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amor com a vida

Ai, que vontade que dá!

AI, QUE VONTADE QUE DÁ!

Uma fonte numa linda praça no centro da cidade 

Um calor de lascar, uma criança seminua a correr na água e voltar

Um ciclista a se refrescar

Jovens “malucos” a correr na água e a sorrir…

Ai, que vontade que dá!

Uma senhora que te abraça e te aperta

Que segura sua mão, conta sua história e se lamenta, carente de afeto

Quer você, precisa de você, confia em você,

Como se te conhecesse a vida toda.

Ai, que vontade que dá! 

Uma criança que te sorri, te chama a brincar, a pular, a contar-lhe uma história.

Ai, que vontade que dá!

Um amanhecer claro, ensolarado, poucas nuvens brancas a correr no azul do céu, 

Deitar-se no chão, sentir o calor do sol aquecer cada parte de seu corpo e agradecer a vida. 

Ai, que vontade que dá! 

Um domingo inteiro pela frente, sem nenhuma programação, livre, a ser preenchido como quiser…

Ai, que vontade que dá! 

Alda M S Santos

Num lar

NUM LAR

A vida inteira num lar

Com pais, irmãos, avós, primos

Companheiros, filhos, sobrinhos…

Ou uma vida dedicada à família dos outros, 

Que cresceram, se foram, não precisam mais deles

De repente, não há mais lar, ou familiares, ou amigos…

A solidão é a fiel companheira

E surge um novo lar…

Cuidados, novas pessoas, talvez novas amizades…

Algumas atividades, visitas esporádicas…

Pra que ainda estou vivendo?- alguns se perguntam.

Tenho onde morar, estou aqui porque quero!-dizem outros.

Meu sobrinho quer vir me ver, a mulher dele que não deixa! – afirma outra.

Gosto de vocês aqui, alegram nosso dia!- diz outra sorridente a cantar.

E assim a vida segue…

85, 99, 102 anos de idade.

O que querem? O que esperam? 

Algo que o dinheiro não compra:

Atenção, um toque, um carinho, ouvidos, ombros… 

Só isso! 

Que possamos cuidar de nossos idosos!

Que tenhamos quem cuide de nós quando chegar nossa vez.

A maior pobreza é a falta de carinho. 

Alda M S Santos 

Outro olhar

OUTRO OLHAR

Outro dia li que devemos ver as coisas que não nos agradam sob uma nova perspectiva.

Sempre deveríamos tentar um ângulo novo, outro olhar, uma nova possibilidade.

Tentei aplicar esse “conselho” ao que via naquele momento.

Um ser humano jazia no asfalto, virava e se ajeitava, fazia-o de cama.

Passei, olhei, pensei: “tristeza viver assim, dói na gente”.

Uma avenida perigosa, carros, motos, ônibus e caminhões para todo lado.

Pessoas passavam apressadas, como eu.

Retornei, quis tentar um novo olhar.

Deve ser uma possibilidade para eu fazer algo, pensei.

Bem assim na minha frente! E não é a primeira vez!

Pensei no meu marido a dizer para não me meter, tomar cuidado, que tudo é perigoso!

Cheguei mais perto, devagar. Abaixei-me, chamei, cutuquei.

Ele se virou, se ajeitou, como se estivesse sobre seus travesseiros macios.

Chamei outra vez. Ele abriu os olhos, mas não parecia me ver.

Perguntei se precisava de algo. Claro que precisava!

Mas a gente fica meio impotente, sem saber o que dizer.

Ele riu meio sem entender e tentou se levantar.

Perguntei se queria que o ajudasse a ir para casa, onde morava.

“Por aí! Pode me pagar uma branquinha, branquinha?”

Riu da própria associação e repetia: uma branquinha, branquinha!

Falei: “Pago um prato de comida, te ajudo a ir pra casa, mas pinga não pago.”

“Então, não quero nada, branquinha! Me deixa dormir quieto aqui!”

Resmungando enrolado se ajeitou de novo em sua “cama”.

Segui meu caminho meio inconformada.

Ouvi ainda umas pessoas dizerem: “é bêbado, deixa para lá, moça!”

Mas venci meu medo e tentei ver com outro olhar.

Um dia dá certo! Pra mim e pra eles.

Alda M S Santos

Molecagem

MOLECAGEM
Um casal andava à minha frente
Um bebê gorducho no colo da mãe
O pai carregava bolsas e sacolas
Estava muito quente!
O garotinho usava um chapéu redondinho
Pura fofura! Sorri pra ele e fiz gracejos.
Ele sorria e se remexia no colo da mãe.
Balancei meu rabo de cavalo!
Ele gargalhou e pulou de novo.
A mãe olhou pra ele e pra trás.
Fiquei séria, olhei pro lado e fiz cara de paisagem!
Ele parou de sorrir. Isso se repetiu umas três vezes.
Parávamos de sorrir e brincar. Molecagem com os pais!
Até que ele riu muito alto e saltou no colo da mãe
O pai olhou e me viu sorrindo pro bebê.
“Que espertinho, meu filho, tá mexendo com a moça, né?”
Ficamos a rir, pai, mãe, o lindo bebê e eu!
Contaram suas travessuras…
A vida pode ser muito divertida!
Basta querer!
Alda M S Santos

De quantas histórias se faz nossa história? 

DE QUANTAS HISTÓRIAS SE FAZ NOSSA HISTÓRIA?

Rimos de chorar esses dias, minhas irmãs e eu!

Extremamente prazeroso lembrar episódios da infância

As artes, as birras, as surras, a cumplicidade de irmãos

As rixas, os ciúmes, as dificuldades, o amor acima de tudo.

Ou da adolescência, as incertezas, os medos, a baixa autoestima,

A incerteza do ser adulto ou ser infantil, espremido entre ambos.

Os amigos confidentes, os primeiros beijos e paixonites

A vida adulta, os compromissos, as responsabilidades…

Tantas são as histórias! Tão ricas de emoções!

Relembrá-las é viver de novo, com uma nostalgia boa

Sem os sofrimentos! Se possível com quem as viveu conosco.

Estes, mesmo se lembrados, já não doem tanto.

O que ficou foi a certeza de ter vivido algo especial

Com pessoas especiais,

Ainda que não façam mais parte do nosso convívio!

Minha história é feita de muitas histórias,

E muitos e valiosos personagens!

E a de vocês?

Alda M S Santos

Amor, amar!

AMOR, AMAR!
Amor é substantivo abstrato, pois designa um sentimento:
“Amor é dor que desatina sem doer”
Amor é adjetivo, pois qualifica um ser agradável:
“Ela é um amor de pessoa”!
Amor é objeto direto, pois completa o sentido do verbo:
“Não há quem não goste de fazer amor”.
Amor é advérbio de modo, pois modifica o verbo:
“Cuida dele amorosamente, independente do que faça”.
Amor é sujeito: aquele que age sobre o verbo
“O amor cura todas as feridas”.
Amor é predicado: o que se diz sobre o sujeito:
“Aquele senhor não é muito amoroso!”
Mas principalmente, o amor é verbo.
Ele não poderia ser mais nada se não sofresse nossa ação direta ou indireta.
Amor é construção diária! Eu amo, tu amas, ele ama!
Eu sofro, tu és feliz, ele acredita! Não importa!
Verbo amar! Quero conjugar!
Em todos os tempos, modos, vozes e espaços!
Alda M S Santos

Um passo de dança 

UM PASSO DE DANÇA

Sentir-se flutuar, fazer parte do ar

Estar dentro, mas livre

Estar fora, mas presa na magia

Em cada acorde, um movimento em sincronia

Em cada passo, uma expressão, um dizer com o corpo

A comunhão é do corpo com a música

A harmonia é da alma com a melodia

Afinam-se enquanto se completam

Até nos erros sintonizam-se.

Precisam-se!

Ela e a melodia tornam-se uma só

Num simples passo de dança…

Alda M S Santos

Apenas o que temos

APENAS O QUE TEMOS

O que somos capazes de doar?

Oferecer gratuitamente a conhecidos ou desconhecidos?

A familiares, amigos, amores?

Um sorriso acolhedor, um olhar compreensivo?

O ombro, o colo, o silêncio? 

Um abraço, um beijo, um pão com queijo?

Palavras de conforto e estímulo?

Um chocolate, um beijinho melado, uma rosa, uma oração?

Um teto, uma cama, um lar, um coração onde morar?

Tudo isso, nada disso? Apenas dinheiro?

Por mais desejo que a gente tenha

Só podemos doar aquilo que temos em nós.

Risco de ficar desabastecido não há. 

O que se doa, multiplica-se!

Alda M S Santos

De peito aberto

DE PEITO ABERTO
De peito aberto, cara lavada, coragem
A melhor maneira, o jeito certo de enfrentar a vida
Mesmo que não haja tanta coragem assim
Nem sempre é o “ser alguma coisa” que resolve
Acreditar que se é, pode valer tanto quanto
Cabeça baixa, medos e covardias
Não nos ajudam em nada!
Acreditar-se lindo, forte, amado
Cheio de energia, saúde e sabedoria
Nos leva ao menos até a metade do caminho.
E tendo descoberto o trajeto
O restante torna-se bem mais leve e prazeroso.
Descobri que só nós mesmos podemos barrar nossos passos!
Alda M S Santos

O que tira seu sono?

O QUE TIRA SEU SONO?

Sempre fui boa de cama, de sofá, de rede, de cadeira de balanço…

Deito e apago!

Acordo descansada e cheia de energia na manhã seguinte.

E sonho. Sonho muito mesmo!

Pra me tirar o sono tem que ser algo de grandes proporções,

Ao menos para mim.

Preocupações: essas são as primeiras da lista.

Quero “resolver” tudo de madrugada

Acordar com a equação, senão resolvida, ao menos destrinchada.

Mágoas e decepções: aquelas causadas por quem a gente ama

Daquelas que nos fazem dormir chorando, acordar à noite chorando.

Levantar chorando, querer sair porta à fora, ir embora, mandar embora…

Doenças e males físicos: aqueles crônicos que nem todo remédio resolve.

Tomamos toda a variedade possível, chás e unguentos diversos.

Doenças da alma: tristeza, insatisfações diversas, desamor, falta de perspectivas.

Esses, os mais difíceis de resolver. Precisam da ajuda externa.

Uma atenção, um abraço, um carinho.

Necessitam de amor.

Fora isso, NADA me tira o sono.

E você? O que tira seu sono?

Alda M S Santos

 

 

 

 

 

Em preto e branco

EM PRETO E BRANCO

Quando não conseguirmos ver as cores da vida

Apreciemos o preto e o branco

São únicos, extremos

Têm suas belezas, seus tons, suas escalas…

Nosso olhar pode ver o encanto, o brilho

Em preto e branco, em sua mesclagem

Em todas as suas matizes

Porque somos nós que damos o tom que queremos

 Ao que nos é apresentado…

E os tornamos belos! 

Alda M S Santos

Confusão interna, carinho externo

CONFUSÃO INTERNA, CARINHO EXTERNO

Ela acordou meio down. Um dia cheio a aguardava. Adorava dias cheios, mas nem isso a animava a sair da cama. 

Espreguiçou-se longamente e levantou. Escovou os dentes e nem quis se olhar no espelho. Seria assustador! A bagunça interna estaria em seus olhos.

Resolveu fazer o que toda mulher faz nessas ocasiões: cuidaria do exterior primeiro. Seria mais fácil. Aumentaria a autoconfiança e a atenção poderia ser total à bagunça interna.

Unhas, cabelos e pele tratados, partiu para a mente e o coração.

Conversou com amigos e familiares queridos. 

Leu um livro que gostava, escreveu um pouco.

Partiu a ajudar os outros…

Talvez quando terminasse, a bagunça nem seria mais tão importante! 

Alda M S Santos

Estarei contigo

ESTAREI CONTIGO

Quantas vezes ouvimos essa frase ou as similares: conte comigo, não vou te deixar, estaremos sempre juntos, não vou a lugar algum…

Talvez o mesmo número de vezes em que precisamos e os autores não estavam mais lá.

Não estamos fazendo nos entender, ou são desentendidos mesmo?

A quem fiz essas mesmas promessas? Tenho estado atenta?

Minha avó de 94 anos, que vive sozinha, sempre diz: “nascemos sozinhos e pelados, morremos também sozinhos, o que vier no intervalo é lucro”.

E ainda completa: “não espere nada de ninguém”!

Algumas pessoas lidam melhor com a individualidade, gostam de se isolar, não compartilhar, sabem e até preferem se virar melhor sozinhas. 

Outras, porém, precisam de gente, necessitam sentir que têm apoio por perto, ainda que não os utilize!

E ainda há aquelas que partilham apenas os bons momentos e alegrias. Nas tristezas e baixo astral preferem se isolar. 

Não sou pessimista como minha avó, mas, a cada dia mais percebo que, por mais promessas que recebamos, por mais gente que tenhamos por perto, o que vale mesmo é que nós nos ajudemos. 

Poder buscar e encontrar dentro de nós, pois sempre estará lá, o que se faz necessário, é a maior dádiva. 

Podemos contar com Alguém que nos prometeu ajuda, “que estaria conosco até o fim dos tempos”…

Ele não nos abandonará nessa busca.

Que possamos senti-Lo! 

Alda M S Santos

Esperando para ser feliz

ESPERANDO PARA SER FELIZ

“Depois de uma vida de trabalho, quando chega a hora de curtir, de viver, adoece”-ouvimos tantas vezes!

Ou “dedicou a vida aos outros, quando poderia ocupar-se de si mesma, perde tudo”…

Muitas são as histórias parecidas, mudam os protagonistas! 

Não quero fazer uma apologia ao egoísmo, ao modo inconsequente de vida, mas deixar de curtir, de viver, de ocupar-se de si, de se divertir, esperando o momento “ideal” não é boa pedida!

Esperar para ser feliz depois de qualquer momento: formatura, casamento, divórcio, um novo emprego, nascimento ou casamento dos filhos, uma herança, um salário melhor, aposentadoria, é contar com os ovos no fiofó da galinha. 

Nossa felicidade não pode ser depositada na conta de um evento ou momento. Ela precisa ser contínua. Debitada dia-a-dia em nossa conta-corrente. Enquanto há saldo. 

Todos os momentos são ideais! 

Necessário é encontrar um modo de ser feliz todo o tempo com o que tem, com o presente. Apenas ele é certo. 

Esses momentos “especiais” podem maximizar nossa felicidade, mas colocar todas as nossas fichas e esperança neles é dar um tiro pro alto, é nublar o sol dos momentos atuais!

Não esperemos! O amanhã é apenas expectativa.

E expectativas quase sempre são frustrantes!

Alda M S Santos

Simples livros?

SIMPLES LIVROS?

Todo bom leitor tem um jeito particular de ler

Sentado, deitado na cama, na rede, no ônibus.

Rápido, lentamente, grifando, voltando atrás

Dando umas puladas por curiosidade…

Quer interagir, sugerir, interferir, participar.

Dependendo do livro, fica triste com o final

Continua imaginando a história em sua mente

Cria outros finais mais felizes, retira personagens, acrescenta outros.

Quase sempre quer que outros leiam, empresta, doa

Ou sente ciúmes daquela história e quer guardá-la só para si.

Alguns livros ficam esquecidos num canto empoeirado da estante

Sob as almofadas do sofá, numa gaveta qualquer,

Ou, mais queridos, ficam na cabeceira da cama, na bolsa

Alguns, cuja história é especial, ficam guardadas na mente,

Na alma, no coração, para sempre.

Não precisam da versão impressa, estão impressos em nós.

Cada pessoa de nossa vida é como um livro que lemos.

Há histórias grifadas, mexidas e remexidas,

As complexas e densas, que não se deixam ler facilmente

As fáceis e agradáveis de ler e interagir, as engraçadas, as tristes.

Nossa mente e nossos corações são nossas estantes

Alguns desses livros não queremos mais ler, outros estão guardados com carinho,

Há aqueles que são revisitados no fundo das gavetas,

Outros se confundem com nossa própria história, se mesclam, se fundem.

E, os mais interessantes, ainda estão sendo escritos

Ainda que a gente não se dê conta, a história continua

E é uma obra aberta com participações especiais.

E quem disse que não gosta de ler?

Alda M S Santos

Aceita uma máscara?

ACEITA UMA MÁSCARA?

Nós, humanos, temos o dom do aprendizado constante

Nascemos aprendendo e vamos fazê-lo até a derradeira hora

Mesmo os mais turrões.

Eu mesma tenho aprendido muito nos últimos tempos

Nos últimos meses bati meu recorde

Após esse carnaval, então, aprendi a última

Vendo tanta gente retirar as máscaras de foliões

E recolocar as máscaras do dia-a-dia

Esconder-se atrás de máscaras gélidas, sorrisos botox

Percebi o quanto elas são úteis em várias ocasiões

Podem evitar certos desgastes e estresses.

A máscara do sorriso, da satisfação, do “dane-se”

A máscara da simpatia, a máscara da aprovação…

Nunca fui dessas! Só de olhar para mim percebem o que vai lá dentro.

Mas isso traz sofrimento, angústias, tristezas.

Nem sempre estar abertos e de cara lavada nos livra do mal.

É a munição que o inimigo usa contra nós.

Para os jogadores, mostrar todas as cartas não é muito inteligente.

Ao verem meu rosto e minhas palavras viam o baralho inteiro.

Viam!… A partir de hoje usarei algumas máscaras e maquiagens.

Disfarçar alguns sentimentos, bons ou ruins, é autopreservação.

Não se assustem! Provavelmente demorarei a me adaptar a elas.

Só sairei às ruas quando estiver bem “trajada”.

Quem precisa que eu use não notará diferença.

Quem realmente me conhece não será “enganado”.

Estarei “escondida” em meus olhos, em meu sorriso.

Neles não cabe máscara alguma.

Quem se ocupar de olhá-los merecerá a verdade.

Alda M S Santos

Nosso lugar

NOSSO LUGAR

Num jardim, como deveria ser, havia várias flores, todas lindas!

Numa parte reservada, algumas rosas recebiam água, nutrientes e eram protegidas das intempéries, de visitantes e invasores.

Eram perfeitas, poucas, lindas, mas qualquer vento as destruía.

Outras, mais à mostra, também eram cuidadas, podadas, adubadas, mas não se misturavam. 

Só ficavam entre suas iguais. Enfeitavam parte do jardim e tinham seus admiradores. 

Havia ainda outras que recebiam menos cuidados, estavam mais pro centro do jardim, enfrentavam o sol escaldante, a chuva, visitantes e algumas “pragas”. 

Todos podiam tocá-las, sentir seu perfume, admirar sua forma e cores.

Qualquer observador poderia ver que essas eram flores fortes, meio selvagens, que além de belas, cresciam e se alastravam.

Conosco também é assim. 

Quem muito se preserva, fica lindo, perfeitinho, mas, escondidos, falta-lhes algo, perde o melhor da festa. 

Não se misturar mantém a pureza, mas perde-se a possibilidade de crescimento com os demais.

 Quem está no meio da “bagunça”, no centro do canteiro, interage, perde folhas, flores, se espeta, espeta os outros, sofre nas tempestades, mas vive tudo de melhor que o jardim oferece.

Cada qual escolhe o lugar que melhor se adapta nesse jardim.

Alda M S Santos

Baile de Máscaras

BAILE DE MÁSCARAS

O quanto de nosso modo de ser pode ser captado pelo outro? 

Tantas máscaras, tantas maquiagens, perucas, fantasias…

Escondem olhares, disfarçam sentimentos, escondem o essencial

Em pleno carnaval é aceitável.

Porém, a quarta-feira de cinzas chega e o desfile de máscaras e fantasias continua.

Para quê? Autoproteção? 

Quem consegue ver através de tantas camadas?

Não superficialmente, mas perceber a essência? 

Somos sensíveis e observadores o bastante? 

E aqueles tão transparentes?

Quantas críticas! Autenticidade é crime!

Pedras e pedras são lançadas!

Críticas, juízos, muitas opiniões! 

Quase sempre, o número de pedras nas mãos dos “carrascos” é proporcional às máscaras que usam.

Para mim, carnaval dura quatro dias, se tanto.

Fora isso, cara lavada.

“Pedras? Junto todas. Um dia vou construir um castelo!”, já dizia Fernando Pessoa.

E completo: guardarei as lágrimas também.

Podem ser úteis na construção.

Alda M S Santos

Onde estão?

ONDE ESTÃO?

Onde estão os abraços que precisamos?

Aqueles, cujo único interesse é ser e fazer alguém feliz?

Onde estão nossos sorrisos, nosso brilho?

Aqueles, que vêm de dentro e saem invadindo tudo?

Onde estão nossa empatia, nossa alteridade? 

Aquelas, que nos tornam capazes de sentir o que o outro sente? 

Onde estão nossa compaixão e solidariedade? 

Aquelas, que nos fazem ser mais gente, mais humanos?

Onde estão o amor, a amizade?

Aqueles, sem os quais não há vida?

Onde estão nosso sossego, nossa paz?

Aqueles, que buscamos nos outros, mas só encontramos em nós mesmos? 

Buscando em nós mesmos encontraremos todas as respostas! 

Os abraços eu encontrei, e como é bom!

Alda M S Santos

Contradições

CONTRADIÇÕES
Frágil em sua força, forte em sua fragilidade
Sorriso que ilumina ou que se apaga,
Lágrimas de alegria ou profunda tristeza
Palavras que nem sempre conseguem expressar o que quer, gritando ou sussurrando
Silêncio que grita o que vai no fundo, mas não é compreendido
Ora sozinha entre tantos,
Tantas vezes acompanhada de si mesma.
Um baú de possibilidades, de emoções,
Cheia de “vazios”, vazia de espaços.
Amor sem medidas, amor em excesso
Mas que tantas vezes não é o bastante.
Um poço de contradições, como todo ser humano.
Só quer viver e amar!
Alda M S Santos

Entre eles

ENTRE ELES

Estar entre, no meio, comprimida, espremida

Mesmo com todas as habilidades adquiridas

Nunca é confortável!

Ora é o amor que espreme, ora é a dúvida,

As cobranças, ou a insensatez que comprimem.

Num puxa e repuxa, evita tomar partido

Maleável, flexível, resiliente, tenta sempre

Dialogar, falar, pedir com os olhos

Com as palavras, com os gestos,

Com o silêncio, com as lágrimas…

Ainda que tudo que precise e queira

Seja fazer parte, manter as partes unidas.

Mas se fere, se cansa, se machuca,

Dói!

A cada ferida que cicatriza sai mais forte.

Qual é o saldo?

O quanto perde de si mesma?

Será que sai mais feliz?

Alda M S Santos

Jardins

JARDINS

Não há quem não se encante com jardins

Quem não dê uma paradinha, tire uma foto

Faça um carinho ou aspire seu perfume.

Quanto mais cores, perfumes, formas, variedades

Raridade, espessura e textura das flores e folhas

Mais belo e encantador ele será.

Consequentemente, mais visitantes atrairá.

Para um observador casual tudo parece perfeito:

Um excelente jardineiro cuida e dedica seu tempo àquele jardim

Rosas viçosas, hortênsias carregadas, orquídeas singelas

Ervas daninhas e pragas controladas, húmus na medida certa

Borboletas, beija-flores e joaninhas vivem felizes ali.

Já um visitante mais sensível e detalhista notará diferenças.

Claramente perceberá as flores que recebem mais adubo,

Mais água, maior incidência de raios solares, terra mais fofa

Saberá quais as preferidas do jardineiro, com quais ele não se importa,

E quais ele prefere esconder…

Por não compreender, por não saber lidar bem com elas

Ou por saber que atrairiam atenção excessiva, ofuscando as demais,

Pondo em risco até seu próprio trabalho.

Um bom jardineiro cuida bem de todas as espécies de seu jardim

Estuda, dedica-se, faz com que floresçam e apareçam

Não irá deixar uma espécie rara relegada a segundo plano

Sabe que ela poderá se fortalecer e colocar em risco todo o jardim

Essa é a essência de todo jardim: ser belo e encantar com todas as suas espécies.

O jardineiro que entende isso e as ajuda será sempre querido e necessário.

Sabe que como não vive sem seu jardim,

Suas flores também não sobreviveriam longe dele.

Alda M S Santos

Antecipações

ANTECIPAÇÕES
Dizem que o melhor da festa é esperar por ela
As expectativas que criamos,
Nosso figurino, nossa companhia,
Quem poderemos rever para matar as saudades
A playlist que será tocada
Com quem iremos dançar, as boas conversas
O vislumbre do que poderá vir a ser,
Torna tudo mais agradável, prazeroso
Cria uma ansiedade boa.
Aguardamos uma festa, antecipamos um feriado
Esperamos pelas férias, ansiamos por um encontro
Organizamos uma viagem de fim de semana,
Aquele happy hour com as amigas…
Tudo baseado nessas sensações antecipadas.
Muitas vezes o que antecipamos é melhor do que o real.
Benéfico na medida que prolonga a sensação prazerosa
Prejudicial se fizer sombra à realidade.
Mas ninguém pode nos tirar essa capacidade imaginativa
Tão nossa, tão singular, tão necessária!
Que possamos dar asas a ela e ser felizes,
Afinal, só pode haver sombras onde a luz brilha!
Alda M S Santos

Pequenos prazeres

PEQUENOS PRAZERES 

Um beijo de “bom dia, princesa”, 

A roseira que desabrocha pela primeira vez

O pão quentinho e o café fresquinho

O abraço gostoso de uma amiga

O sorriso gentil de um desconhecido qualquer

O ônibus que passa na hora certa

A música preferida bem alta

Aquele lindo filme tantas vezes reprisado

Andar semi nua pela casa sem se preocupar com olhares curiosos

A gargalhada de uma criança sapeca

A satisfação de um velhinho que se distrai com o plástico bolha

O fim de um livro perfeito

A soneca depois do almoço

O balançar na rede debaixo de uma árvore

A canção entoada pelos pássaros

Pessoas que nos amam ao nosso lado…

São tantos os pequenos prazeres…a todo o tempo.

Eles fazem a alegria de nossas vidas.

Quem muito espera pelos grandes acaba por perder os pequenos prazeres,

Deixa a vida ir e fica para trás com sua rabugice.

Alda M S Santos

No palco

NO PALCO

Todos gostamos de apreciar os grandes espetáculos que acontecem continuamente nos palcos por aí

Satisfação, surpresa, admiração, desgosto, sustos, sorrisos, lágrimas…

Várias são as emoções vivenciadas. 

Mas os espetáculos da vida não acontecem só nos palcos.

Bastidores, camarins e plateias também têm suas histórias

Muito ricas e admiráveis! 

Esperar estar no palco para viver 

Ou acreditar que só se é feliz sob aplausos é ilusão

Podemos também ser protagonistas estando na plateia

Valorizar e aplaudir nosso próprio show

Fora de foco, das luzes da ribalta, grandes emoções acontecem

Quem está atento as aproveita em sua totalidade.

Alda M S Santos

Orquestra 

ORQUESTRA

Somos um instrumento tocando todo o tempo

Inúmeros são os sons e as melodias que irradiamos

Não é qualquer um que entende e aprecia nossos acordes, 

Tampouco somos capazes de compreender sempre a música que emana da alma dos outros… 

Compreendendo ou não, podemos apreciar

Como apreciamos a música dos pássaros 

Se houver sintonia dá-se uma maravilhosa orquestra,

A vida consiste em acompanhá-las,

E dançar, se possível!

Alda M S Santos

Vazios 

VAZIOS

Vazio é incompletude, falta, desocupação

Espaço livre, desabitado, desprovido de conteúdo.

Tão cheio, nada falta, tudo tem…

É possível haver vazios onde há total preenchimento?

A falta de um espaço a preencher pode ser também um vazio?

Abarrotado, completo!

Mas será que ainda cabe mais alguma coisa?

Podemos condensar conteúdos, realocar ocupações.

São vazios ou apenas necessidades?

Vazios só nós preenchemos

Necessidades podem nos ajudar a atender.

Mas, o mais importante, é verificar o coração

Vazio ou completo é relativo

Num coração cheio sempre cabe mais um.

Coração vazio não cabe nada, não é boa morada,

Impróprio para a vida!

Alda M S Santos

Só dançar!

SÓ DANÇAR!
Quero, gosto, preciso de algo leve, suave, delicado
Como as asas de uma borboleta
Simples, bonito, perfeito
Como um passo de dança!
Que se mexe, gira, levanta-se nas pontas dos pés
Abaixa-se e volta a se aprumar…
Que acorda, que se toca, que toca o outro,
Como o beijo de um beija-flor
Olhos fixos ao longe, enxergam dentro de si
Aumenta o ritmo, acordes fortes, passos firmes
Bota pra fora o que está em excesso
Salta, corre, escorrega, cai
E tudo é um lindo passo de dança.
Flutua em torno de si, em torno de todos,
Comunhão do corpo com a música,
Entrega de sentimentos à melodia
Sua alma determina o ritmo
Suavemente faz um volteio, alonga-se
Relaxa, sorri, extravasa em suor, sente a leve brisa
Traz pra dentro de si o que estava fora
Mas que deveria estar dentro.
E segue acreditando em Eugénia Tabosa:
“Voar sempre cansa, por isso ela corre, em passo de dança’
Alda M S Santos

Ecos

ECOS

Ecos são a resposta sonora que chega até nós depois de emitirmos qualquer som.

Há ecos bem vindos como os emitidos pelos radares e sonares,

E outros indesejáveis, como aqueles que recebemos nos aparelhos telefônicos.

Nossos relacionamentos são como os radares ou sonares,

Eles desejam emitir eco, precisam receber eco.

Se possível, reverberados, em muitas reflexões “sonoras”.

Nas nossas relações de amizade, de amor, familiares ou de trabalho,

Precisamos que nossas ações produzam ecos

Que sejam ouvidas e atendidas na mesma medida

Que produzam efeito positivo no outro. Esse é o eco.

Gostamos quando nossas palavras, beijos, abraços e carinhos

Obtêm ecos de palavras, beijos, abraços e carinhos…

Eco é correspondência, eco é reciprocidade.

Se se joga flores, o eco não pode ser de pedras.

Uma relação sem ecos é uma relação incompleta, vazia

Uma relação onde sempre alguém estará insatisfeito

Onde alguém acabará por “gritar” mais em busca deles,

Ou, por fim, se calar…

Alda M S Santos
 

Água

ÁGUA!

Sempre fui apaixonada por água

Não nado bem, tampouco bebo o bastante

Mas ela exerce verdadeiro fascínio em mim

Não importa como se apresente:

Rio, cachoeira, mar, lagoa, chuva, nascentes…

Posso ficar horas admirando!

Água tem o poder de me acalmar

Molho os pés, a nuca, lavo o rosto, sento à beira

Ouço o barulho suave do rio ou furioso da cachoeira ou tempestade,

Mergulho, sinto seu frescor, lavando tudo.

Tudo é encanto! 

Quero ali ficar até tudo de negativo ir embora

Encher-me de positividade

Restabelecer a confiança, o amor

A fé no ser humano, na vida, em mim mesma

Enquanto houver água correndo,

Haverá encanto, haverá vida. 

Água que nasce, que brota

Que corre, que cai, que vai, me leva…

Em busca de outros caminhos

De outras águas,

Em busca de mim…

Alda M S Santos

Olhar sem vergonha

OLHAR SEM VERGONHA

Há olhos e olhos, modos e modos de enxergar

Já não notamos aquela nuvem que se modela,

A sombra engraçada à nossa frente

As flores viçosas naquele jardim na calçada cimentada

Um casal idoso de mãos dadas

Os olhares opacos de quem passa, o mendigo à margem

A pessoa ao nosso lado, as rugas no rosto de nossos pais

Se um observador atento diz “que lindo o dia”

Ainda pensamos, às vezes, “onde, tá louco”?

Sequer olhamos nosso próprio rosto!

Nosso olhar não se fixa mais, exceto no vazio.

Ou para recriminar e fazer críticas negativas  

O feio está cada dia mais feio,

E o bonito tornou-se corriqueiro.

Acredito que precisamos “deseducar” nosso olhar,

Afastar a superficialidade, o ver sem ver.

Olhar sem vergonhas, sem princípios,

Sem direções, sem tutoriais, sem vícios.

Precisamos olhar com olhos infantis, olhos puros,

Olhos fixos, profundos e deslumbrados…

Olhos que descobrem, desvendam, olhos da alma.

Só assim, o muito visto, se nos apresentará como novo…

E encontraremos beleza em todos os cantos e recantos.

Alda M S Santos

Apenas nosso

APENAS NOSSO

Nascemos sós, morremos sós

É o que sempre ouvimos dos pessimistas!

Outros ainda completam: vivemos sós!

Para esses, digo “nem sempre”.

Como seres gregários, passamos a vida em busca de companhias.

Queremos estar cercados de gente, crescer, caminhar ao lado de alguém

Dividir as tristezas, multiplicar as alegrias, compartilhar o prazer.

Nesse caminho buscamos a harmonia e a sintonia com nossos semelhantes.

Mesmo que seja uma busca infrutífera ou inglória.

Mas há caminhos bem individuais, muito particulares, só nossos.

Aqueles que ninguém é convidado a entrar, a participar.

Ainda que tentem, não encontram porta de entrada.

Nele mergulhamos, buscamos trilhas novas, atalhos,

Ou pegamos o trajeto mais longo mesmo…

Encontramos áreas devastadas pela seca, outras floridas

Irrigamos com lágrimas parte do caminho, e seguimos…

É nele que encontramos as mais belas e prazerosas paisagens,

Dele depende muito o caminho que será traçado quando acompanhados,

Dele advêm nossos maiores prazeres e frustrações,

E é nele que muitas vezes nos perdemos: no fundo de nós mesmos.

Alda M S Santos

Fim

FIM

Se existe algo pelo qual ninguém passa inerte, incólume, é o fim.

Qualquer fim. Coisas maravilhosas ou coisas ruins.

Sempre deixarão um vazio, um vácuo, algo a preencher.

Um trabalho cansativo ou prazeroso, o curso na faculdade, 

Uma amizade espontânea, uma visita inesperada,

Um amor possessivo, impossível ou irreal,

Uma viagem na imaginação, um sonho, uma esperança, uma expectativa…

Quanto maior o espaço ocupado em nós, 

Quando chega o fim, 

Maior será o vazio, maior a necessidade de preenchimento.

Não precisa ser ruim, é preciso saber lidar com os finais.

Alguns ofendem, magoam, maltratam, ameaçam,

Decepcionam, morrem, matam, deixam de viver.

Muitas vezes algo que foi prazeroso, vivo, verdadeiro, mas que mudou,

É jogado no mesmo lixo, sem coleta seletiva, tudo no pacote do fim.

Urge saber que há “lixos” aproveitáveis, 

Particularmente o que envolve sentimentos.

Sentimentos se transformam e o fim pode ser apenas um recomeço.

Basta fazer uma boa reciclagem, reduzir a bagagem, reutilizar, reaproveitar

Manter um bom foco e voltar a viver.

Alda M S Santos

Está pesado? 

ESTÁ PESADO?

Engraçado observar o quanto as pessoas pesam

Não é preciso balança alguma, apenas um olhar atento.

Um senhor que parece puxar um caminhão invisível amarrado aos pés,

Uma mulher que aparenta ter alguém sentado sobre seus ombros,

Rapazes que carregam tristeza e ansiedade no rosto,

Meninas que trazem no caminhar o peso da beleza, ou “ausência” dela.

Crianças irritadiças em meio a inúmeras “obrigações”…

Como estamos todos pesados!

Pesam o desejo de crescer, de ser sucesso, de ter muitas coisas,

No menor período de tempo possível.

Pesam em nós as malas de ontem, problemas do passado,

Arriam nossos ombros acontecimentos do porvir,

Carregamos em nós o peso de sentimentos diversos,

Trazemos na bagagem o desejo secreto de agradar aos outros,

Sem, contudo, desagradar a nós mesmos,

E isso pesa mais ainda…

Pesos, pesos e pesos…

Precisamos esvaziar as malas, levar apenas o que for leve.

Passado deve ficar lá atrás, futuro lá na frente,

Presente bem aqui, levinho como uma borboleta…

Se está pesando ou desagradando, é hora de esvaziar as malas.

Deixar apenas o que dá prazer e alegria, ultraleves!

Sentimentos e pessoas boas não pesam…

Tocam em nós como o doce beijo de um beija-flor,

Sentimos apenas a leve brisa, frescor e perfume,

E a paz que deixa em seu lugar quando se vai…

Alda M S Santos

Marsupiais

MARSUPIAIS

Outro dia, minha cadela matou uma gambá. Ela é uma vira-latas metida a caçadora. E muito linda!

Quando fui recolher o corpo da pobre gambá, vi que vários gambazinhos pelados entravam e saíam daquele corpo enrijecido.

Buscavam ali o que precisavam para continuar se desenvolvendo e vivendo: o conforto do marsúpio.

Nós somos, de certa forma, mamíferos marsupiais. 

A diferença é que nosso marsúpio nem sempre é aquela bolsa grudada ao corpo de nossa mãe. 

Porém, não saímos prontos da placenta para a vida. 

Vira e mexe buscamos o conforto de nossa mãe, pais e familiares. 

Não o desenvolvimento físico, mas emocional. 

E, ao longo da vida, adquirimos outros marsúpios: nos amigos, nos amores, nos filhos…

As crianças procuram sem receio. Por isso são mais felizes.

Nós, adultos, maduros, fortes, independentes, sabemos nos virar sozinhos. 

Ou tentamos nos convencer disso.

Mesmo que tudo que a gente queira é um “marsúpio” quentinho para nos escondermos lá dentro, sem tempo determinado, encolhidinhos, deixando nada pra fora. 

E só sair quando estivermos com carga total na bateria, em pleno desenvolvimento.

Sou marsúpio para muitos! 

Eu sei bem quais são meus marsúpios.

Tento buscá-los sempre.

Alda M S Santos

Resisto

RESISTO

Está me olhando, espiando, sempre,

Insistentemente!

Às vezes de longe, outras, bem de pertinho.

Quer me tocar, me levar

Digo “não, não quero”,

Resisto…

Tenta outros artifícios, quer conquistar, convencer, seduzir…

Faz sua auto-promoção.

Cansada, quase cedo, quase me entrego, 

Porém, resisto…

Mas temo, não sou tão forte assim, 

Retribuo o sorriso: “não, obrigada”!

Mais uma vez, resisto.

Acompanha-me em meu dia-a-dia, 

Olho pro lado e lá está!

Quando passeio, me divirto, me alimento,

Quando vou pra caminhada, pra academia ou pra Yoga,

Quando deito ou me levanto, 

Resisto…

Quis ir até pro banho!

Mas hoje dei um basta! 

“Chega, não vou com você”! 

Afinal, estou muito jovem e animada ainda 

Para acompanhar aquela que se apresenta como “melhor idade”. 

Melhor idade o caramba! 

Cheia de limitações, isso sim!

Irritada, mando-a catar coquinhos, 

“Se sua coluna deixar”! 

“Volte mais tarde, bem mais tarde, daqui uns 20 anos, talvez”!

“Nada pessoal, chegará sua hora”!

Temos que resistir, ser firmes.

Ou, possessivos, grudam-se em nós e não querem mais largar.

Enquanto puder,

Resistirei…

Para quando tiver que acompanhá-la, ir sem reclamar,

Sem deixar dívidas ou coisas mal resolvidas…

Melhor idade somos nós que fazemos! 

Quando nos aceitamos, damos nosso melhor,

Com qualquer idade!

Alda M S Santos

Mergulhos

MERGULHOS

Tantos os caminhos,

Mas, às vezes, não os enxergamos..

Olhos tristes, opacos, submersos em nós mesmos.

Porém, vamos tentando,

Indo, fugindo, mergulhando…

Nas profundezas da imaginação

Nem sempre tranquila, nem sempre clara

Mas sempre possível! 

Quem sabe dela pode vir a nascer

Uma trilha linda e prazerosa?

Alda M S Santos

Terras férteis

TERRAS FÉRTEIS

Sempre acreditamos que devemos plantar em terra boa, 

Sempre nos ensinaram que só colheremos frutos se a terra for fértil,

Porém, pode haver secura e rigidez à princípio, 

É preciso disposição e coragem para investir.

Mas, depois de plantar, vamos cuidando…

Com água, húmus, adubo,

Sol, amor e carinho,

Porque mesmo em meio a toda aridez,

Pode haver vida! 

Brotar vida,

E vida bela…

Para quem mantém o coração e os olhos abertos…

Alda M S Santos 

Backup de nós

BACKUP DE NÓS

Assistindo ao filme “Diário de uma Paixão”

Reflito sobre a fragilidade de nossa existência.

Independente do tempo que vivemos por aqui,

Todos acumulamos muitos dados, muitas memórias.

Possuímos um disco rígido muito potente: o cérebro.

Assim como os computadores com seus HDs.

Como eles, também somos uma “máquina”.

Com o tempo, também podemos apresentar defeitos, avarias.

O HD pode não abrir, não permitir acesso, travar, deletar alguns dados, ou apagar de vez.

Todo especialista da informática aconselha: manter vários backups atualizados.

O mesmo vale para o nosso HD central.

E o fazemos sem perceber de um modo muito especial.

Em cada pessoa que convivemos vamos deixando arquivos

“Salvamos” nelas um pouco de nós: pais, filhos, cônjuge,

Amigos, amores, colegas, vizinhos, até em nossos desafetos

Em todos eles fazemos um pequeno backup de nós

Se um dia nosso HD vier a falhar podemos ser neles “restaurados”

Se ele se apagar de vez, nossa história estará registrada

Em todos aqueles que amamos, que nos amaram.

Devemos cuidar para fazer backups primorosos.

Voltando ao filme: vale a pena assistir.

Uma linda história de amor e backups!

Alda M S Santos

Como as estrelas

COMO AS ESTRELAS

Nossa vida é cercada de pessoas que irradiam luz, 

Que brilham, que aquecem

Como as estrelas…

Somos envolvidos por elas, por seu encanto

Absorvemos com avidez parte de seu brilho, beleza e calor

E, assim, também encantamos,

Como as estrelas…

Mas, tudo que é vivo, tem um tempo de vida útil

Depois se vai, morre…

Assim se dá com as pessoas encantadoras

Elas se vão, morrem, e levam seu brilho consigo

Como as estrelas…

Quanto mais uma estrela emitir luminosidade,

Ou seja, quanto mais liberar energia,

Menos tempo ela durará.

Porém, ainda que se apaguem no cosmo,

Nós só perceberemos anos mais tarde, 

Pois estão a anos-luz de distância nas galáxias

Assim se dá com as pessoas-estrela

Mesmo depois de irem embora, de se apagarem

Sentiremos sua energia dentro de nós, sua presença, seu brilho

E seremos por elas iluminados por muito tempo

Sorte de quem tem ou teve esse privilégio de convívio

Com as estrelas…

Alda M S Santos

A cada um

A CADA UM…

A cada pássaro, sua leveza, seu canto

A cada flor, sua cor, seu perfume

A cada estrela, seu brilho, sua beleza 

A cada sentimento, sua força e intensidade

A cada ser, sua sabedoria e encanto

A todos, a capacidade de ser e fazer feliz..

Alda M S Santos

Processo de Cura

PROCESSO DE CURA

Todos sabemos o quanto dói uma ferida aberta

Um mal ativo, em fase crítica, aguda.

Todo cuidado é pouco para evitar uma patologia permanente.

Precisamos limpar, fazer curativos, trocá-los

Usar cicatrizantes, anti-inflamatórios, antibióticos…

Nessa fase vai doer muito, sangrar.

Não podemos ser masoquistas e ficar cutucando.

Serão necessários técnica e perícia ao tocar.

Depois seca, cicatriza, fica uma marca e apenas uma lembrança.

Porém, se não se passar por esse processo de cura,

O mal pode se tornar crônico e sofrermos com ele a vida toda.

Com os males emocionais dá-se o mesmo.

Ferida aberta na alma não se mexe, se trata.

Com medicamentos ora suaves, ora fortes, 

Com amor, com carinho, com perseverança.

Com amigos, com família, com fé.

Leve o tempo que levar,

As cicatrizes deixadas nos lembrarão que superamos.

Pode ser que se torne um mal crônico

Daqueles que tenhamos que aprender a conviver

Como uma hipertensão ou uma saudade

Que exige tratamento de controle a vida toda.

Vez ou outra se tornam ativos, agudos e exigem de nós força

E medidas à altura.

Assim são os males crônicos.

Assim é a vida…

Alda M S Santos

Força Motriz

FORÇA MOTRIZ

Que sejamos movidos pelo desejo, sempre…

Desejo de viver, de trabalhar

Desejo de ajudar, de ser a mão que se estende

Desejo de abraçar, de ser colo que acolhe

Desejo de aprender, de crescer

Desejo de ensinar, se doar

Desejo de entender, de atender

Desejo de seguir, de recomeçar

Desejo de de ser luz, de ser paz

Desejo de fazer o bem, de ser o bem

Desejo de amar,

Sempre…

Alda M S Santos

Encaixes

ENCAIXES

Quase tudo nessa vida depende de combinações e encaixes perfeitos

Bola na cesta do basquete, na raquete do tenista, na rede do gol

Veículos na pista, altitudes dos voos, barcos nas rotas

Portas nas casas, fechaduras nas portas, chaves nas fechaduras

Sapatos nos pés, roupas no corpo, alimentos no organismo

O anel no dedo, uma mão na outra, cabecinha no ombro

As palavras nas frases, as frases nos textos, os textos nos contextos

Passamos a vida buscando essas combinações

Afinando a percepção, aperfeiçoando esses encaixes

Mas nem tudo é tão prático e fácil assim

Alguns encaixes exigirão uma perícia maior

A fé e o indivíduo, o cidadão e sua profissão,

Uma pessoa com a outra, o indivíduo consigo mesmo

Mente, alma, coração num só corpo

Sorriso no rosto, alegria na alma, um abraço que se enlaça

Um corpo no outro… uma alma na outra.

Como crianças com seus Legos, vamos tentando

Encaixando, montando, desmontando, aprendendo

E, se possível, nos divertindo enquanto brincamos

Enquanto vivemos…

Alda M S Santos

O que fazemos nessa nau? 

O QUE FAZEMOS NESSA NAU? 

Há dias, períodos e fases que queremos jogar tudo para cima.

Chutar o balde, rodar a baiana, subir nas tamancas. 

Ou, diferentemente disso, enfiar debaixo das cobertas, atrás de uns óculos escuros num canto qualquer, sermos invisíveis.

De verdade: quantas vezes nos perguntamos a que viemos, o que estamos fazendo nessa nau? 

Milagrosamente, algo sempre nos tira de lá. Desse buraco escuro do nosso existir.

É preciso sempre acreditar que é apenas fase. Que vai passar. Por mais difícil que pareça.

Muita gente desistindo na primeira pedra ou buraco do caminho.

Não sabem que muitos caminhos, aparentemente errados, difíceis ou sombrios foram dar em veredas maravilhosas!

Tenhamos fé! Em nós mesmos, Naquele que nos enviou, nos acompanhantes que nos deu. 

Alda M S Santos

Quanto tempo?

QUANTO TEMPO? 

Em menos de duas horas ela arruma suas coisas …

Doa materiais, joga fora o descartável

Separa para si o inseparável

Quanto tempo leva para se desfazer de uma vida?

Muitas lembranças…

Uma vida inteira ali

Muitos amigos, colegas

Abraços, carinhos, sorrisos, desavenças

Tudo parece impregnado em suas células

 Seu lugar já foi ocupado

Brinca ao sentar no colo de sua substituta

“Você fará muita falta!”- dizem. 

“Tem você em cada cantinho daqui”.

“Lembrarei de você para sempre”. 

Será? Promessas já foram dívidas

Hoje, quase sempre, são palavras ao vento

Foram 27 anos ali. 

Quanto tempo leva para sermos apagados de vez? 

Quanto tempo leva para a rotatividade nos levar para longe?

Quanto tempo leva para esquecer?

A vida segue…

Mas ela sabe e responde por si: 

Nem todo o tempo do mundo! 

Dentro dela nada jamais se apaga.

Alda M S Santos

Redemoinho

REDEMOINHO

Tudo se passa em câmera lenta

Chega, olha em volta

Espaço grande, luz forte 

Muitas pessoas conhecidas ali 

Recebe as boas vindas

Parece perdida, descalça, meio assustada 

Procura alguém…

Olha nos olhos de cada um que passa

Todos fixam nela o olhar meio encabulados

Continua a circular

Procura alguém, não sabe quem

Mergulha num redemoinho de imagens

Chora, senta, soluça

Alguém cobre seus ombros com uma colcha

“Esse vestido é fino, transparente, vai congelar.”

Reconhece a voz, o olhar, o cuidado

Levanta-se, vira-se e ele desaparece pela porta 

Vai atrás, chega numa porta e só vê nuvens, como de dentro de um avião. 

Sem medo, lança-se espaço abaixo…

Para as nuvens…

E tudo é paz! 

Alda M S Santos

Na estação

NA ESTAÇÃO

O trem partiu…

Ela ficou ali, sentada sobre as malas carregadas, como num filme antigo.

Seu bilhete ia só até ali.

Olha o trem se afastando lentamente

Tem medo, não queria ficar, queria seguir 

Domina o impulso de correr atrás.

Esse não volta.

Será o fim da viagem? 

A linha continua, não para ela.

Tantos já desceram, não os vê…

Outros tantos, queridos, seguem naquele trem…

Ficar parada ali não é opção

Estação é passagem, não destino

Olha para as demais linhas,

Há bifurcações, outros destinos,

Encaminha-se lentamente para o guichê.

Escolhe um destino desconhecido e aguarda.

Novos passageiros, nova viagem

Recomeços…

Alda M S Santos

Carências

CARÊNCIAS

Pessoas bondosas, solidárias, amorosas e generosas ajudam os outros, dão aquilo que não usam mais. 

Sempre oferecem aos necessitados aquilo que lhes sobra, que não é utilizado, supérfluo.

Não acumulam nada, passam para frente qualquer excesso. 

Certo? Também!

Porém, o grande desafio que se impõe, a prova maior de amor é dar o que temos, ou que buscamos, que usamos, precisamos. 

Não necessariamente apenas bens materiais ou recursos financeiros. 

Quem ama verdadeiramente compartilha, doa até o que não tem, o que não dispõe, o que precisa buscar dentro de si. 

Distribui aquilo que não se compra, pois não tem preço.

Paciência, tempo, compreensão, carinho, diálogo, amor…

Dão mais que um prato de comida ou uma veste, alimentam a alma. 

Compartilham aquilo que multiplica quando se doa. Benefício bumerangue.

Tantas vezes flanamos por aí contrafeitos, “superiores”, com um verniz de alegria…

Contudo, muitas são as carências humanas, mas a maior delas, a que todos temos e nem sempre são visíveis, se supre com algo que o dinheiro não paga: 

AMOR!

Alda M S Santos 

Espectros

ESPECTROS

Sempre fiquei encabulada com as pessoas idosas que vão perdendo a memória. 

Entre os muitos males que acometem os mais velhos, o que mais me intriga e amedronta é a perda da lucidez, da memória recente.

Meu avô, no final da vida, não se lembrava dos filhos, chamava minha mãe pelo meu nome, misturava dados importantes.

Nosso cérebro é ainda um mistério para a Ciência.

O que faz com que algo de nosso passado distante esteja nítido e algo dos últimos anos se apague? 

Será que “escolhemos”, inconscientemente, o que lembrar? 

Será que o que fica é a melhor parte, o que mais nos marcou ou o que não causa dor? 

Se fosse possível realmente escolher, quais momentos gostaríamos de eternizar em nós? 

Há realmente algo que desejemos apagar sem nos descaracterizar?

Ainda que estejamos marcados nas vidas daqueles que amamos, que convivemos, acho cruel essa perda das lembranças. 

Penso que ao se extraí-las, vão nos apagando aos poucos, viramos um espectro de nós mesmos. 

Pior que isso, só sermos apagados da mente daqueles que amamos. 

Exceto se morrermos cedo, certamente não estaremos incólumes! 

É consenso que ninguém quer perder nada.

Porém, sei que há dissenso, mas, a ter que perder algo, opto em manter minha mente, minha lucidez, minhas memórias.

 E, se possível, minha visão, para ler e escrever. 

Ah! Esqueci que não nos cabe escolher…

Alda M S Santos

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