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amor com a vida

Trocamos

TROCAMOS

Trocamos um quintal grande e arborizado, uma cisterna de águas límpidas e um cachorro fiel por um playground “seguro” de concreto, atrás de grades e muros altos

Trocamos caminhadas ou pedaladas até a escola ou trabalho por esteiras e aparelhos na academia

Trocamos frutas e verduras da horta ou pomar e quitandas de forno à lenha por produtos enlatados e industrializados

Trocamos as brincadeiras de pique-esconde e polícia -ladrão na rua por fases de jogos nos computadores

Trocamos uma amizade verdadeira e de confiança por outra mais “valiosa”, mais promissora, mais cordata, menos instigante

Trocamos uma paquera na praça do coreto, um namoro no alpendre, um relacionamento duradouro por outros imaginados, ilusórios e incertos

Trocamos chás de boldo e hortelã, um abraço amigo ou um desabafo choroso no colo de alguém querido e confiável por drogas alucinógenas e causadoras de dependências

Trocamos a responsabilidade por erros que cometemos, a oportunidade de crescimento, pela justificativa de “eu não fui atrás”, “eu não busquei”, “não é culpa minha”, enganando a nós mesmos

Trocamos a alegria do convívio com uma família grande, amorosa e até briguenta, por um trabalho qualquer que muito nos ocupe em busca de dinheiro que nem teremos tempo ou satisfação para gastar

Trocamos nossas alegrias e tristezas naturais por remédios tarja preta

Trocamos nossa essência para manter ou conquistar algo que nem sempre nos fará bem

Trocamos tanta coisa em busca de alta expectativa de vida, de facilidades e felicidade passageira

Para vivermos 75/80 anos, aos invés dos 50 de outrora

A que custo?

Alda M S Santos

Pegadas

PEGADAS

A cada passo dado, uma pegada é deixada

Mais profunda ou superficial, dependendo da estrutura do terreno

E da intensidade do caminhante nesta jornada

Olhamos para frente, quase nunca para trás

O caminho é longo, chuva insistente ou sol escaldante

Calor animador ou frio acolhedor, belo e florido, ou cheio de pedras

Mas os objetivos são estimulantes

Seguimos…

Se em algum momento quisermos voltar atrás, refazer aquele caminho

Não mais nos encaixaremos naquelas pegadas deixadas

Não nos reconhecemos ali

Antes tão justas e agradáveis como uma meia de lã

Aconchegantes e ternas como um abraço

Agora parecem ser de outra pessoa diferente de nós

Grandes, largas ou apertadas demais, machucam, não servem

São de outra pessoa!

Nós em outra época…

Sensação de não pertencimento nos acomete

As marcas na areia, na terra, na mata ou no asfalto

Não são diferentes das marcas que deixamos nos corações dos outros

Nas que são deixadas em nossos corações

Em nossa própria alma…

O tempo e a força ou delicadeza aplicada em cada passo

Farão com que essas pegadas sejam profundas, ternas e eternas

Ainda que não nos caiba mais do mesmo modo

Pegadas são importantes digitais gravadas na alma dos que se amaram

E esses se pertencem…

Alda M S Santos

Fases da vida

FASES DA VIDA

Se parássemos antes para refletir, avaliar

Talvez fosse mais fácil entender e aceitar as fases da vida, seus ciclos

Estar “no comando” da vida, ser quem segura o leme acarreta preocupação, ocupação, responsabilidade

Adultos guiando o caminho dos filhos pequenos, contando com ajuda e experiência dos próprios pais…

Mudar de fase implica reconhecer que as crianças cresceram, sabem dirigir sozinhas suas vidas

Que nossos pais envelheceram, precisam mais de nós

E que nós já não somos “soberanos”, tão fortes e “infalíveis”

Ver nossos filhos segurando o leme de suas vidas com confiança gera um misto de amor e orgulho

Mas também de certa “inutilidade” e medo

Eles se tornaram aquilo que queríamos, ou não, mas dói um pouco saber que foi tão rápido, que não curtimos o bastante

Decepcioná-los seria o fim para nós, mesmo que não sejamos mais seus super-heróis

Ficamos meio vazios, órfãos, “sem perspectiva”

“Perdemos” os filhos pequenos que tanto precisavam de nós

E nossos pais que tanto nos ajudaram agora precisam de ajuda, de colo…

Encaixar-nos nessa perspectiva gera sensação de que a maior parte da vida já foi embora…

Aceitar com bom humor e fé essas novas nuances é o melhor meio de mudar de fase sem grandes danos

Passar para o banco de trás e olhar a vida desse ângulo

Desfazer os nós da dúvida que apertam a garganta

Focar nos laços de afeto que permanecem nos corações

Aceitar tranquilamente que não temos mais controle de tudo

Aliás, nunca tivemos, apenas essa ilusão acabou…

Tudo são fases, fizemos um bom trabalho, outras virão!

Alda M S Santos

Raízes e asas

RAÍZES E ASAS

Beija-flor é volúvel por natureza

Sua sina é encantar, se encantar, se alimentar e voar

De flor em flor, polinizar, sem pousar

Possui asas…

Rosa é inabalável

Sua sina é atrair, perfumar, brotar, embelezar

Ser fixa, firme, permanente, agradar…

Possui raízes…

Uma rosa não pode ser ou seguir beija-flor,

Sem raízes, sem a segurança do jardim, sem o alimento da terra, morte certa

Um beija-flor não pode ser rosa, não sabe se fixar, não sabe ser flor

Sem voo, sem asas, sem espaço, atrofia, morre

Sina de flor, sina de beija-flor…

Na sabedoria da vida, vivemos entre flores e beija-flores

Entre raízes e asas somos jardineiros

Entre muitos jardins voamos buscando pouso,

Até construir nosso próprio jardim da vida, nosso próprio jardim do amor…

Alda M S Santos

Apenas mais uma

APENAS MAIS UMA…

Nada tão humano quanto a necessidade de nos sentirmos especiais

De sermos importantes na vida dos outros, de fazer a diferença

Ao menos na vida de um alguém…

Descobrir-nos apenas uma pessoa a mais pode ser doloroso

Por mais que isso pareça ilógico ou infantil

Particularmente, se for na vida de alguém que nos é especial

Todos temos essa necessidade de sentir-nos amados, valorizados

Ser “apenas mais uma” deixa a sensação de fracasso

De não cumprimento de nossa tarefa por aqui, de vazio

E torna-se um círculo vicioso

Quando não nos sentimos especiais para o outro, não nos amamos o bastante

Se não nos amamos, menos chance temos de ser amados

E um mundo sem amor não é digno de ser vivido…

Alda M S Santos

Águas passadas

ÁGUAS PASSADAS

Águas passadas carregam em si um rastro da gente

Que nunca conseguiremos deixar totalmente para trás

Em paralelas, curvas, profundas ou rasas, carregam consigo partes do nosso coração, da nossa mente, da nossa alma

Sujas ou limpas, feias ou bonitas, claras ou escuras, são nossas marcas

Dignas de orgulho ou arrependimento, alegrias ou tristezas, foram importantes

Fizeram de nós o que somos

Ignorá-las é desconsiderar nossa história

Podem não mover mais os mesmos moinhos

Mas insistirão em nos seguir

E nos lembrar que as mesmas águas que giraram as pás da nossa vida,

Podem mover as hélices de quem vem atrás de nós, ou está ao nosso lado

Mansas ou tempestuosas, estarão no caminho de pessoas que nos são caras

Causando garoas tranquilas ou destruidores furacões.

Alda M S Santos

Família: laboratório do mundo

FAMÍLIA: LABORATÓRIO DO MUNDO

O que quisermos fazer pelo mundo

Façamos primeiro por e para nossas famílias

Nelas desenvolvemos nossos dons, crescemos

É um mundo em miniatura onde enfrentamos de quase tudo

Não há ilusões!

Família é escola da vida, reflexo dela

Coisas maravilhosas e odiosas acontecem dentro de famílias

Enfrentamos ciúmes, inveja, rebeldias, crises, alegrias

Diversidade de opiniões, habilidades diversas, disputas

Ensinamos, aprendemos, nos reconstruímos, amamos, perdoamos

Se o que queremos para o mundo não funcionar num ambiente reduzido em que deveria prevalecer o amor

Mudemos de tática, ou destruiremos a nós mesmos, nossas famílias, as demais famílias, o mundo…

Uma família não se destrói ou se constrói por um só

Todos somos responsáveis, dentro ou fora delas!

O mesmo se aplica ao mundo…

Construir um mundo melhor implica em amar, respeitar e construir a família que nos foi confiada!

Alda M S Santos

Socorro

SOCORRO

“Socorro! Help-me!”

Quantos pedidos de socorro ouvimos, atendemos

Quantos ignoramos, não entendemos?

Nem sempre tão traduzidos assim em palavras

Uns muito óbvios, gritados, implorados, verbalizados claramente,

Telefonemas, mensagens, bilhetes, lágrimas

Outros calados nos lábios, gritados nos olhos, nas ausências, no silêncio, nos vícios

Nas mudanças de comportamento, na depressão…

E notamos apenas em retrospectiva, quando algo grave ocorre

Como uma tempestade que dá muitos sinais antes do aguaceiro desabar e inundar tudo

Nuvens negras, raios, trovões, vendavais

E corremos a procurar abrigo…

Sabemos dos estragos de outros tsunamis!

Tempestades internas se formam perto de nós

Dentro daqueles que amamos, dentro de nós

E não somos tão astutos para fechar as janelas, recolher as roupas, desviar, fugir, nos preparar

Muitas vezes, sem perceber, nos expomos, deixamos que se exponham a elas

Não nos atentamos para os pedidos de socorro, os alertas do tempo…

A meteorologia pode ser uma boa aliada se quisermos salvar vidas!

Alda M S Santos

Foto: Everaldo Alvarenga

Estrelas

ESTRELAS

Deite-se sem medo!

Na relva fria no campo, na areia úmida da praia, na rede na varanda

Na laje de casa, na cobertura de um arranha-céu, num banco da praça

Sozinho ou acompanhado, não importa…

E olhe para o céu, para as estrelas, para a imensidão além de nós…desconhecida

Sempre pensamos nas pessoas que amamos e se foram, “viraram estrelinha”

Sempre procuramos uma estrela cadente para fazer um pedidos

A cada vez tudo é diferente, nova posição, mais ou menos brilho

Sensação intensa, louca de alçar voo, subir, subir…

Alcançar aquela maravilha toda, aquele brilho, aquelas vidas…

Será que elas também nos observam de lá, que também querem nos abraçar?

Quantas estrelas temos a brilhar do lado de lá?

Alda M S Santos

Foto: Everaldo Alvarenga

Meritocracia do amor

MERITOCRACIA DO AMOR

“Você jogou fora o amor que eu te dei”

“Doei todo o amor e o melhor de mim a quem não mereceu”

“Que tolo eu fui por arriscar minha vida por quem não valia a pena”

E por aí vão os lamentos e arrependimentos…

Músicas, poemas, livros, expressões carregadas e vidas tristes a lamentar o amor que se doou

Não atinam que quem “não merece” o amor é quem mais precisa dele

E apenas os melhores, os mais desprendidos são capazes disso

O Melhor de todos ensinou um amor puro e verdadeiro, deu-nos a própria vida

A todos nós que não merecíamos!

E nada cobrou por isso, não se arrependeu, não desistiu de nós!

Que temos feito para merecer tanto amor? Aprendemos a lição?

Amor se doa, gratuitamente!

Temos construído uma vida de amor para nós e para os outros

Ou apenas, egoisticamente, temos semeado a destruição, o desamor

E lamentado o resultado disso?

Amor verdadeiro é gratuito, claro, construtivo, nada destrói, nada cobra e não se arrepende…

Alda M S Santos

Não sabemos amar!

NÃO SABEMOS AMAR!

Evoluímos tanto em milênios de existência, alcançamos o espaço sideral

Criamos e desvelamos recursos tecnológicos que podem muito nossas vidas facilitar

Viajamos pelo corpo humano, descobrindo cura para quase todo tipo de mal

Mas na arte de amar ainda estamos a engatinhar

O que ainda não desvendamos, não compreendemos, que ainda nos mata e poderia nos salvar

É saber e aceitar que amar não é sofrer, medrar, julgar, vigiar, desconfiar, cobrar, apossar

O que nos falta é não “evoluir”, não crescer, não desaprender a sabedoria inata e infantil de amar

Aquela que vimos em Jesus, que toda criança sabe: amar é respeitar, perdoar, se doar, confiar, se entregar…

Não sabemos amar!

Nós, adultos, precisamos ser crianças, na alma e no coração

Se quisermos viver o amor em sua plenitude, sem tanta razão…

Alda M S Santos

Quando acordas

QUANDO ACORDAS

Aquele primeiro pensamento que vem à sua mente quando acordas

Seja quando os raios de sol invadem sua janela ou quando a chuva tamborila no telhado

Seja quando tudo é sorriso, luz e brilho ou quando são lágrimas e sombras

Talvez o mesmo por dias, meses, anos a fio

Te estimula a seguir em frente, te anima, encoraja

Te faz sorrir para a vida, para os outros, ser alguém melhor

Acreditar que tudo pode ser possível, ser mais forte

Ou esse pensamento te entristece, desestimula, acovarda, te faz menos do que é?

Tantas vezes tirando até mesmo o desejo de levantar-se da cama?

Se é fonte de força, fé, amor, coragem e esperança

Não abra mão dele…torne-o real, alimente-o

Mas se apenas te joga para baixo, te faz desacreditar em seu poder de dar a volta por cima

Tá na hora de mudar o pensamento, substituir por algo mais benéfico

Ou mudar de atitude…

Alda M S Santos

Intolerância e barbárie

INTOLERÂNCIA E BARBÁRIE

Não existe crueldade maior do que aquela que se cobre com manto religioso

Aquela que se vale do “interpretado” do Sagrado para justificar barbáries

Para esconder, até de si mesmo, suas próprias misérias e mazelas, humanas ou desumanas

As guerras religiosas ou “santas” estão aí há mais de vinte séculos

Matando em nome de Deus, lavando as mãos em nome do Pai

Assumindo incapacidade de ações finalizadoras do caos,

A inércia, imperícia e inoperância humana apoiando-se numa “ordem divina”

Não mata o outro apenas quem puxa o gatilho, lança bombas ou mísseis

Também é corresponsável aquele que não impede, tendo poder para tanto,

Ou que justifica a maldade valendo-se de textos Sagrados mal interpretados

Escondendo-se no véu da hipocrisia, da pureza e perfeição inexistentes

O mesmo se aplica à morte diária que permitimos ao nosso lado

Quando não estendemos a mão para ajudar “pecadores”, como se fôssemos puros ou perfeitos

Ou quando expulsamos ou excluímos de nosso meio quem necessita de ajuda

Ele foi “embora” há mais de 2000 anos

Mas deixou seu legado de amor que ainda precisamos aprender todos os dias

Jesus nunca excluiu ninguém! Nunca ordenou ou permitiu qualquer morte ou excomunhão!

Ao contrário, Suas lições foram sempre baseadas no amor e no perdão.

Não podemos fazer nada contra essa guerra? Façamos em nossas guerras particulares!

Se quisermos encontrá-Lo, não será nos templos de pedra que estará

Mas nos corações sofridos e renegados nesse mundo de barbáries (des)humanas!

Alda M S Santos

Preferências

PREFERÊNCIAS

Há quem olhe para a poeira e feiúra das ruínas

Mas há quem veja nelas a possibilidade de encontrar um baú de tesouros

Há quem se assuste com os barulhos e destruição das tempestades

Mas há os que aguardem ansiosos o arco-íris que a elas se segue

Há quem veja naufrágio, sombra, afogamento e terror nas ondas revoltas do mar

Mas há quem veja sossego e paz em suas águas verdes e espuma branca que lavam e levam embora o indesejado

Há quem veja numa árvore frondosa muitas folhas a sujar o quintal ou a rua

Mas há quem veja galhos para subir, flores e pássaros para admirar, frutos para se alimentar

Há quem se enfeze com os espinhos, pragas e ervas daninhas dos jardins,

Mas há quem se alegre e sinta o perfume, as cores e músicas encantadores

Há quem reclame do cansaço do trabalho ou dos estudos

Mas há quem se fixe no bem que essa dedicação pode trazer

Há quem se põe, rabugento, inerte, a criticar os corajosos, alegres e afoitos

Mas há aqueles que, apesar de joelhos esfolados, cara quebrada, mantêm o sorriso pedalando sua bicicleta

Há quem evite amar, confiar, por medo de ter o coração partido

Mas há os que amam, se arriscam, ganham ou perdem, sorriem, choram, sofrem, têm saudades, vivem…

E há aqueles que percebem-se de coração partido por falta de uso, de vida.

Todos podemos ter medos, nos assustar, nos acovardar, desconfiar, entristecer, fraquejar, reclamar das dificuldades…

Mas o que fazemos com esses sentimentos tão humanos,

É que dá o tom diferencial de nossas vidas….

Alda M S Santos

Apenas uma vez

APENAS UMA VEZ

Ele diz categórico, atrás daquela postura encurvada, “apenas uma vez é permitido esse erro”!

O olhar daquele idoso cheio de dignidade era de profundo cansaço naquele ambiente solitário

Gosto de imaginar histórias atrás de olhares, particularmente os nostálgicos

Acabei dando abertura e ele me confidenciou:

“Sou triste, mas tenho alegrias também, pois carrego a culpa de ter destruído nessa vida apenas uma família: a minha”

Falei que a vida é aprendizado mesmo, equilíbrio entre erros e acertos…

“Tive chance de talvez ser novamente feliz, mas não podia carregar o peso de afastar outro pai do convívio com os filhos, como aconteceu comigo e meus filhos”

Era uma pessoa melancólica, mas tinha uma certeza ao vasculhar seus arquivos pessoais

“Deus nos deixa agir errado, se é nossa escolha, mas o mesmo erro Ele só perdoa uma vez”

Era essa convicção que mantinha sua integridade moral

E ao fazer o equilíbrio, o balanço de sua vida

Erros iam sendo amenizados pelos acertos, fazendo a ponte entre perdas e ganhos…

Afirmei que não podemos carregar a responsabilidade da felicidade de todos, tentando animá-lo

E enfatizei que Deus até nos perdoa muitas vezes,

Mas nós mesmos é que, nem sempre, suportamos o peso de nossas culpas

“Nosso céu ou nosso inferno estão aqui dentro, moça bonita”!- diz apontando para a cabeça.

Felicidade que carrega o ônus da infelicidade alheia é muito pesada

E a vida acaba por cobrar o preço…

Alda M S Santos

Sem borracha

SEM BORRACHA

Viver é escrever à caneta, desenhar sem borracha

É precisar aproveitar cada linha escrita, cada traço feito

E nessa louca procura, em que o que se quer nem sempre se acha

Precisamos transformar dor em versos, disfarçar o que é tido como defeito

Para cada flor desenha-se um beija-flor

Para cada lágrima que cai uma rosa a sugar e reaproveitar sua dor

Para cada risco incerto desse desenho, às vezes sem cor

Tentamos fazer um grande e colorido mosaico furta-cor

Viver é pintar com verde-mata, vermelho-sangue ou branco- neve

Mas não dispensar o preto retinto ou o amarelo-girassol

É entender que nessa mistura é que se faz o que é eterno ou o que é breve

É saber dia ou noite, ser lua, céu, mar, estrela ou sol

Viver é desenhar sem borracha, é não descartar o borrão

É fazer uma obra-prima digna do Mestre, original

Ter sempre o olhar do artista, valorizar toda a emoção

É acreditar que a arte da vida sempre tem um tom divinal…

Alda M S Santos

Amore

AMORE

Amore, quando faltar sossego, busque refúgio em sua alma

Ela possui uma cama quentinha e aconchegante pra te acalmar

Amore, quando precisar de disposição, busque-a em sua alma

Ela é um depósito com livre acesso a lembranças e sensações boas e animadoras

Amore, quando sentir falta de perdão, busque-o em sua alma

Ela é um “tribunal” verdadeiro e justo

Amore, se as sombras apagarem ou confundirem seu caminho, siga a trilha da sua alma

Nela está a única luz capaz de iluminar sua caminhada

Amore, se tiver necessidade de sentir-se vivo, em paz, busque vida em sua alma

Nela, por mais inóspita que esteja, Eu vivo lá

Amore, se quiser ser amado, busque sua alma

Lá está seu eu verdadeiro, o melhor de si…

Tudo que você precisa para ser feliz está lá

Porque Eu estou lá, se puder Me ver…

E Eu nunca deixarei você sozinho!

Pode confiar em Mim, no Meu amor? 🙏😇

Alda M S Santos

Naquele banco da praça

NAQUELE BANCO DA PRAÇA

Um banco convidativo numa praça, paisagem linda, calmante

E você sentado ali sozinho, saudoso, amargurado, pesando sua vida

Lágrimas insistentes, peito apertado

Vontade imensa de ter alguém com quem dividir suas dores…

Haveria alguém com quem tivesse coragem de se abrir totalmente

Despejar tudo, fazer uma faxina interna, confiar?

Imagine se Ele sentasse ao seu lado, te abraçasse longamente

Olhos nos olhos, face a face, sem julgamentos

Que você faria?

Choraria, ficaria feliz, contaria a Ele tudo num desabafo

Mesmo tendo consciência de que Ele tudo sabe, compreende

Seus medos mais infantis e tolos, e os mais sérios também

Suas fraquezas e angústias, dores profundas

Os erros conscientes e inconscientes cometidos

As lutas, as vitórias, os desejos

Os caminhos errados, as más escolhas,

Males que causou a si e aos outros

O amor que viveu, o que não valorizou, não soube viver, oportunidades perdidas

Todas as lágrimas derramadas em seu travesseiro, angústias sufocadas

Cobraria algo Dele, algum esclarecimento, dívidas

Seria maduro o bastante para assumir suas responsabilidades na desordem em que se encontra?

Que teria a dizer em sua “defesa”,

Se Ele se sentasse ao seu lado?

Ele está conosco todo o tempo

Apenas à espera que busquemos por Ele

Que possamos nos abrir com Ele, confiar

E, assim que o fizermos, sentiremos Seu abraço demorado e terno

Seu amor infinito e especial

E seguiremos mais fortes, nunca mais sozinhos…

Alda M S Santos

Terminou, mas não acabou…

TERMINOU, MAS NÃO ACABOU…

Aquela vida que se jogou do alto de uma passarela no asfalto lá embaixo

Deixa a sensação aos que ficam de que há algo inacabado

Terminou, mas não acabou…

Não era a hora, foi interrompida por força das circunstâncias que desconhecemos

Aquele relacionamento feliz, mas que andava pisando em ovos, lutando contra medos, culpas, fragilidades e inseguranças

Terminou, mas não acabou…

Não acaba quando o amor permanece, a saudade ainda machuca, a ausência fere e dói

Quando não é dado um fim pacífico dentro de si

Aquele ser que se levanta todos os dias, sem brilho, sem alegria, sem norte

Que não encontra razões para estar vivo, cujos olhos opacos não dizem nada além de “cansado de viver”

Ainda não terminou, mas está se acabando…

Exceto o que deu fim a si mesmo lançando-se pelas dores e amarguras ao asfalto

E que continua apenas na mente dos que ficaram e nada puderam fazer,

Os demais não se acabaram, ainda que pareçam finalizados

Não estão mortos, a vida existe lá dentro

Camuflada em meio à penumbra da solidão

E precisa de luz para ser de novo despertada,

Esse suicídio lento pode e deve ser interrompido

Deixar correr as águas desse rio para a imensidão do mar

Retirar as amarras, as cordas do pescoço, desfazer os nós

Criar laços de amor e vida…

Alda M S Santos

Nutrição

NUTRIÇÃO

Cuidar da nutrição é nossa obrigação, nossa responsabilidade

Tudo que em nós prevalece, realça e encanta

É aquilo que mais temos alimentado

A depressão e tristeza alimentam-se dos traumas, das sombras do isolamento

A alegria e o sorriso alimentam-se de disposição, ânimo, fé, coragem

Os medos preferem as culpas, prato quente da revolta ou frio da vingança

A baixa autoestima nutre-se de falsos amigos, espelhos quebrados

O amor- próprio, por sua vez, gosta de sinceridade, carinho, autoconhecimento, olhar terno

A derrota prefere a inércia, o desânimo, a recidiva em erros já conhecidos, a covardia

A vitória busca o prato saudável da autoconfiança, fé, persistência e esperança

A infelicidade alimenta-se de muitos pratos de desconfiança, discórdias e mau-humor

A felicidade nutre-se da amizade, dos bons e saudáveis relacionamentos, da união da família

A família alimenta-se do carinho, da confiança e afeto entre seus membros

E carinho e afeto são ingredientes de pratos que se monta e se mantém com amor verdadeiro

Uma família alimentada com amor verdadeiro todos os dias não definha

Fica bem nutrida, forte e vacinada contra antígenos e outros vírus quaisquer…

Que temos alimentado em nós?

Alda M S Santos

Simplesmente nua

SIMPLESMENTE NUA

Quero ter a coragem de me apresentar nua,

Completamente nua, sem disfarces ou maquiagens

Alma rasgada, sem vergonhas, pudores ou medos

Nasci nua, nua retornarei

Querendo ou não…

De nada valerá tudo que aqui acumulei

Exceto o que tiver guardado na sacola leve da minha alma

Ou nos espaços especiais, cedidos ou por empréstimo,

Que tiver ocupado positivamente na alma de alguém

Bens materiais, diplomas, cultura, contas bancárias…

Tudo são “vestimentas”, acessórios!

Currículo só valerá o emocional

Tudo o mais ficará para trás…

O que interessa é se isso tudo

Permitiu que eu me tornasse uma pessoa melhor,

Mais tolerante, amiga, amável, solidária, correta

Para mim mesma, para aqueles que me cercam…

Nudez da alma é a verdadeiramente cativante

E é só por ela que Ele se interessa!

Simplesmente nua, assim quero me apresentar…

Alda M S Santos

Enxurrada

ENXURRADA

Desce os morros, nos cantos, a princípio

Espalha-se pela rua toda, clara em alguns pontos

Muita água corre nessa enxurrada

Está tão suja, barrenta!

Veio lavando muita sujeira pelo caminho

Ainda assim, parece convidativa

Uma enxurrada, ou desperta a criança em nós,

Desejo de andar naquelas águas, molhar-se, molhar o outro, dar gargalhadas

Ou desperta um adulto frustrado e triste, resmungão

Daqueles que têm medo e nojo de tudo, amargurados

Sob o risco de contaminação por uma doença qualquer

Ainda prefiro ser o adulto/criança que brinca na enxurrada

A ser aquele adulto que já matou a criança em si

E sofre de uma outra patologia mais grave: o medo de viver…

Alda M S Santos

Deus em nós

DEUS EM NÓS

Como Deus se apresenta em nós?

Onde Ele está?

Certo é que somos templos do Divino, onde quer que estejamos: no deserto ou no oásis

Como deixamos que Ele se manifeste em nós?

Deus está na beleza física, na música, na arte, nas nossas condições financeiras?

Na solidariedade, na bondade, no trabalho, nos relacionamentos, no amor?

Deus tudo criou!

Ele está em todo tipo de beleza, nas artes, nas lágrimas e no dinheiro,

Tanto quanto pode estar no amor, na solidariedade ou na bondade.

Nada é bom ou mau por si só.

A diferença entre um e outro estará no uso que deles fizermos.

A beleza, a arte, o dinheiro podem ser utilizados para o bem, para tocar alguém, salvar alguém

Assim como em nome do “amor”, com um sorriso, muito de negativo pode ser feito também

Pessoas, famílias, vidas serem prejudicadas ou destruídas,

Inclusive a de nós mesmos…

Como temos deixado Deus agir em nós?

Alda M S Santos

Eis-me aqui

EIS-ME AQUI

Na simplicidade de uma criança a balançar na gangorra na mangueira

Na singeleza da rosa que equilibra em suas pétalas o orvalho da manhã

No remanso do rio e no caminho que percorre o pescador

Ele está!

Na chuva que cai torrencial sobre a terra como maná

No sol que se levanta e se põe na hora certinha, brilha, aquece e gera vida

No amor infinito da mãe que acalenta seu rebento

Nos olhos saudosos e cansados dos idosos

Ele está!

Na alegria que nasce nos corações daqueles que amam

Na tristeza que mina as forças, que gera rios de lágrimas

Na vida que nasce a cada amanhecer ou morre a cada entardecer

Na sinfonia dos pássaros a procriar

Nas águas insistentes da cachoeira a moldar as pedras

No manto escuro salpicado de estrelas que cobre a noite

Ele está! Ele é perfeito!

Ele é pai e, sabendo que Ele está, sei que estou aqui, que sou aceita…

Sou filha! Sou imperfeita!

Filha de muitas alegrias, dores, vitórias, derrotas,

Angústias, saudades, erros, acertos, amores e desamores…

Eis-me aqui…

Alda M S Santos

Mal acostumados?

MAL ACOSTUMADOS?

Um dia, aguando o jardim fui alertada a reduzir a irrigação

“Não pode molhar todos os dias, vão se acostumar e sentir falta depois…”

Quantas vezes usamos esse raciocínio para a vida?

O quanto de bom somos privados para não ficarmos mal acostumados?

Um alimento, um passeio, noites de sono, descanso

Companhias, risadas, carinho, amor…

Claro, toda mudança é sentida

Particularmente quando algo de bom é retirado

Cuidar para não criar dependência do que é impossível manter é sábio

Mas privar-se de algo prazeroso pra não sentir falta depois

Não me parece muito inteligente.

E as flores recebiam felizes a água que eu as oferecia diariamente,

Amanhã é outro dia. Incerto.

Se precisarem buscarão reservas no solo

Como nós buscamos reservas em nossa alma quando precisamos

Se ela estiver bem nutrida,

A vida segue florida…

Alda M S Santos

Eterno

ETERNO

Em nossa finitude humana pretendemos a eternidade

Nos tornarmos eternos é nossa “necessidade”

Queremos o que é eterno, o que de nós for duradouro, infinito

No que há de mais real, profundo e verdadeiro,

Somos eternos na parte de nós viva em nossos filhos

Sentimo-nos eternos no olhar do amor infinito de alguém que repousa sobre nós

Somos eternos nos pais que têm nossas feições gravadas na mente

Somos eternos nas marcas profundas feito ferro em brasa que deixamos naqueles para os quais fazemos o bem

Também somos eternos, infelizmente, naqueles que fazemos o mal.

Encontramos eternidade apenas nos relacionamentos

Essa necessidade de eternidade guia nossas vidas

Mas só somos realmente eternos naqueles que amamos, que nos amaram

Nos recantos dentro deles onde transitamos, estacionamos

Somos eternos quando Ele nos olha e Se vê nos nossos olhos,

Mas principalmente quando nos enxerga no que deixamos de bom dentro dos outros…

Alda M S Santos

Nossos horizontes

NOSSOS HORIZONTES

O tamanho de nossos horizontes,

A distância que eles se encontram de nós

As possibilidades que nos apresentam

Dependem muito dos caminhos que percorremos primeiro dentro de nós

A princípio, o horizonte pode ser extenso, lindo, colorido

Mas com o tempo pode ir se reduzindo, perdendo a beleza, as cores

Quando nos prendemos demais nos caminhos tortuosos dentro de nós mesmos

Podemos nos perder, nossos horizontes parecerão menores, mais distantes, impossíveis

Vão diminuindo, se amiudando…

Para enxergar as possibilidades que o horizonte nos oferece

É preciso tirar o foco de nossos labirintos internos

E olhar ao longe…

Alda M S Santos

Subversivo

SUBVERSIVO

Quando estiver num ambiente e faltar amor

Seja o subversivo: ame!

Espalhe o amor, plante o amor

Subversivos têm facilidade para atrair seguidores

Para contagiar, impregnar

E não há vacina que resolva!

Alda M S Santos

Para onde voltar

PARA ONDE VOLTAR

Ter pra onde ir, mesmo sem saber ao certo o lugar, é bom

Abrir caminhos nessa imensidão, com a precisão da lâmina afiada da foice da nossa ansiedade

Com a velocidade e força da vida que pulsa e corre em nossas veias

Desejo de conhecer o mundo além de nossas porteiras fechadas

Conquistá-lo, vencê-lo, fazer história,

Atrelar nossa história à história de alguém,

Deixar nossas boas sementes plantadas para a posteridade

Colher bons frutos, chorar pelos que não vingaram

E chega a hora de querer voltar…

Voltar pra onde?

Temos para onde voltar?

Aquela porteira de outrora abrirá para nós novamente?

Irá nos reconhecer?

Pais, avós, amigos, nós mesmos, o quanto nos distanciamos?

Caberemos lá dentro, agora que os sonhos foram satisfeitos ou esquecidos

As angústias controladas, os medos vencidos

E a vida já não pulsa tão forte em nós quanto águas de cachoeira na serra

Mas na tranquilidade das águas de um rio que segue seu curso, seu remanso

Sabendo-se vida para tantos…

Queremos sempre voltar em algum momento

Como se algo precioso tivesse ficado lá atrás

Alguém a quem prestar contas do que foi vivido, uma avaliação

Voltar para nós mesmos, nos reconhecer, é um bom começo

Olhar naquele espelho da casinha simples de adobe que muitas vezes buscamos

Ver nos olhos que aquele espelho reflete os olhos Dele a nos receber

E poder nos dizer “que bom que está aqui e, apesar de mudado, reconheço você, sua essência se preservou”

Alguém que encontrou o retorno dentro de si mesmo

E não tem do que se envergonhar, ou quase não tem

Isso é ter pra onde voltar…

E sem medo de não ser bem recebido!

Ter pra onde ir é muito bom

Ter pra onde voltar é maravilhoso…

Alda M S Santos

Ele sempre volta

ELE SEMPRE VOLTA

Estava escondido, encoberto, mas sempre lá

Sabe que é necessário, às vezes, ceder lugar, recolher-se

Deixar a natureza agir, molhar-se, hibernar

Confia em sua capacidade de resistir, de aquecer, mesmo entre nuvens

Ou debaixo de chuva constante

Sabe que tem seu lugar conquistado

Volta quente, lindo, brilhante como nunca

Alguns estranham, ficam ofuscados sob tanto brilho e calor

Outros, aceitam e saúdam o Sol em suas vidas

“Que bom que você voltou, senti falta do seu brilho e calor”

Quem soube aproveitar a chuva,

Se irrigar, abastecer seus mananciais

Lidar bem com a ausência do Sol

Saberá recebê-lo de braços abertos

Aquecer-se novamente, sabendo que somos assim mesmo

Nossa natureza é feita de presenças e ausências

De Sol e chuva, dia e noite, luz e sombras, sorrisos e lágrimas

Vive melhor quem aprende a lidar com elas

A estar preparado para esse constante vai e vem

Fácil? Nunca!

Mas a vida se impõe e vale cada aprendizado!

Alda M S Santos

Em casa

EM CASA

Sinto-me em casa quando posso ser quem sou

Sem constrangimentos, andar descalça, descabelada, ou não

Nua em pelo, de corpo e alma

Ou num moletom desbotado e nada sexy

Sem temer julgamentos ou represálias, sem falsos pudores

Com a certeza de ser aceita como sou

Dizer tudo que aprouver, ouvir sem resistência, com prazer

Ou silenciar, sem causar lacunas desagradáveis

Usar aquele baby-doll confortável que mais parece um abraço

Aqueles chinelos gastos como as memórias

Ouvir e cantar a música preferida bem desafinada, não importa

Esparramar na rede, ler um bom livro,

Entregar-me às boas memórias, às saudades, aos sonhos

Assistir um filme no sofá com um pote grande de pipoca

Ouvindo a chuva cantarolar feliz no telhado

Numa sintonia perfeita com minha alma

Aceitação total de quem sou, sem amargar culpas

Aceitando as pedras que aparecerem como oportunidade de superação

Sem ferir ou machucar ninguém, ajudando, se possível

Sabendo que Alguém lá em cima me ama e olha por mim

Isso é estar em casa!

Qualquer lugar ou pessoa que nos faça ser ou sentir diferente disso

São, no máximo, tolerados…

Estar em casa é um estado de espírito de graça

De simplicidade, harmonia e paz…

Alda M S Santos

Quanto vale uma vida?

QUANTO VALE UMA VIDA?

Uma pergunta difícil : quanto vale uma vida?

Uma vida vale tudo, mas não há nada que pague.

Também não vale nada, visto que não há valor material que possa sustentá-la

E tantas vezes parece estar presa a um único fio…e perdura

E outras, parece forte… e se perde

Vale o tamanho do nosso amor, da dor que fica

Da ausência deixada, da lacuna não preenchida

Como amor não tem medida, a vida também não tem…

Qualquer vida que se perde

Que permitimos que se vá

Que não conseguimos impedir a partida

É uma perda irreparável,

Independente de quem foi

Sexo, idade, classe social, instrução, religião, profissão…

É sempre um projeto de Deus interrompido…

E uma vida nunca pode substituir a outra

Cada vida é única e especial

Algumas são mais preciosas para a gente que outras

São aquelas que Deus nos entregou nas mãos e disse

“Cuida, confio em você”!

São aquelas pelas quais seremos cobrados

São aquelas que trazem tudo de bom que temos

Que fazem a nossa própria vida ser preciosa

Que nos alimentam de sorrisos e lágrimas

Que nos fazem acender, manter e fazer valer nossa porção divina…

Alda M S Santos

Qual seu barato?

QUAL SEU BARATO?

Em tempos dos mais variados alucinógenos

Das mais complexas e temidas doenças mentais e emocionais

Fugas são sempre um modo de reagir ao que incomoda

Os “baratos” são meios de tornar mais leve o que é pesado

Drogas de todo tipo dão a ilusão de paz

A falsa sensação de leveza que acaba por tornar-se mais pesada

Qual meu “barato”?

Leitura: viajo muito, de graça, sem sair do lugar

Natureza: encontro com o que tenho de mais natural

Música: a preferida, bem alta, com risos ou lágrimas e possibilidade de catarse mental

Escrita: divido com os outros o que nem eu mesma entendo

Atividade física: extravaso energia

Qual seu barato?

Alda M S Santos

No livro da minha vida

NO LIVRO DA MINHA VIDA

Quem sou no livro da minha vida?

Autora, protagonista, coadjuvante,

Ou apenas mera figurante?

Qual a trama que me envolve

Fujo dela, enfrento, busco novos cenários

Encontro outros núcleos importantes,

Ou sou fechada em mim mesma?

Possuo par romântico, sonhos e ideais compartilhados

Ou sou autossuficiente e basto a mim mesma?

Sou daquelas mocinhas românticas e sonhadoras

Ou a “bandida” que faz mal aos outros e a si mesma?

Tenho trilha sonora própria e melodramática

Ou sou lutadora, guerreira, corajosa, humana

Mesmo sem perder a feminilidade, a doçura?

Sou um livro aberto, claro e cristalino

Ou daqueles cheios de suspense e mistério

Onde ninguém sabe o que esperar do próximo capítulo?

Quem sou eu no livro da minha vida?

Mesmo redescobrindo a cada dia quem sou

Fundamental é não desistir nunca dessa história

Sou responsável por essa edição, sucesso ou não!

E você, que personagem é?

Alda M S Santos

Céu e inferno

CÉU E INFERNO

Ansiamos pelo céu, tememos o inferno

Mas ambos estão muito pertinho de nós

Na verdade, ambos estão dentro de nós, ou nós dentro deles

Estamos no paraíso quando experimentamos boas sensações

Amor correspondido, amizade sincera, família unida

Corpo e mente saudáveis, paz conosco mesmos

Tudo lá fora torna-se lindo, colorido, brilhante, mesmo com raios e trovões, gelo ou nuvens pesadas…

Isso é paraíso.

Experimentamos o inferno quando não temos sintonia conosco, com os outros

Quando faltam empatia, amor, amizade, sossego

Quando sobram culpas, autoflagelos, dores, males físicos e mentais

Autopiedade, desconfianças, desamor, escuridão

Lá fora pode ser um espetáculo maravilhoso, sol quente, amor, natureza viva

E nós de olhos cerrados nos sentindo destruídos …

Isso é inferno.

O céu e o inferno, se fossem um lugar específico

Se tivessem que ser localizados num mapa

Seriam dentro de nossa própria mente, de nossa consciência

No mais íntimo de nossa alma

E depende de nós entrar ou sair de cada um deles

Fazer malas, mudar, deixar pra trás o que fere, ainda que com sofrimento

Mudanças sempre são dolorosas

E não precisamos morrer para isso…

Alda M S Santos

Muitas maneiras de estar sozinho

MUITAS MANEIRAS DE ESTAR SOZINHO

Um dos grandes temores de todos nós: a solidão

Tantas são as maneiras de se estar só

Cercados de gente, numa festa ou num bar

No trabalho, na academia, no lar ou na igreja

Pode-se estar mais só que sozinho no quarto,

No alto de uma montanha, num hospital, numa casa de repouso ou numa praia deserta

Solidão é estado interior, é negação da própria presença

Se dentro estiver vazio ou mal preenchido

Se não houver amor próprio e boas lembranças

Consciência limpa e fé no caminhar, no porvir

Podemos nos cercar de tudo e de todos

Que a sensação de solidão persistirá

Antes de buscar superar a solidão com companhias

Transferir para o outro a responsabilidade de nos preencher, que é nossa

Precisamos estar bem com nossa própria pessoa,

É com ela que sempre poderemos contar…

Alda M S Santos

Perpetuando a espécie

PERPETUANDO A ESPÉCIE

Sempre tão ágeis, ariscos e espertos

Instinto de autopreservação aguçado

Quase nunca conseguimos nos aproximar

Basta o amor…

E a vida se põe em risco!

Não veem o perigo se aproximar

Disfarçado de turista, pescador

Ou simples admirador das belezas naturais…

Perpetuar a espécie também é se preservar

Cuidar de si, do outro

Viva o amor!

Alda M S Santos

Iemanjá e a fé

IEMANJÁ E A FÉ

Fé: cada qual tem a sua, tão particular, tão individual

Outras vezes tão radical, extremista, excludente

Fugindo, assim, à razão de ser de toda fé

Nos tornar melhores pessoas, mais tolerantes, mais humanas, mais felizes…

Não importa se cremos na proteção da Nossa Senhora dos Navegantes,

Em Iemanjá, a rainha do mar,

Se ofertamos oferendas ou não

Ou se em nada disso cremos

Importante é respeitar a fé de todos

E que nossas atitudes perante a vida

Sejam sempre “oferendas” de amor e paz…

Basta de “guerras santas”!

Alda M S Santos

Viver não é fácil

VIVER NÃO É FÁCIL!

Maior que a satisfação de ficarmos e nos fazermos bem

É a responsabilidade de fazermos felizes aqueles que caminham conosco

Que dividem o mesmo espaço conosco nessa dimensão

Quer sejam filhos, pais, irmãos, cônjuge, amigos…

Viver é mais do que cuidar de nossa própria felicidade

É estar atento para não descuidar da vida daqueles que nos foram confiados

E cuja felicidade está diretamente ligada a nós

Somos responsáveis por nossos atos

E, de certa forma, pelos atos que viermos a despertar nos outros: bons ou ruins, leves ou pesados

Vidas se entrelaçam e se interdependem

Viver é, além de buscar pela nossa felicidade,

Cuidar para não bagunçar a felicidade dos outros,

Se possível, fazendo felizes aqueles que de nós se aproximarem

Quem foi que disse que viver é fácil?

Alda M S Santos

Gratidão

GRATIDÃO

Gratidão: uma das mais raras e complexas virtudes

Exige uma alma evoluída e em paz consigo mesma

É tão necessária para conquistarmos o que almejamos

Para seguirmos em frente, acertando o passo conosco mesmos

Saber olhar para trás e ser gratos ao que ficou lá,

Ao que recebemos de variadas fontes ou pessoas,

Mesmo que ainda faça falta,

Entender que foi bom, foi útil, foi saudável

Nos possibilitou alegrias, amor, autoestima

E ficará guardadinho num espaço especial de nossos corações,

Lembranças para serem ativadas nos momentos de fragilidade

O bom deixa saudades, o ruim deixa aprendizado

Ser grato e respeitoso à vida que se apresentou

É um combustível excelente a mover nossos motores

Rumo à felicidade…

Alda M S Santos

Flertando

FLERTANDO

Viver na superfície, sentado num banco, confortavelmente

Observando as belezas à nossa volta, nada a nos surpreender

É uma opção suave e tranquila de vida…

Viver no entorno, entrar na mata, nadar nas lagoas, enfrentar espinhos

Pescar, refrescar a si e aos outros

É uma opção mais ativa, porém, mais riscos…

Viver de mergulhos profundos, buscando sempre o novo

Esbarrando nas paredes mais escuras do lago

É uma opção mais complicada!

Nós somos esse lago atraente, convidativo

Só nos conheceremos a fundo se mergulharmos

Nas profundezas obscuras de nós mesmos

Se flertarmos conosco, desvendarmos nossos mistérios sem medos

Em busca do melhor que pudermos ser,

Para nós, para os outros,

E sermos mais felizes…

Alda M S Santos

Nos braços do Juquinha

NOS BRAÇOS DO JUQUINHA

Onde ele viveu, como ele viveu

Cercado das serras de Minas

Na Serra do Cipó, grande atração eternizada numa estátua

Parada obrigatória para se maravilhar com a vista

Saborear um frango com quiabo ou tropeiro numa taberna

E estar nos braços do Juquinha

Aquele que, gentil, entregava flores às moças

Andarilho, amante da natureza, apegado às montanhas

Que, uma vez morto, voltou e viveu mais um pouco, cataléptico,

Maravilhosas estradas de Minas,

Onde hoje, José Patrício, o Juquinha, tornou-se lenda…

Alda M S Santos

Nos bancos da calçada

NOS BANCOS DA CALÇADA

Casinhas simples, receptividade gigante, janelas na divisa com a rua

Ao sabor do vento, do sol, da chuva

E dos olhares curiosos de quem passa…

Terreiros grandes que costumam dar num ribeirão

Muitas vezes com hortas, galinheiros, pomares, chiqueiros, cisternas…

Na calçada, banquinhos de todo tipo

Madeiras, troncos de árvores, tijolo, concreto, não importa

A prosa dos fins de tarde após a lida que eles possibilitam é que interessa

O tempo que virou, o filho que não apareceu, o netinho precisando benzer

As galinhas que pararam de botar, o Bingo da igreja,

A comadre que está ruim das vistas ou a teimosia do compadre

A filha que se formou, o neto que nasceu nos Estados Unidos e começou a andar

O prefeito que está envolvido em mais uma falcatrua ou corrupção

A sobrinha que foi para Belo Horizonte com o filhinho doente,

A Maria do João Neto que doou um bezerro para a rifa da festa de Nossa Senhora Aparecida…

Entre os estrepes dos pés e os estrepes da vida

Tudo é compartilhado nos bancos da calçada

E a vida se torna mais leve,

Numa boa prosa de fim de tarde olhando a rua,

Aguardando aquela visita ou telefonema que nem sempre chegam…

Alda M S Santos

Nas pedras

NAS PEDRAS

Nas pedras, obstáculos

Limites de nosso ser, do nosso querer

Impedimento da liberdade, cerceamento

Nas pedras, escadas

Acesso à escalada , incentivo ao topo

Busca de coragem, de ir sempre mais, para o alto

Ainda que no alto encontremos apenas nós mesmos

E nos abracemos felizes…

Alda M S Santos

Volta por cima

VOLTA POR CIMA

“Levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”

Tão necessário nas trilhas da vida

Lema dos vencedores!

Nas grandes quedas, aquelas das quais não conseguimos levantar tão rapidamente

Todo cuidado é pouco para não derrubar mais ninguém

Além de quem já foi derrubado e de nós mesmos

Se uma volta por cima implicar em jogar poeira nos olhos dos outros

Ou lançar alguém para a “volta de baixo”

O melhor mesmo é ficar dignamente onde está…

Alda M S Santos

Tempestades

TEMPESTADES

Ainda que nosso céu pareça claro

Azul, brisa suave, águas limpas

Tempestades podem se aproximar, molhar tudo

Lançar raios e trovões sobre nossas paredes internas

Vendavais de areia cegar nosso olhar

Balançar nossa estrutura, nos lançar contra as pedras…

Fugir delas nem sempre é possível

Encarar, absorver o que der, abstrair-se do que for possível

Esperá-la passar, sempre passa!

E receber de braços abertos novo céu azul…

Alda M S Santos

Desejos

DESEJOS

Desejo que encontremos a harmonia da vida que há dentro de nós

E que possamos levá-la a todos os lugares, a todas as criaturas

Vida harmônica repleta de amor, de amizade, de paz

A cada flor, a cada bicho, a cada ser humano que cruzar nosso caminho

Que a gente sintonize com todos eles,

Ignorando decepções, descartando tristezas,

Que no balanço da vida saibamos neutralizar ou anestesiar o que machuca, que fere,

Que a dor arrefeça, que o amor prevaleça, que a vida aconteça

Atraindo carinho, refletindo luz

Numa comunhão universal e divina!

Alda M S Santos

Como um beija-flor

COMO UM BEIJA-FLOR

Entre muitas cores e sons

Tons, nuances, texturas …

O olhar transita entre o próximo

O distante e o longínquo

Ora apenas fixa longe sem nada ver

Ora quer trazer para dentro de si as belezas distantes,

Acalentá-las num cantinho qualquer de nossa alma,

Somos assim…incertos…

Como um beija-flor que suga sem cessar

Precisamos parar, descansar, observar calmamente a grandeza à nossa volta,

Absorver tudo de bom que pudermos conseguir…

Abastecer-nos de riquezas,  estocar para as horas de carestia,

Corpo, mente, alma, coração…

Sabedoria da natureza: tudo aproveitar, nada desperdiçar,

Como um beija-flor…

Alda M S Santos

Certeza do fim

CERTEZA DO FIM

Se houvesse a certeza de que amanhã seria o fim de tudo

Por qualquer dos métodos escabrosos de auto-destruição que nós mesmos criamos

Qual seria nosso maior arrependimento?

Qual seria nosso maior orgulho?

Existe algum lugar especial em que gostaríamos de estar?

Algo específico que gostaríamos de fazer?

Ou alguém especial para estar junto, abraçadinho?

As respostas a essas três perguntas

Também responderá qual o arrependimento e o orgulho

E poderá direcionar nossos passos seguintes

Qual seria nosso cartão de visitas no céu?

Sempre há os crédulos na proximidade do fim

Isso pode ser ideia de algum insano

Ou de alguém bastante lúcido

Podemos escolher em qual acreditar…

Alda MS Santos

Por onde tens andado?

POR ONDE TENS ANDADO?

Por onde tens andado?

As estradas nem sempre são planas ou belas…

Que caminhos tens trilhado?

As trilhas, muitas vezes, têm bifurcações confusas…

O que tens plantado?

As sementes nem sempre são boas ou as terras férteis…

O que tens colhido?

A colheita nem sempre é farta ou digna…

Mas, mais vale com quem se anda

Com quem se planta e se cuida

E com quem se partilha a colheita…

Os pés podem estar sujos dos caminhos incertos

As mãos machucadas pela colheita mirrada

Mas o coração precisa estar limpo e puro

Recheado de bondade, amor e compaixão

A alma repleta de luz a iluminar nossos caminhos

E, se não iluminar, ao menos não criar sombras nos caminhos dos outros

São coração e alma que mostram os caminhos que trilhamos

Mesmo que nem sempre haja flores ou belas paisagens,

Podemos vislumbrar um jardim, um oásis…

Por onde tens andado?

Alda M S Santos

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