UM OLHAR VAGO
Ela estava sentada naquele banco debaixo de uma grande árvore no parque.
Gostava muito de ir ali para pensar, relaxar, abstrair-se dos problemas.
Tempo frio, vento de agosto, o sol brilhava, mas pouco aquecia.
Jardim bem cuidado, lindas flores, perfumado, borboletas e beija-flores.
Crianças corriam, subiam, desciam, escorregavam, pedalavam, riam. Totalmente alheias ao mundo confuso dos adultos.
Um grupo de mães mais a frente vigiava. Falavam do mundo infantil. Algumas com bebês nos carrinhos, vez ou outra ofereciam água às crianças.
Um casal enamorado sentado de frente um para o outro, imersos um no outro.
Um senhor de idade meio indefinida, cabelos ralos e brancos, parecia distraído, acessando muitas lembranças. Carregava um jornal que não lia, olhar ao longe.
E ela ali, pensando, imaginando, observando…
As crianças continuavam a algazarra. Uma bola veio aos seus pés, jogou de volta com um sorriso.
O casal parecia cada vez mais desligado do entorno, mais mergulhados em si mesmos.
As mulheres continuavam uma conversa animada sobre os preços no mercado.
O senhor lentamente se levantou, limpou uma sujeira imaginária na própria calça, conferiu o banco, guardou o jornal na sacola e veio andando.
Derrepente a bola passou veloz no ar em direção àquele senhor.
Ela, num impulso, saltou e interceptou a bola antes que atingisse o alvo. Certamente derrubaria aquele senhor.
As mães ralharam e chamaram as crianças para ir embora. Umas reclamavam, outras choravam.
O casal olhou distraído para aquilo que ousava tirá-los de seu mundo e voltou a se beijar.
O senhor demonstrou gratidão, aceitou a sugestão dela e sentou-se novamente.
Olhou bem para ela, sorriu, um doce sorriso que iluminou todo aquele rosto.
Pegou o jornal, abriu, tirou de dentro dele um livro, o seu livro…
“É você, não é?” – afirmou sem esperar resposta com surpresa e alegria. “Adoro seus poemas”.
Ela também sorriu. A poesia tomou conta do parque .
A conversa fluía solta, o olhar já não era mais vago…
Alda M S Santos