INFILTRAÇÕES
Trincas nas paredes, rachaduras nas calçadas
Buracos no asfalto, aberturas nos canteiros
Fendas nos quintais, fissuras nos jardins
Permitem a entrada gradativa de água
Possibilitam infiltrações e o lento, nocivo
E quase imperceptível ceder do terreno
Abalam as estruturas, derrubam edifícios
Jogam ao chão monumentos, grandes construções
Como as rachaduras em nossa emoção
Aquelas pequeninas, que quase ninguém vê
Uma decepção aqui, uma indiferença ali, um descaso acolá
Frestas que nem nós notamos
Vão deixando entrar elementos perigosos
Que abalam nossas estruturas
Derretem a liga que nos sustenta
Urge tapar essas gretas: na rua, nos quintais, nos lares, em nós
Deixar apenas a abertura suave das persianas e dos sorrisos
Por onde entra ou sai a luz do sol e do amor
Que nos aquece, nos mantém inteiros, de pé
E de braços abertos para a vida!
Alda M S Santos
ESTRUTURAS FRÁGEIS
Nem todo mal, dano ou dificuldade
Daqueles que abalam as nossas vidas
Devastam tudo, destroem, “roubam” o que temos de mais valioso
Chegam de uma só vez, como uma tragédia da natureza
Derrubando tudo como furacões ou tsunamis
Muito do que abala nossa estrutura física, mental, emocional
Chega devagarzinho, vai dando pequenos sinais
Nem por isso o mal é menor ou menos doloroso
Como um vazamento subterrâneo de água
Ou um formigueiro que cria buracos no solo
Que, se não interrompido a tempo, derruba uma casa inteira, uma via pública, uma cidade
Aparecem trincas, ignoradas, afundamentos, não percebidos
Abalos sísmicos, não considerados…
O físico, a mente, as emoções também dão sinais quando nossas estruturas internas estão em risco
Dores, febres, esquecimentos, angústias, tristezas excessivas
Sono que não passa ou insônia constante
Insatisfação com tudo, falta de estímulo, desânimo, vícios
Tudo precisa ser considerado para manter firmes nossas estruturas
Somos um prédio com várias conexões interligadas e interdependentes
Muitas vezes com outras estruturas de outros prédios dependentes de nós
Uma delas que falha pode comprometer e ruir tudo
E tornar difícil ou impossível a recuperação
Ao vermos um belo prédio não enxergamos a estrutura que o sustenta
Se está suficientemente forte ou cheia de trincas
Ou se apenas um sopro pode derrubá-lo
Pois talvez o mal esteja comprometendo justamente a percepção dos sinais, do perigo que nos ronda
E costumamos enxergar melhor falhas nos outros que em nós mesmos
Saibamos cuidar de nós mesmos e, melhor ainda, identificarmos isso nos outros
Assim, evitamos criar rachaduras comprometedoras nas estruturas alheias..
Alda M S Santos
RACHADURAS
Somos feitos de gretas, falhas, rachaduras, frestas
Pelas gretas é que entram os amores, desavisadamente
Num momento de distração ou fragilidade, tomam posse
E são a liga que une o que há de melhor em nós ao outro
Mantendo-nos estáveis, mesmo sob constantes balanços
Pelas rachaduras é que saem as decepções, amarguradamente
Quando estão nos sufocando buscam ar, aos goles, aos borbotões
E deixam extravasar os excessos, permitindo novo respirar, sobrevivência
Pelas frestas podemos antecipar maremotos e nos preparar
Essas falhas em nossa rocha permitem a água passar sem grandes danos
Tapar nossas gretas e rachaduras não é muito sábio
Uma estrutura sem gretas, sem rachaduras, sem frestas, sem “falhas”
Que permitam que nosso prédio interno se ajeite, se estabilize, se reorganize, dilate
Nos balanços das grandes tempestades
Pode ruir, implodir, explodir, desmoronar…
Alda M S Santos