro reincidente, persistente, vítima, travestido, cigano e volúvel

Aquele que parece ser novo, mas muda apenas o endereço e o parceiro envolvido

O erro continua o mesmo…

“Eu não queria isso! Como vou explicar para os outros?

Errar é mesmo humano

Aprendemos muito mais com erros do que com acertos

Desde que saibamos aproveitar suas lições

Caso contrário, apenas mudaremos os erros de lugar

E envolveremos novas pessoas…

Errar é humano, mas não é legal que se torne desumano!

Alda M S Santos

Fim de semana

FIM DE SEMANA

Sexta, sábado e domingo

Dias da semana associados a prazer e alegria

Fugida da rotina, da corrida frenética por não se sabe o quê

Descanso, sossego, lar, soneca, churrasco, família para alguns

Baladas, noitadas, bebidas, passeios, viagens, grandes programas para outros

Solidão, televisão, um livro, igreja, músicas para outros

Um novo vocábulo surge: “sextou”

Dando início a algo “novo e maravilhoso”

Euforia total que leva muitos que não seguem a corrente ao desespero

À tristeza com gosto amargo de solidão e abandono

A medicamentos controlados, alucinógenos, drogas

É quando o autoextermínio mais aumenta

Entre aqueles que se enfurnam a fazer um balanço da vida

E, frustrados, “invejam” o que os outros “têm” ou estão fazendo

Em quantos se divertem, comem pipoca debaixo do edredom

Vão a cinemas, viajam, fazem amigos, fazem amor…

Mas a balança estraga, pesa só o negativo para si e o positivo para os outros

E, paradoxalmente, os vazios são muito mais pesados

Focar no que é, aparentemente, presença no outro

É evidenciar a ausência em si mesmo

E isso acaba sendo doentio e ineficaz

Não existe nada e nem ninguém tão feliz e tão completo

Nem tão infeliz e tão incompleto

Comparações não são benéficas, são contraproducentes

Nada há de errado com o fim de semana de ninguém

Desde que nele se busque estar em paz consigo mesmo, sem ferir ninguém

Independente das vidas alheias

Todos estamos nesse grande barco aprendendo a remar, a nadar…

Até o cais final…

Alda M S Santos

A um abraço de distância

A UM ABRAÇO DE DISTÂNCIA

Para que precisamos buscar tantas coisas?

Para que nos desgastamos tanto para adquirir objetos que nem necessitamos

Roupas, carro, casa, passeios

Para quê?

Para que lutamos tanto por pessoas ou situações que não são nossos

Não precisam de nós, não nos querem

Se tudo isso sozinho de nada vale e traz sofrimentos

Para quê?

Se tudo que nos faz bem, nos faz felizes

Se tudo que acalenta nossa alma carente de verdades e simplicidade

Enternece nosso coração, alarga nosso sorriso

Não estiver a um abraço de distância

Ao alcance de nossos braços quentes

Cuidado com carinho em nossa mente e coração?

Alda M S Santos

#carinhologos

Anti-Gênio

ANTI-GÊNIO

Chateada com a vida ela tropeça numa lâmpada e a chuta longe.

Sem esfregadinha a lâmpada se acende e logo um gênio cansado aparece.

“Oba! Já sei! Tenho direito a três pedidos!” -ela diz

“Sou o Anti-Gênio, vou retirar três coisas de você!”- ele fala impassível.

“Como assim?”- ela se assusta

“Vou levar três coisas suas, mas deixo você escolher quais.”- retruca

“Mas não tenho nada valioso que você possa querer”

Ela reclama, pede, implora…e nada…

“Se você não escolher eu levo o que quiser”- rebate.

E na lâmpada vão aparecendo as cenas da sua vida

Presas na lâmpada longe dela tudo que pretende destruir

Com as pessoas que ele pretende levar:

Seus pais cuidando dela com carinho

Os irmãos brincando com ela na rua de terra

Os amigos queridos da escola, da igreja

Seu casamento, seu parceiro de todos os dias

Os filhos queridos, tão lindos, tão seus, tão pequenos ainda…

A saúde, a disposição para o trabalho

As amigas sempre presentes…

A cada cena que passava ela chorava e dizia: “isso não”!

“Por que você não procura alguém com muitos bens”?- desabafou

“Isso eu já tenho, quero coisas valiosas”…

“Mas tudo isso é valioso apenas para mim! De que servirão para você”?

“São valiosos para você? Achei por aí….”- pergunta o Anti-Gênio

Ela não sabia o que dizer temendo afirmar que sim, que eram muito valiosos

E ele levar a todos…

“São tudo que eu tenho, não quero mais nada, apenas que fiquem comigo”…

Ela estendeu a mão e foi tocando com carinho as cenas na lâmpada

Cada uma que tocava ia desaparecendo

Voltavam para dentro de si…

E o Anti-Gênio, sem nada mais dela preso em sua lâmpada,

Foi em busca de outras coisas valiosas perdidas de seus donos…

Tudo é tão leve, tão fugaz

E pode escapar de nossos dedos e ir embora a qualquer momento…

Alda M S Santos

Nossos rastros

NOSSOS RASTROS

Nesse ora tão longo, ora tão breve caminho da vida

Seguimos as marcas deixadas por nossos antecessores

Em forma de pegadas, de palavras, de registros escritos

Um sentimento, um exemplo, um sinal qualquer a nos guiar

Nem todas as marcas são positivas, mas ensinam

Percebemos as que não levam a lugar algum

As que são voltas desnecessárias

As que levam para um beco sem saída

As que nos jogam num buraco perigoso

As que são certeiras e relaxantes

As trilhas que precisam ser reconstruídas

Algumas mudam, deixam de ser adequadas

Surgem outras mais tranquilas ou mais difíceis

A nós cabe o discernimento para fazer a melhor escolha

Não devemos nos esquecer que somos deles sucessores

Mas que somos antecessores daqueles que vêm atrás de nós

É uma caminhada feita há milênios

E outros quantos milênios virão?

Nossa tarefa é melhorar a trilha e as marcas sempre

Precisamos seguir…

Nem que seja para não decepcionar quem já foi

Ou quem ainda vem em nosso encalço seguindo nosso rastro…

O brilho de nossa luz…

Alda M S Santos

Tesouros

TESOUROS

De tudo que é passível de perdas na vida

Dinheiro, emprego, casa,

Carro, joias, objetos preciosos

Nada gera mais dor e arrependimento

Nada pesa mais nas costas e encurva o andar

Nada tira mais o brilho do sorriso ou ofusca o olhar

Que a perda dos tesouros que não têm preço

Cuja falta desvaloriza qualquer outro “bem” adquirido

E que muitas vezes foi oferecido gratuitamente, negligenciado

Ignorado, não conservado, inviabilizado

A saúde do corpo e da mente

A fé em algo maior e superior que olha por nós

A capacidade de ser grato à vida em nosso entorno

Nas mais variadas formas de luz e beleza

Um olhar de aceitação e bondade de alguém querido

A utilização de modo solidário dos dons

Uma amizade verdadeira, desinteressada e sempre solícita

Uma vida de dedicação e cuidado recebidos daqueles que nos cercam

Um amor incondicional, que sobrevive às adversidades

Utilizando-as como adubo para deixar o broto do bem fortificar

E gerenciar sabiamente, equilibradamente, a esperança

Apesar, ou por causa, dos balanços, do ir e vir

Dos ganhos e perdas que todos temos…

Os tesouros mais difíceis de se perder não se guardam em baús ou bancos

São aqueles que, bem leves, carregamos na alma e no coração…

Alda M S Santos

De quantos?

DE QUANTOS?
De quantos nãos se faz uma decepção
De quantos medos se faz uma coragem
De quantos abandonos se constrói uma muralha
De quantas valentias e covardias se fazem um herói 
De quantos tanto faz se faz um desistir
De quantos passos trôpegos se faz uma marcha firme
De quantos cuidados o amor se alimenta
De quantos sorrisos se faz um encanto
De quantas lágrimas a saúde emocional sobrevive
Quantos abrir mão o amor é capaz de suportar
Quantas descargas emocionais o coração aguenta sem sofrer um colapso
De quantas promessas não cumpridas se faz um desamor
Quantos “felizes para sempre” somos capazes de destruir, incólumes
De quantos mergulhos rasos se faz uma vida superficial
De quantos “tudo bem” se molda uma máscara
De quantas demolições internas e externas precisamos para reconstruir
De quantas saudades se faz um existir?
De quantos(as)?
Gostaria de saber…
Alda M S Santos

Quem não entende

QUEM NÃO ENTENDE

Quem não entende um olhar

Tampouco entenderá uma longa explicação,

Diz Mário Quintana.

Um olhar é capaz de dizer praticamente tudo

Para pessoas dotadas de sensibilidade

Ainda que não possam ler tudo escrito naquelas “linhas” do olhar

Que muitas vezes se desvia

Podem sentir, imaginar, calcular, intuir

Particularmente se é um olhar já conhecido

Um coração que dividiu consigo sonhos, esperanças e medos

E, a partir daí, conversar, agir, sorrir, chorar

Brigar, cobrar, orientar, sofrer junto

Estar perto, oferecer o ombro, o colo, a compreensão

Quem no olhar, ou no tom de voz, identifica uma dor

Num “tudo bem” vê um “to sofrendo”

Num silêncio ouve gritos

Nos gritos ouve a alma despedaçada que silencia

Numa meia palavra entende todo o texto

Num sorriso alegre para muitos

Percebe a sombra dolorosa que tira o brilho

É quem sequer precisaria de palavras para ajudar

Apenas abraça, se não for possível, protege na oração

Almas afins…

Alda M S Santos

Tic tac, tic tac

TIC TAC, TIC TAC

Tic tac, tic tac

O tempo passa para todos

Passa sempre, implacável

Tic tac, tic tac

Passa lento, vagaroso, doloroso

Na ansiedade de quem o marca

Na dor de quem deseja acelerá-lo

Na tristeza de quem não consegue retomá-lo

Tic tac, tic tac

Passa rápido e rasteiro

Na alegria excessiva de querer contê-lo

Na preocupação paralisante de não querer perdê-lo

No prazer intenso do existir e limitante do agir

Tic tac, tic tac

O tempo passa para todos

Passa sempre, implacável

Tic tac, tic tac

Passa o tempo todo o tempo

Passa o tempo no tempo certo, ideal

Nos momentos em que não é notado

Passa melhor para quem não se preocupa com ele

Vive com a sabedoria de sabê-lo finito

Mas age com a dedicação e intensidade

Amor e doação, como se o tivesse infinito…

Tic tac, tic tac

Passa o tempo, o tempo passa…

Vou vivendo…como sei…aprendendo…

No ontem, no hoje, no sempre…

Alda M S Santos

Barreiras que nos salvam de nós mesmos

BARREIRAS QUE NOS SALVAM DE NÓS MESMOS

Uma hora são as sombras que turvam a visão

Noutra a claridade excessiva que dificulta o trajeto

Chuvas fortes, granizo, neblina, tempestades

Buracos na via, lama, alagamentos

Um quebra-molas gigante nos obriga a reduzir a velocidade

Um desvio sugerido, convidativo, e insistimos em ignorar

Uma árvore caída que impede quase toda a passagem nos atrasa

Um acidente com alguém interrompe nossa viagem por um tempo

Vários obstáculos no caminho para chamar nossa atenção

Muitas, muitas pedras a transpor

Vários alertas! E ignoramos…

Até que o acidente ocorre conosco mesmos

Forte, doloroso, destruidor

O trilho se parte, o trem descarrilha e ficamos perdidos

Aí somos obrigados a parar, a refletir, a avaliar o que fizemos

Será que é esse mesmo o destino, o melhor caminho?

É preciso recalcular a rota, o veículo utilizado, os companheiros de viagem

Aquele obstáculo no caminho nem sempre é ruim

É apenas algo Superior querendo nos salvar de nós mesmos

De trajetos ruins que não levam a lugar algum

De transporte inadequado, de trilhas defeituosas

De más companhias, do modo de dirigir muito afoito

Das prioridades que temos colocado em nossa viagem

É bom sempre prestar atenção nas estradas, na sinalização

Principalmente nos obstáculos que dificultam de certo modo o seguir

Sentar, ainda que na beira da estrada sem fim

Reavaliar, redirecionar, repensar, recalcular o caminho…

Agradecer tudo de bom, quem nos ama e ora por nós mesmo de longe

Aquelas barreiras que tanto reclamamos

Físicas, mentais ou do coração

Podem ter vindo para salvar não só nossas vidas

Mas várias outras vidas também…

Alda M S Santos

O dia em que a terra não parou…

O DIA EM QUE A TERRA NÃO PAROU…

Quando não nos posicionamos perante a vida

Quando não escolhemos caminhos ou não fazemos opções

Por inércia, ignorância, covardia, dúvidas ou medos

A vida não deixa de acontecer, o planeta não deixa de girar

A Terra não para pra nos esperar

As pessoas seguem as trilhas que escolheram

A vida se impõe, alguém “escolhe” por nós

E somos “obrigados” a aceitar a escolha de outros que caiu em nosso colo

O caminho a nós imposto, bonito ou feio, plano ou cheio de aclives

Sem nossa análise, avaliação ou aprovação

Delegamos a outros, por inércia ou inaptidão, o controle de nossas vidas

E percebemos que aquele “dia em que a Terra parou”

Existiu apenas na canção, nos sonhos loucos de Raul Seixas

Ela seguiu em ensandecida rotação e translação e fomos lançados fora de órbita

Para um lugar melhor ou pior…

A Terra, indiferente à nossa “preguiça”, continuou a girar…

A Terra continua a girar…

Alda M S Santos

Placas tectônicas

PLACAS TECTÔNICAS
O movimento das placas tectônicas causa graves acidentes na superfície do planeta
Terremotos, maremotos, tsunamis e vulcões assustam
Mas são sinais da vida ativa no interior da Terra
A cada vez que elas se movimentam
Grandes desastres naturais são gerados resultando em morte, terror, destruição
Uma nova posição elas tomam, nova organização se dá: sobrevivência
Quem está melhor preparado sabe o que fazer, como lidar, seleção natural
Nem sempre os mais altos e bonitos edifícios mantém-se de pé
Muitas vezes são os primeiros a ruir e tombar ao chão,levando consigo muitos outros
O que vale é a estrutura firme, a base forte, a flexibilidade das colunas
Desconsiderar a força da vida interna que se rebela e se revela não é sábio
Nos terremotos naturais os sobreviventes conhecem a regra: o tripé da vida
Apoiar-se em algo sólido e firme, abaixar-se, proteger-se
E esperar a lava quente, a fumaça tóxica, os destroços serem levados oceano afora …
Nesse grande planeta azul, somos dele pequenas miniaturas
Onde estamos nos apoiando quando nossas placas tectônicas se movimentam perigosamente?
Alda M S Santos

 

Propaganda enganosa

PROPAGANDA ENGANOSA

Diz-se quanto o divulgado não corresponde ao real

Quando a teoria não funciona na prática

Quando o exposto na vitrine é belo e maravilhoso só ali

Quando o dito ou gritado em bom som

Se cala diante da realidade nua e crua

Quando o lustrado parece mais resistente do que é na verdade

Não suporta, arrebenta, diante da constante batida ou monotonia do cotidiano

Quando o que parece forte e protetor se encolhe aos primeiros trovões

Quando o que parece aquecer desaparece ao primeiro frio

Quando o que promete refrescar se derrete ao primeiro calor escaldante

O que está na vitrine é para ser vendido ou apreciado

Saiu dali, o valor de mercado cai drasticamente

Passou do almejado ao conquistado, do desejado ao adquirido

Além da propaganda enganosa para “vender”

Em nossa práxis, temos o mau hábito de priorizar o que não é nosso

Em detrimento daquilo que já temos…

Quase sempre o que está na vitrine está maquiado, engomado

Até por autoproteção e conservação.

Quem é usuário conhece o produto.

É preciso ver além dos filtros, atrás dos vidros, sem as fortes luzes que fazem parecer tudo belo!

Alda M S Santos

O sol brilha para todos

O SOL BRILHA PARA TODOS

No céu, no mar, na terra

Há espaço para todos

Aviões bimotores, helicópteros, teco-tecos, supersônicos

A enfrentar os ventos no céu

Barquinhos a vela, lanchas, escunas, navios e grandes veleiros

A navegar em águas calmas ou bravias

Bicicletas, motocicletas, carros, caminhões e ônibus

A trafegar no solo firme debaixo de nossos pés

O espaço, democrático, abriga a todos

Nossos corações também deveriam ser assim

Forte como o céu, a água ou a terra

Não excluir nada ou ninguém a priori

Elástico, deveria caber a todos que quisessem entrar e fazer dele sua morada

Como o sol que sempre brilha para todos

No céu, no mar, na terra…

Alda M S Santos

 

Você chegará ao seu destino

VOCÊ CHEGARÁ AO SEU DESTINO

Escolha sua rota! Coloque os cintos!

Dirija com cuidado! Vamos!

Siga em frente por 25 Km até rodovia BR 040

Radar reportado à frente, atenção!

Fiscalização eletrônica semafórica em 300m

Mantenha-se à direita para saída 108 A para Angra dos Reis

Via de tráfego intenso, não se esqueça dos faróis

Acidente reportado no quilômetro 85

Cuidado! Veículo tombado à frente

Pegue acesso lateral para Arco Metropolitano

Polícia reportada à frente

Reduza a velocidade, declive acentuado

Área de intensa nebulosidade, mantenha faróis de milha acesos

Desvio à esquerda, via interditada

Tempo estimado no engarrafamento: 9 minutos

Atenção! Animal ferido e morto na pista

Uma estrada, uma viagem, muitos caminhos

A ansiedade, o desejo de chegar

Um guia do Waze…

Tudo torna-se mais fácil e seguro

Rota e destino pré-calculados

Previsão de chegada e revisão de rota

Perigos antecipados com prazo para reação

Alerta de avanço de sinais, áreas proibidas e fiscalizações

Sugestões para abastecimento e descanso

O medo de ficar perdido é quase nulo

A sensação de “conhecer” o desconhecido tranquiliza

E, se errarmos, ele recalcula e nos coloca novamente nos trilhos

Devíamos todos ter um guia assim acoplado ao cérebro

Não vá por aí, pode se acidentar na pista

Alerta amarelo aceso, atenção

Via sem saída, retorne e retome seu destino

Trânsito proibido, área privativa e reservada

Não estacione, parada proibida

Siga em frente por longos anos

Se não der pra ir de carro, vá de avião, de barco

Voe, nade, se arraste, mas prossiga!

Você chegará ao seu destino…

Alda M S Santos

Rotas aternativas

ROTAS ALTERNATIVAS
Quando é para ser não há nada que possa impedir
A chuva não molha, ou, se molha, serve apenas para refrescar
Se o sol não aparece, o calor vem de dentro
Se não há luz, brinca-se de fazer figuras de sombras na parede
Se falta dinheiro, sobra criatividade
Se o mal arromba a porta, o bem entra com educação pelas janelas
Se há lágrimas, desesperança, uma dádiva surge de onde menos se espera
Se os medos do escuro assombram, servem também para tornar mais visíveis as fontes de luz
Se os erros pesam nas costas, na consciência, o aprendizado se faz presente
Se o destino parece distante e impossível, as boas companhias são refrigérios
Se falta justiça, sobra compaixão e solidariedade
Se tudo é caro e nada parece valer a pena, surge um amor gratuito
Se a solidão atormenta, o encontro consigo é um presente
Se clamamos por anjos, surgem amigos
Quando tudo parece difícil, a fé fortalece
Quando é para ser, qualquer descaminho é apenas uma rota alternativa…
Alda M S Santos

Um grande evento

UM GRANDE EVENTO

A vida se faz de pequenos grandes eventos

Da nossa habilidade de eternizar momentos

Gravá-los no disco rígido de nossa memória

Tatuá-los na pele delicada de nossa alma

E ativá-los a qualquer tempo

Uma caminhada tranquila num fim de tarde

Uma conversa no banco da praça admirando o por-do-sol

Um mergulho no mar de nossas emoções mornas, quentes, calmas ou agitadas

Um choro de alegria e alívio depois de fortes emoções

Um lanche no carrinho de cachorro-quente

Um piquenique à beira de uma cachoeira gelada

Um abraço de carinho e saudade de alguém amado

Daqueles que te levantam do chão nas pontas dos pés

Um “eu te amo”, tão verdadeiro e desejado

Um beijo quente, de amor, de entrega, de confiança

Uma “taquicardia” de prazer diante de alguém que é importante para nós

Uma bala trocada que adoça a boca do outro

Um jantar na grama sob o céu salpicado de estrelas

Sonhos, desejos e planos antecipando alegrias

Um filme abraçadinhos no tapete comendo pipocas com batom

Um simples sorriso, um cumprimento ou beijo soprado de longe que a tudo contagia

Uma vida repleta de pequenos grandes eventos

Grandes, maravilhosos e eternos eventos…

Alda M S Santos

Conchas e pérolas

CONCHAS E PÉROLAS

Conchas ou pérolas?

Corajosos e afoitos atrás das pérolas preciosas

Mergulham fundo, arriscam-se

Cautelosos e ponderados na areia da praia, na superfície

Encantados com suas conchinhas

Ou sonhando com as pérolas do fundo desconhecido

Que seria das conchinhas da areia

Se todos mergulhassem atrás das pérolas?

Quantas conchinhas lindas esquecidas

Por aqueles que as perdem em busca da incerteza das pérolas?

Quantas pérolas já temos nas mãos e não as reconhecemos, descartamos?

Façamos de nossas conchas nossa pérola particular e preciosa ….

Alda M S Santos

Sou eu?

SOU EU?

Os caminhos parecem mais longos e estreitos

Ou sou eu que mudei o modo de caminhar?

As pessoas parecem mais perdidas e carentes

Ou sou eu que mudei o ângulo do olhar?

Há menos perspectiva, menos esperança e mais decepções

Ou sou eu que fiquei mais criteriosa?

Os outros estão mais individualistas e indignos de confiança

Ou sou eu que deixei de ser tão crédula?

Há mais fugas que coragem e persistência

Ou sou eu que ando mais amedrontada?

Há mais barulho e alvoroço que felicidade real

Ou sou eu que tenho tido apreço por silêncios verdadeiros?

Há mais alegria comprada, “roubada”, ilegal, finita

Ou sou eu que prefiro alegrias conquistadas por direito, gratuitas?

Há mais sorrisos fabricados e palavras sem sentido

Ou sou eu que estou mais sensível?

Há mais estradas percorridas e menos caminhos a percorrer

Ou sou eu que estacionei em algum momento?

Está mesmo tudo muito mudado

Ou fui eu que mudei e nem vi?

Alda M S Santos

Carrego em mim

CARREGO EM MIM

Carrego em mim variados fardos

Ora leves e relaxantes como água morna e espuma de sais de banho

Ora pesados e frios como sacos de cimento

Ora suaves e doces como beijos de amor

Ora longos e pesados como medo na noite escura

Cargas minhas, cargas dos outros, cargas de todos

Cargas que escolhi, cargas das quais sou responsável

Cargas das quais os responsáveis nem têm ideia que carrego

Cargas que herdei, me impuseram, não tive qualquer escolha

O caminho longo, às vezes mal escolhido também torna-se um fardo a mais

Os caminhantes despareados também desgovernam o caminhar

O desejo de descansar é grande, parar, respirar fundo

Sentar-me à beira do caminho, reavaliar a bagagem

Descartar o que pesa muito e não faz sentido transportar

Devolver cargas que não são minhas

Deixar de carregar esponjas, que absorvem peso, por “isopor”, mais leves

Dividir a carga com companheiros de viagem

Sabendo que carga dividida sempre irá pesar menos

Carrego em mim desejos de chegar

Mas não chegar a qualquer preço, de qualquer modo

Carrego em mim desejos de chegar inteira ao meu destino

Sem ter deixado pedaços quebrados de ninguém pelo caminho…

Alda M S Santos

Previsão do tempo

PREVISÃO DO TEMPO

Tempo propenso a grandes instabilidades físicas e emocionais

O ar úmido e quente vindo dos trópicos alheios pode nos atingir em cheio

Avariando corpo, mente, alma e coração

Maré alta em nossos oceanos acabam por provocar grandes tormentas, frustrantes e dolorosas ressacas

Umidade interna intensa e sujeita a transbordamento ocular

Nebulosidade ao longo do dia turvam a visão ocasionando temporais isolados e destrutivos

Ventos polares fortes trazem a conhecida, terrível e viral massa de ar frio

Causadoras de males pulmonares, circulatórios e cardíacos

Agasalhe suas emoções! Movimente-se!

No oeste há chuvas torrenciais, cuidado com inundações e os lixos trazidos

Lembre-se do guarda-chuvas!

Granizos de variados tamanhos podem machucar, causar grandes danos e deixar marcas

Aproveite para colocar na enxurrada o que não mais lhe serve

No leste, chuva fina intermitente, daquelas que aguam o passado, baixam a resistência no presente, comprometem o futuro

No Sul possibilidade de alta luminosidade, sol forte e calor

Abra as janelas da alma, deixe a brisa suave e o sol entrar, aqueça-se

Coloque os guardados para tomar um ar

Tome um ar você também, inspire fundo, expire…

O tempo é só o tempo: mutável e instável

O clima é o que fazemos dele…

Escolha um clima bom para você viver!

Alda M S Santos

Inocência, ingenuidade

INOCÊNCIA, INGENUIDADE

Inocência, ingenuidade

Credulidade, confiança

Quando se perde na vida

Tão bonita cumplicidade?

Inocência, ingenuidade

Pureza, sorriso solto, iluminado

Quando se perde na vida

Tão agradável docilidade?

Inocência, ingenuidade

Transparência, curiosidade

Quando se torna ambiguidade

O olhar que era pura afinidade?

Inocência, ingenuidade

Sinceridade, esperança

Quando se perde na vida

Tão humana liberdade?

Inocência, ingenuidade

Carinho, naturalidade

Quando isso se transforma em

Tão adorável sensualidade?

Inocência, ingenuidade

Paz, gratuita amorosidade

Quando se perde na vida

Tão almejada felicidade?

Certamente, digo,

Quando se perde a simplicidade

Tudo isso fica na saudade…

Alda M S Santos

Nos caminhos da vida

NOS CAMINHOS DA VIDA

Nos caminhos da vida, se olharmos para baixo, para nossos pés

Perderemos as belezas do horizonte colorido adiante

Os lindos contrastes de sombra e luz que nos estimulam

Nos caminhos da vida, se olharmos só para frente

Os aclives acentuados, a poeira, a distância do destino

Podem ser desanimadores e nos fazer desistir

Nos caminhos da vida, se olharmos para dentro de nós

Dependendo dos labirintos escuros que encontrarmos

Poderemos nos perder, escorregar nas desculpas esfarrapadas e medos e estacionar

Nos caminhos da vida, se olharmos para trás

Veremos todo o caminho já vencido, as dificuldades superadas, lutas e conquistas

Retomamos parte do ânimo, da coragem, obtemos um refrigério

Nos caminhos da vida, se olharmos para um dos lados

Veremos uma das razões para seguirmos

De termos chegado até ali: os companheiros de jornada pelos quais fazemos tudo

Nos caminhos da vida, se olharmos para o outro lado

Veremos a força que nunca nos abandona: Deus

Mais um passo à frente, mais firme e seguro, sorriso no rosto cansado

Humanamente, seguimos…

Alda M S Santos

Hoje, não!

HOJE, NÃO!

Hoje quero ver o lado bom das pessoas

Aquele que muitos preferem não ver

Não quero enxergar as falhas, os egoísmos, as covardias

Não, hoje não!

Hoje quero me alegrar com o sol que brilha

E possibilita nossa própria fotossíntese

Não quero reclamar do calor ou do frio, da chuva ou da seca

Não, hoje não!

Hoje quero me fixar nas saudades boas, nas risadas gostosas, no amor vivido

Não quero lembrar das decepções, dos medos, das ingratidões

Não, hoje não!

Hoje quero ser grata ao passado que me formou,

Ser ativa no presente que me mantém, esperançosa no futuro que me aguarda

Não quero ser daquelas que se enfurnam na tristeza e se afogam nas próprias mágoas

Enquanto buscam culpados para o lago sujo que se forma a sua volta

Não, hoje não!

Hoje quero ser o bem, fazer o bem, levar alegria pelo caminho

Hoje quero fazer essa travessia mergulhada em sorrisos

Não quero esperar muito do mundo, apenas me doar e ser grata ao que vier

Não, hoje não quero reclamar de nada!

Hoje quero ser paz e fazer apenas um pedido

Todos os dias podem ser como hoje?

Alda M S Santos

Detox emocional

DETOX EMOCIONAL

Desintoxique, limpe, oxigene-se, reorganize

Chore, deixe escoar, lavar o pó acumulado e a ferrugem

Não alimente ou conserve emoções dolorosas ou negativas

Delete, apague, jogue na lixeira, tire teias de aranha

É como arrumar a casa- dizem

Fazem parecer tão simples! Que nada! Mas é preciso!

Abrir as janelas da emoção, deixar entrar a luz, novos ares

Permitir que o sol aqueça os cantos esquecidos, o limo acumulado

Ou aqueles espaços úmidos pelas lágrimas constantes

Também é necessário lustrar e iluminar os sorrisos e alegrias do passado com cuidado

Para que não escureçam e virem nuvens negras dentro de nós

E é preciso descartar o que já não produz nada!

Em meio a tanto lixo tóxico e outros reaproveitáveis

O risco é jogar fora algo valioso, cuja falta nos “apagaria” de vez

Aquilo que foi guardadinho com carinho num canto especial

Que mostra que tudo por lá valeu a pena

Saudades e lembranças, dolorosas ou não,

São como brinquedos espalhados, paredes riscadas, manchas nos móveis, fotos nos porta-retratos

Sinal que ali houve vida em abundância

Casa bagunçada, com fumaça na chaminé, indica moradores vivos

Todo cuidado é pouco ao se fazer uma faxina, um detox emocional

Para não jogar fora o bebê junto com a água do banho…

Alda M S Santos

Álbum de figurinhas

ÁLBUM DE FIGURINHAS

Como álbum de figurinhas vamos “montando” nossas vidas

No início tudo é novidade, satisfação, animação

Comprando muitas, investindo bastante com energia e disposição

Uma a uma vamos colando, grudando e preenchendo espaços vazios

Conquistando umas raridades, preciosas

Interagindo, trocando aquelas repetidas por outras que ainda não temos

Até doando ou descartando várias que nem troca conseguimos mais

Como a vida, quando o “álbum” está quase completo

Mais difícil fica fechá-lo ou montá-lo, mais descartes vamos acumulando

E mais valiosas se tornam aquelas que preencherão nossos espaços vazios

Mudamos valores, passamos a trocar duas ou três por uma…

Quase sempre nos concentramos muito naquelas que faltam

E nos esquecemos do valor de todas as outras conquistadas

Daquelas outras figurinhas que “encheram” nosso álbum de cor

Passamos a lamentar as que perdemos por não tê-las colado direito

Ou por não ter “pago” o tanto que pediram, que valiam de verdade

Pois só descobrimos que eram raridade quando já estavam noutro álbum

Quando o julgamos “pronto” nos orgulhamos de exibi-lo a todos

Mas o que mantém a vida em curso é o desejo de preencher o que falta

Mesmo que não consigamos esse intento de completude

O prazer e alegria de montar um álbum consiste em buscar a figurinha faltosa

Mas essa busca não pode ser com mais empenho

Que o de conservar e valorizar o já conquistado

Quando o álbum for “fechado”, mais vale estar feliz que completo!

Alda M S Santos

Miragem

MIRAGEM

Como sonâmbulo, você andava num espaço bonito, porém frio e nebuloso

Passava por muita gente e não enxergava ninguém

Alguns lhe estendiam as mãos, sorriam, cumprimentavam

Outros nem te percebiam ou pareciam bravos contigo

Você não via, parecia ter outro objetivo

Olhos sem brilho, “adormecido”, opacos

Mas seguia…sem parar para nada

Eu observava de longe, encolhida num canto, chorosa

Você chegou até mim, os olhos brilharam, acordaram

Estendeu-me as mãos, levantou-me do chão

Pediu desculpas, chorou, me abraçou demoradamente

“Eu sempre te amei… sempre”-afirmou muitas vezes

E sumiu numa nuvem de fumaça

Como miragem…desapareceu…

Sentei-me novamente no canto

Você voltou para a vida

Eu continuei ali de onde não poderia sair…

Um sonho perturbador!

Alda M S Santos

Casa bagunçada

CASA BAGUNÇADA

Em nossa casa nos acostumamos com nossas bagunças e desordens

Quase sempre nos encontramos, com alguns tropeços, nas coisas esparramadas

É onde podemos ser nós mesmos, sem necessidade de impressionar ninguém

Onde nos sentimos bem, independente da simplicidade ou confusão

Conhecemos cada teia de aranha, cada móvel fora de lugar

Aqueles desgastados pelo uso ou empoeirados pelo desuso

Os que de nada valem mais, exceto pela lembrança de quem os usou

As toalhas molhadas sobre a cama, o perfume nas roupas no armário

Os chinelos sob os móveis, os pés de meia perdidos

A torneira da pia que pinga sem cessar, a trempe do fogão com defeito

A temperatura oscilante do chuveiro que não impede o banho demorado

O barulho estranho da geladeira como um alerta de sobrevida

Aquela quina onde sempre acertamos os dedos dos pés descalços

A poltrona preferida, o lugar marcado na mesa

O jeito secreto de girar a chave na fechadura que só nós sabemos

O livro lido e relido na rede, a estante cheia, a despensa quase vazia por distração

A cortina que pouco escurece, o vidro da janela manchado pela última chuva

A TV sempre ligada sem ninguém ouvir, o sol que entra pela fresta de tardinha e cria imagens mágicas

O tapete escorregadio, as roupas amarrotadas no varal

A lâmpada que pisca como boate, o cheiro de saudade grudado no travesseiro

O silêncio frio da noite em contraste com nossos barulhos

A manhã que traz esperança, sol e calor sob os lençóis…

Seja como for, essa “casa” é nossa…

Somos responsáveis por ela, cuidamos como podemos

Não queremos ter que “esconder” nada de visitantes

Precisamos ficar à vontade com quem chega

Sem nos sentirmos envergonhados por ser o que somos

Visitas com pretensões de se tornar moradores precisam fazer parte desse caos

E só nos sentiremos bem com alguém que aceite nossas bagunças

Ou, no mínimo, nos ajude a arrumá-las sem descaracterizá-las…

Alda M S Santos

Aparências

APARÊNCIAS?

Tantos os sorrisos de capa de revista

Tantas as lágrimas de novela mexicana

Tantos abraços que pouco enlaçam

Tantos beijos que não tocam a alma

Tantas palavras que não aquecem

Tantas belezas de superfície

Tanta felicidade apenas de fachada

Quanto disso tudo que vemos por aí é real,

Quanto é apenas aparência

Quanto é apenas sobrevivência?

Como saber?

Será que realmente isso nos importa?

Olhamos ao menos duas vezes para notar?

Quem tem sensibilidade para perceber isso

Nos outros, em si mesmos?

Mais vale uma lágrima real, dolorida, sincera, mesmo escondida

Uma saudade que corta fundo, fere, machuca

Uma dor ou mágoa encarada

Que um sorriso largo, que não chega aos olhos

E enche os consultórios psiquiátricos

E o próprio organismo de medicações tarja preta!

Lágrimas? Sorrisos? O que pode estar se misturando às drogas?

Quem se importa se é flor ou espinho?

Alda M S Santos

E quando faltar…

E QUANDO FALTAR…

E quando sentir faltar a saúde, o bem-estar

Lembre-se do quanto ainda pode fazer por si mesmo

E quando faltar a energia, a disposição, o desejo de seguir

Lembre-se que a vida segue sempre, mesmo quando nos sentimos parados

E quando faltar um ombro, um colo, um sorriso amigo e sincero

Lembre-se de quem te amou, de quem te deu tudo que podia, retribua sempre

E quando faltar a gratidão, a solidariedade e compaixão

Olhe para os lados, veja seu irmão, lembre-se de estender a mão

E quando faltar a alegria, a esperança, a fé na humanidade

Lembre-se que Ele ainda acredita em nós, apesar de todas as decepções…

Quando faltar, lembre-se, concentre-se no amor Dele

Esse nunca falta! Nunca!

Alda M S Santos

Aprendendo a pescar

APRENDENDO A PESCAR

Pode ser prazeroso receber um peixe delicioso nas mãos, sem esforço

Prontinho para ser degustado, saboreado

Mas nada se compara ao prazer de pescar o próprio peixe

O sabor é outro: de satisfação, de vitória, aprendizado, superação dos limites…

Mesmo porque, nada dura para sempre

Cedo ou tarde, se faltar o fornecedor do peixe, precisaremos nos virar…

Somente se compara ao prazer de pescar

O ato de ensinar alguém a fazê-lo, vibrar com a conquista do outro

Pescar juntos, no mesmo barco, enfrentando os ventos contrários,

As marés desfavoráveis, a restrição da piracema, esperar novo momento

Saborear juntos um pescado desejado

Isso é divinamente lindo!

Alda M S Santos

Oportunidades perdidas

OPORTUNIDADES PERDIDAS

Para onde vão as oportunidades perdidas?

Será que existe uma caixa de oportunidades perdidas e achadas guardada por aí,

Onde a gente pode ir e recuperar a nossa?

Quem sabe escolher uma no nosso número e medida?

Ouvi certa vez que não há oportunidades perdidas.

Nós perdemos, mas sempre há quem as aproveite.

Por medo, ignorância, vaidade, incompetência, excesso de cuidado ou falta de fé,

Deixamos passar boas e raras oportunidades…

Mas também aproveitamos algumas que outros deixaram passar.

Quase sempre inadequadas ao nosso modo de ser…

Insistir numa oportunidade que passou rápido demais, endureceu,

Envelheceu, murchou, encolheu ou é imatura demais, não convém!

É como insistir em calçar um sapato 37 ou 33 num pé 35.

Nunca ficará bonito ou confortável!

Nessa circularidade da vida, qualquer hora surge uma oportunidade só para nós,

Sem “deformações” causadas por outros pés,

Sob medida…e estaremos maduros o bastante para aproveitá-la!

Alda M S Santos

Culpas e responsabilidades

CULPAS E RESPONSABILIDADES

Qual sua responsabilidade na atual situação em que você se encontra?

Essencial nos perguntarmos isso antes das acusações de praxe.

O outro não teve paciência, o chefe não pagou o devido, a igreja não ajudou, os filhos exigiram demais,

O cônjuge não foi compreensivo, os médicos não fizeram o diagnóstico correto…

Ou ainda a vida foi “madrasta”, os amigos desapareceram, as leis não foram justas, o país é corrupto, Deus não existe…

Responder a essa pergunta com coragem e sinceridade exige maturidade, ainda que no silêncio de nossos corações.

Amei o bastante, me dediquei o suficiente, segui as regras, obedeci as leis, confiei,

Fui paciente com as diferenças, respeitei o outro, cuidei da saúde, acreditei que podia fazer melhor?

Qualquer situação que nos aconteça de sucesso ou derrota, temos responsabilidade, não sozinhos, mas temos.

E a única em que podemos agir e mudar é a que nos cabe.

Sempre há algo que podemos mudar para melhorar e eliminar o mal que sofremos ou causamos.

Atribuir responsabilidade aos outros e fugir da nossa só nos levará a cair nos mesmos erros, reclamar dos mesmos insucessos e infelicidades.

Viver não é fácil, acertar sempre não existe,

Mas a tentativa constante de sucesso sem nos fazer mal leva ao aprendizado

Transitar por caminhos conhecidos ajuda muito

Aceitar novos caminhos ou olhá-los com novo olhar é essencial

Somos feitos disso tudo: culpas, responsabilidades, fracassos e sucessos

Só não vale parar…

Alda M S Santos

Ao pó voltarás

AO PÓ VOLTARÁS

“Do pó viestes, ao pó voltarás”

No intervalo, vamos nos divertindo, gerando vida

Arando a terra ora dura , ora macia de nossos corações

Semeando o amor, plantando flor, ressecando dor

Com pés no chão, na terra

Mas sem abrir mão das asas

Flutuando entre nuvens brancas ou cinzentas

Escolhendo caminhos menos tortuosos

Regando, adubando, colhendo

Espalhando mudas e sementes

Do pó viestes semente

Ao pó voltarás flor…

Alda M S Santos

Semeamos

SEMEAMOS

Todo o tempo semeamos

Por gosto, prazer, querer, vontade

À nossa revelia, sem saber, sem perceber também

Em terrenos férteis, agradecidos, receptivos

Até mesmo naqueles ressecados e ásperos pelas durezas da vida

Mas quando brota o que plantamos com e por amor

Nos terrenos que jogamos húmus e adubamos cuidadosamente

Notamos…

Conhecemos o perfume, as formas, as cores, os sinais

Ainda que a semente germine mais tarde

Nas lonjuras, distantes de nós, florescem lindas

Levadas pelo vento ou pelas águas doces da nostalgia

Ou pelos rios salgados das lágrimas

Notamos…

Ora sorrimos, ora choramos,

Sempre emocionante um novo desabrochar,

Mesmo que a gente não vá colher

Há sementes, como as da jabuticaba,

Que plantamos para o deleite de outros…

Longe ou perto de nós!

Alda M S Santos

Alma vira-latas

ALMA VIRA-LATAS

Há pessoas que têm alma vira-latas

Acostumadas a se virar sozinhas, dormir no chão duro e quente ou no mato molhado

Alimentar-se do que recebem, do que encontram nas “latas” da vida, resistir

Aquecer-se enroscadas em si mesmas, voltar ao útero

Aproveitar até a última gota do que a vida oferece e parece inútil

Descartando o que faz mal, seguindo…

Não têm pedigree, não têm raça definida

Mas têm força descomunal contra adversidades

Adquirem resistência, criam anticorpos contra variados antígenos

Desenvolvem adaptabilidade às mudanças bruscas de tempo

Abrigam-se sob o gigante firmamento, arrancam bicho de pé nos dentes

Não é fácil derrubar uma alma vira-latas convicta do que é, de sua força

Elas atraem umas às outras com a doçura do olhar fiel, com a fé numa proteção Maior

E enfrentam a vida como uma adversária que merece respeito

Sem sangue azul, SRD, sem berço, sem nobreza

São as almas vira-latas as mais nobres que existem!

Alda M S Santos

O fim do mundo

O FIM DO MUNDO

“Esse fim do mundo me decepciona”

Ouvi certa vez e pus-me a refletir

O que seria a decepção maior nesse caso:

O modo cruel, traiçoeiro e torturante como o fim se aproxima?

A angústia pela demora ou ausência real de um fim tão proclamado e profetizado?

A tristeza tão profunda de alguém por permanecer aqui enquanto aguarda ansiosa por esse fim que “nunca chega”?

A tortura da espera por algo tão doloroso que não se cumpre

Só pode ser assim tão decepcionante

Se o agora estiver mais temerário que o fim apocalíptico!

Triste viver!

Alda M S Santos

Minhas (des)humanidades

MINHAS (DES)HUMANIDADES

Já ri até a barriga doer de alegria gratuita, mas já acordei de olhos inchados por dormir chorando de tristeza

Já me escondi da minha mãe para não tomar injeção, e de mim mesma para não passar vergonha

Já doei o que vim a precisar, já comprei o que não me era necessário

Já engoli muitos sapos, engasguei com outros, visando salvaguardar a biodiversidade no pântano

Já tive um amor que dispensei, não tive um que desejei

Conquistei amores que valorizo, que me valorizam, presentes que nem sei se sempre mereço

Já fiquei feliz com infelicidade de quem me magoou, já magoei quem me quis bem

Já acreditei em mentiras absurdas e duvidei de verdades verdadeiras

Já fiz promessas que não cumpri, já realizei além do que sequer prometi

Já tive muito medo de morrer, já quis morrer de tanto medo

Já tive raiva e medo de quem amo mais daqueles que não me dizem nada, já causei medos e raivas idem

Já me senti a verdadeira cereja do bolo por agradar e um grão de areia no deserto por não ser aceita

Já me perdi entre muitas escolhas tanto quanto por falta de opção

Já quis ir para a África salvar o mundo, não pude salvar um mundo ao meu lado

Já pensei que meu mundo precisava ser salvo, já quis salvar quem não precisava de mim

Já sonhei muito com o impossível, tendo dificuldade até com o possível

Já tive a vida ameaçada por arma na cabeça por desconhecido,

Mas tive mais medo quando fui ameaçada por palavras e olhares de quem conheço

Já fiz coisas das quais me arrependo, não fiz muito que gostaria ter feito

Já guardei segredos por décadas, já pedi segredos que foram revelados por outros

Já confiei, desconfiei, mas tem coisas que só eu sei de mim mesma

Já chorei dias e noites por uma amizade perdida, a ponto do meu marido intervir, e não me importei por outras que se foram sem dar notícia

Trago lembranças doídas e felizes em mim, mas também devo ser lembrança doída ou feliz na vida de alguém

Já deixei de dizer “te amo” por medo ou vergonha

Mas nunca disse amar sem ter verdadeiramente amado

Assim, entre tantas contradições, vou vivendo e aprendendo,

Levada por minhas (des)humanidades…

Alda M S Santos

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